Economia & Negócios

Comércio aposta em táticas para manter nível de vendas

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 6 min

Fotos: João Rosan
Jaqueline Braga Tavares mudou seu comércio de local em busca de mais movimento
Michelle Fonseca Lima e sua mãe Mara Bezerra Fonseca apostam no atendimento com bom humor
Leandro Moretti reduziu a frequência de viagens para comprar produtos, mas garante que mantém diversidade de opções
Com três lojas de acessórios para celular, Márcia Carloni diz que o movimento varia conforme o ponto no Calçadão

Em ano de retração econômica, o comércio precisa fazer “malabarismo” para se manter forte e competitivo. Com projeção de encerrar 2015 com redução do Produto Interno Bruto (PIB) em até 2%, segundo as principais consultorias do setor financeiro, o Brasil já sabe que 2016 será um ano duro e que, se o ajuste fiscal proposto pelo governo der resultado, a retomada do crescimento só deve ocorrer a partir de 2017.

Termômetro da economia, o setor de comércio e serviços sente diretamente o impacto da diminuição do poder de compra da população, que tem número elevado de inadimplentes. Em algumas áreas, a queda foi mais sentida, enquanto outros conseguem pelo menos empatar ou até melhorar um pouco em relação ao último ano. Nesta última semana, o JC já mostrou que o índice de inadimplência subiu 94% em julho, em Bauru, na comparação com o mesmo mês de 2014.

Segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, o total do “calote” acumulado gira na casa dos R$ 35 milhões, isso apenas nos 1 mil estabelecimentos associados – não inclui ainda os grandes magazines, bancos e financeiras. “Se somar os grandes magazines e bancos, o número certamente sobe para próximo dos R$ 50 milhões, é um valor bastante expressivo”, comenta o assessor da diretoria e advogado da CDL, Elion Pontechelle Júnior.

E o que as micro e pequenas empresas têm feito para se manter nesta época de “vacas magras”, sem ter que recorrer a medidas extremas como demissões? No comércio central, as apostas são bastante variadas. Vão desde promoções, até contratação de locutor para chamar o público nas portas das lojas, passando por investimento em propaganda em diferentes mídias, mudança de ponto ou até redução da margem de lucro para tentar vender mais nesse período.

Migração

Há quatro anos, Jaqueline Braga Tavares possui um comércio de jeans feminino no Centro da cidade. Ela ficou boa parte desse tempo com um box em uma galeria, mas, desde abril, mudou de endereço. Agora, está em outra galeria, desta vez no Calçadão, na esquina com a rua Agenor Meira. E ter um ponto na principal rua comercial de Bauru foi fator determinante para ela. “O ponto ajuda. Eu fiquei quase quatro anos em outra galeria, já tinha minha clientela, mas agora, que estou no Calçadão, consigo atrair além dos meus clientes o público que passa sempre pela Batista de Carvalho. Aos sábados, sempre tem bastante gente de outras cidades da região”, afirma a comerciante.

Em seu box, Jaqueline conta com a ajuda de uma funcionária. Semanalmente, a microempresária viaja a São Paulo em busca de novidades. “A gente tem um público jovem e adulto, e que gosta sempre de ter peças novas, a um preço bom. Então, toda semana estou em São Paulo e trago modelos diferentes para as clientes. Não trabalho com grande quantidade de produto no estoque, procuro ter uma saída rápida, até para ter sempre coisa nova”, pontua. “O aluguel que a gente paga já inclui despesas como luz e água. Pago mais aqui do que no box que eu tinha no outro ponto, mas, por estar no Calçadão, acho que valeu a pena, e é um local que tem uma estrutura boa, climatizado e limpo. Isso chama a atenção das pessoas”, conclui a comerciante.

Quem também está no local é Mara Rejane Fonseca Bezerra, que tem um box junto com a filha Michelle de Fonseca Lima, voltado para confecção feminina. Há 16 anos em Bauru, Mara sempre trabalhou com comércio e já fez venda de porta em porta e em ponto físico. Estabelecida na galeria, ela entende que o atendimento é o fator diferencial das lojas. “A gente tem que atender bem a clientela, com bom humor e educação. O que diferencia uma loja da outra muitas vezes é esse atendimento, é tratar bem as pessoas, e é isso que procuramos fazer”, resume.

Dentro do atendimento, ela cita o ambiente, que é climatizado e organizado, como forma de atrair mais gente, e aponta outro aspecto que também deve ser levado em conta: o preço. “Eu procuro trabalhar com uma margem de lucro menor para ter um preço bom. A margem de lucro nesse segmento costuma ser de 100%, mas a gente trabalha com 80%, às vezes 60%. Buscamos produtos em vários lugares, como São Paulo e Maringá, até para ter peças sempre variadas”, frisa.

Organização

Uma das regras adotadas nesta galeria é que não haveria concorrência entre os comerciantes. Para isso, cada segmento possui apenas uma loja no local. Dono de um box de acessórios, Leandro dos Santos Carlos Moretti está há oito anos em galerias, e para ele, ter várias opções em um único ponto é interessante. “Isso é algo bom para o publico. E pelo que percebo, aqui no Calçadão, sempre tem um público constante, bastante gente todos os dias. Como é uma galeria nova, muita gente está conhecendo agora, então já investimos em carro de som, por exemplo”, menciona. Para reduzir despesas neste período, Moretti diz que agora viaja para comprar mercadorias a cada 15 dias, sendo que antes fazia isso semanalmente.

Locutor

Na divulgação, os comerciantes fazem um rateio e, em datas comemorativas, como Dia das Mães e Dia dos Pais, e também próximo aos dias de pagamento e vale, um locutor é contratado para chamar o público que passa pelo Calçadão, e a estratégia tem funcionado, segundo os lojistas.

A administradora do local, Ana Carolina Leonel, pontua que o objetivo inicial foi atingido. “Começamos no dia 4 de abril, e todos os boxes estão ocupados. A crise está aí para todos, mas, na medida do possível, estamos conseguindo manter. Nesses quatro meses, só uma pessoa saiu, os demais permaneceram. Fazemos os contratos valendo três meses e o aluguel já engloba despesas como água e luz”, reitera, sem entretanto revelar os valores cobrados.

Almoço

Márcia Carloni possui uma loja na quadra 2 do Calçadão e boxes em duas galerias, ambas na Batista de Carvalho. Todos os estabelecimentos trabalham com a venda de acessórios para celular. “Estou no ramo há 17 anos, e meu marido vai toda semana para São Paulo, eu vou uma vez por mês em busca de novidades”, comenta.

Nas galerias, ela revela que as vendas até estão estabilizadas, mas que, na loja que mantém sozinha, a situação é mais difícil, por estar fora do eixo concentrado nas quadras 3, 4 e 5 do Calçadão, os de maior movimento. “Olha, lá está mais difícil, tem várias lojas fechadas e caiu o movimento. Eu até pensei em fechar já, mas, por enquanto, está se pagando, tem mês que já deu prejuízo, agora deu uma estabilizada. Nessa loja, tenho um funcionário e, na hora do almoço, minha filha segura o movimento para ele poder comer. Ela faz isso nos outros pontos também, para que os funcionários possam almoçar”, explicando a alternativa para manter os estabelecimentos abertos das 12h às 14h sem ter que recorrer a horas extras ou mais funcionários, por exemplo.

 

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