Tribuna do Leitor

Inscrições racistas, meritocracia e um abraço


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Nos dias finais do mês de julho de 2015 na Unesp, uma universidade pública, foram encontradas frases ofensivas de cunho racista em um banheiro da instituição, com escritos direcionados à comunidade negra, especialmente às mulheres e particularmente a um professor militante do movimento negro. A situação causou revolta e preocupação com a universidade que tem a perspectiva de integrar 25% das vagas para alunos negros, pardos e indígenas estudantes das escolas públicas.

O impulso inicial é encontrar os racistas e criminalizá-los, personalizando as responsabilidades. Movimento necessário que, no entanto, não deve nos privar de refletir sobre as forças políticas reacionárias que começam a encontrar espaço de expressão em momento de tensão econômica, política e social. Munidos de indignação, é necessário pensarmos nossa sociedade e os seres humanos produzidos a partir dela, não sem a mediação das instituições sociais. Trata-se de ponderar responsabilidades superando a particularidade da situação que nos afeta emocionalmente.

A forma de organização social em que vivemos é uma sociedade produtora de mercadorias, destinada ao consumo para gerar mais valor, portanto, o sentido de sua organização é a produção capitalista. Não encontramos polêmicas sobre a denominação da sociedade capitalista e seus objetivos. Tensões e debates ocorrem sobre as consequências do capitalismo para a existência de grande parte dos seres humanos e são decorrentes da impossibilidade de omitir o seu caráter destrutivo e as relações predatórias que são inerentes a essa forma de reprodução social. 

Mesmo em tempos em que a maioria da população é impedida de acessar instrumentos teóricos que permitiriam a compreensão da realidade e da sua condição no mundo, a violência do capitalismo se apresenta aos sentidos a partir de contradições que se atualizam nessa fase histórica de apropriação privada da riqueza produzida coletivamente: necessidade de trabalhar para viver - desemprego estrutural; desemprego estrutural – super-exploração dos trabalhadores; exploração desenfreada no trabalho – avanço contra direitos trabalhistas; necessidade de qualificar a força de trabalho – sistema educacional com a função de selecionar alguns para o trabalho, destruição ambiental, repressão política, brutal desigualdade econômica... Mapeamentos sobre a violência revelam genocídio da população negra e pobre de 14 a 29 anos.

No entanto, existe sim polêmica entre os que acreditam que é possível humanizar o capitalismo e aqueles que não têm qualquer preocupação com as questões humanas e se acreditam merecedores da sua condição de explorador dominante. Existe também antagonismo entre esses e os partidários de que o capitalismo é um projeto de humanidade fracassado. Nesse movimento, encontram-se aqueles que projetam um futuro em que a reprodução da existência tenha o sentido de produzir o bem comum, tendo como referência o conjunto dos homens na luta pela libertação das condições de opressão, enfrentando as circunstâncias embrutecedoras.

Embrutecedora é a ideologia da meritocracia, que defende a ideia de que é possível construir uma ordem social baseada nas diferenças e qualidades pessoais, em que alguns se beneficiarão neste mundo em decorrência de suas habilidades, dos seus conhecimentos e de sua competência. A selvageria dessa lógica se dá pela omissão das circunstâncias violentas e historicamente desiguais em que habilidades são desenvolvidas, conhecimentos são apropriados e as competências formalmente estabelecidas. 

A meritocracia representa um atentado ao acesso dos direitos fundamentais, visto que valoriza a diferença e a desigualdade. É um rito ao individualismo e à intolerância social em que cerimônias são realizadas para supervalorizar o sucesso e maltratar os supostos fracassados no mundo da concorrência. Ela, a concorrência, não é tratada como um mal que leva à desigualdade e à corrupção, mas é santificada em altares por seus devotos tementes ao mercado.

Instituições que valorizam o princípio da meritocracia e organizam formas de gerenciamento centradas na concorrência, secundarizando valores de cooperação, solidariedade e comunidade, atuam no esvaziamento do espaço público, desprezando a atividade política em nome da “racionalidade” técnica do merecimento e desempenho. Nela, ingênuos bem posicionados e os mal intencionados de fato organizam-se numa existência conservadora da desigualdade, que visa omitir diferenças entre projetos societários, aprofundando as dificuldades de existir no adoecido cotidiano pautado por relações sociais predatórias. 

A burocracia que produz essa forma de gerenciamento das instituições tem como consequência necessária a brutalidade, que ironicamente causa espanto a muitos e que também ironicamente muitos fingem espantar-se com ela. Estar imerso em sistema embrutecedor produz dois movimentos: o de resistência e o de aprofundamento da desumanização. Os partidários do desumano defendem a transformação social no sentido reacionário, pautado na discriminação racial, de gênero, de orientação sexual, em última instância, pautado na discriminação da classe explorada e oprimida. São os partidários da brutalidade e se mostram intransigentes na tese de que são merecedores da condição de dominação e exploração.

A denúncia de inscrições contra negros, mulheres e homossexuais nas paredes da Unesp (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – câmpus de Bauru) revela sintomas de embrutecimento que vem sendo gerado pela “ética” da concorrência. Pois brutal é o gerenciamento da instituição fundamentado na meritocracia e na irracionalidade do todos contra todos. A violência é sintoma de que os negros, mulheres, homossexuais e aqueles que lutam pelo bem comum são maltratados cotidianamente no interior da universidade, entre aqueles que se convencionou denominar de elite intelectual.

A violência de que tratamos é sintoma de que a universidade, apesar de muitos avanços decorrentes da luta dos trabalhadores, ainda se fecha para a população trabalhadora, cuja maioria é negra. No entanto, apesar do desagradável reconhecimento de que na universidade existem segmentos que se articulam com o capitalismo seletivo e predatório, temos também que reconhecer que o movimento de resistência no interior da universidade também é forte. Com prudência, os racistas não tiveram a coragem de sair do banheiro, pois sabem que enfrentarão resistência. A divulgação desse infeliz episódio repercutiu como motivação na luta contra circunstâncias embrutecedoras, com possibilidades de trazer consequências positivas na organização dos trabalhadores na luta pela liberdade da classe que vive do próprio trabalho. 

Esses breves comentários que indicam responsabilidades que superam a particularidade da situação violenta em questão não impedem que cumpramos nosso objetivo e comuniquemos um forte e afetivo abraço ao professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, militante do movimento negro, preocupado em dialogar sobre o episódio com sua filha e com os jovens militantes. Sentimos que nesse gesto abraçamos também sua causa.´

 

 Prof. Angelo Antonio Abrantes - Departamento de Psicologia Faculdade de Ciência - Unesp Bauru

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