Na seara do cotidiano, os indivíduos formam uma imagem mental da cidade. Reagimos e interagimos com detalhes e particularidades do ambiente urbano que muitas vezes escapam até ao pesquisador mais atento. É que a cidade vive, assim como vivem as pessoas em suas particularidades. Quando olhamos atônitos para o labirinto hipnótico de vielas e ruas de cidades europeias, admiramos a vida que floresceu no passado e nos conectamos a ela.
Essa experiência é quase impossível de ser descrita, e, acreditem, há pilhas de poesias sobre o assunto. No entanto, podemos senti-la, quando revisitamos um livro da infância, visitamos uma morada marcante, ou então passeamos por um bairro que tenha nos marcado. Familiaridade, experiência, memória e história são alguns dos termos que veem à mente. Vivenciamos a essência de um lugar ou partilhamos de seus resultados indiretos através da convivência com indivíduos que possuem identidade com o lugar em que vivem. Sentimento de pertencimento é uma importante variável para a preservação da essência dos lugares.
Em Bauru existem muitos bairros memoráveis, em que o caminhante atento notará os pequenos detalhes das edificações, os tipos de calçamento, a amizade entre os vizinhos, a calmaria ou o barulho dos bares de esquina, tudo muito além do concreto. Nosso cotidiano caótico pontuado pelo barulho dos carros e pelo eterno duelo com os radares é apenas uma parcela da experiência urbana. A algumas quadras destas grandes artérias, há outro mundo a ser conhecido.
O leitor já pode ter observado isto, aliás, se não o fez, sugiro: pare seu carro a algumas quadras e caminhe até onde deseja ir. Se não estiver com pressa, quebre o ritmo da caminhada e observe as casas e suas entradas, jardins e detalhes na fachada. Em muitos bairros o murmurinho das ruas é como um coroamento de cada um destes elementos. Assim, aos poucos captará a vida que emana desses lugares, a essência de cada pontinho da cidade e quem sabe pertencer a ela um pouquinho mais.
Se procurarmos pelo belo para nos conectarmos, não precisamos de algo nobre ou grandioso, a beleza de um lugar pode existir de edificações simples aos grandes monumentos. Basta um olhar sensível para captar a vida que emana de uma edificação.
Nossos bairros importam, porque nos conectam com a cidade. Importam, pois nos reconhecemos nele. Por isso, toda iniciativa de preservação de suas características principais será muito mais difícil se não construirmos uma empatia com eles. E para isso é importante que nos familiarizemos com a essência de nossos bairros. A cada mutilação grosseira em nossos bairros apagamos uma camada na memória da cidade. O fazemos, porque não nos conectamos a ela, construímos cubos de gelo branco no lugar de belos lares, pois não temos a paciência de cuidar daquilo que nos é passado.