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O dogma da produtividade e o fim da criatividade

Mário Henrique da Luz do Prado
| Tempo de leitura: 3 min

Se os dias passam mais rápidos, talvez seja porque os relógios estão trabalhando mais. Ou nós é que estamos. A produtividade - e seu constante aumento - é um dogma do sistema econômico, que pode ser explicado tanto pelas pressões do mercado e livre-concorrência quanto pode, de forma lógica e muito mais trágica, ter sua causa no dogma do crescimento econômico, que é uma face do sistema financeiro e sua cultura de juros e endividamento.


O crescimento infinito da produtividade é busca incessante presente em todo sistema econômico capitalista. Para alguns economistas é fenômeno incluso nas fases das crises cíclicas do capitalismo, pois, para aumentar a produção, o capital acumulado é usado para implementar os meios de produção, o que causa desemprego e encolhimento da economia.


Esta busca por produzir mais parece saudável por gerar mais riqueza econômica, mas não passa de um fenômeno de uma cultura diabólica que tem o carinhoso nome de sistema financeiro. Dia desses vimos um anúncio de uma secretaria de educação em que alunos em suas carteiras estavam em uma linha de montagem. Só jogaram num - infeliz - cartaz o cenário da nossa educação, que busca cada vez mais formar mão de obra, sem dar a mínima atenção para a formação se seres pensantes, críticos, contestadores e questionadores.


As universidades, que sempre foram um ambiente rico em conhecimento, filosofia, crítica social, formando e formado de elite intelectual, hoje é um amontoado de apostilas, com exceção de algumas boas universidades muito concorridas em que só entram os alunos dos cursinhos caros. Querem nos formar um monte de apertadores de botões analfabetos com diplomas. Mais trágico que isso é imaginar onde irá parar a nossa criatividade. Como imaginar que vamos formar seres pensantes se nem nas universidades isto é estimulado?


Uma hora destas pode haver perto de nós um Van Gogh, mas ele estará preenchendo uma planilha, estudando para o vestibular, ou numa mesa qualquer fazendo coisa qualquer para poder pagar seus financiamentos. A criatividade não faz sentido no dogma da produtividade, e por isto mesmo ela não é estimulada em lugar nenhum.  Todos apreciamos a arte, mas nos sentimos muito distantes dela, porque não tem lugar em nós uma coisa tão fragmentadora dos nossos conceitos e paradigmas como é a arte.


A criatividade não é estimulada justamente porque ela não faz parte do processo produtivo em quase nenhuma das atividades profissionais, pois a produção de mão-de-obra sempre foi massiva e, por isso, desconsidera as individualidades. Também não é bem vista por ser questionadora, e causaria a ruptura dos sistemas vigentes. E a massificação atinge não só os (potenciais) artistas, como também a própria arte popular, na dramaturgia, na música, que parece tratar sempre dos mesmos temas, com forma e conteúdo muito parecidos, desprivilegiando a diversidade que é prima pouco distante da criatividade.


Parece loucura dizer que os fenômenos econômicos, como a pressão por crescimento de produtividade, possa alcançar a arte e a filosofia. Mas é perfeitamente factível este pensamento quando analisamos o atual estágio da educação, que está, principalmente no ensino superior, claramente privilegiando a formação de profissionais e muito pouco preocupada com uma formação humanista, de um indivíduo bem contextualizado e participante da construção social. Esta pressão no mundo universitário pela formação de mão de obra busca justamente aumentar produtividade, e isto tem sido incentivado por corporações que tem interesse neste fenômeno (veja-se a participação ativa de Bancos em projetos como o Plano Nacional de Educação).


Isto se manifesta na (falta de) expressão artística pós-moderna e no desprezo pelos processos de criação, e nos leva a crer que a busca por produzir mais aliena o homem de seu ser, e isto lhe atinge de todas as formas.


O autor é advogado em Bauru

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