Oporquê desse título. No último dia 11 de junho, após 10 dias de internação na UTI do Hospital Santa Cruz/SP, meu pai (João Pinzan), com 95 anos, faleceu após complicações renais. Desde o primeiro contato com as médicas nos foi informado que o quadro era grave e de difícil reversão. No discurso das 3 médicas com as quais conversei, foi dito: “Ele está sedado e manteremos a dignidade dele”. Pareceu-me, pela repetição do mesmo discurso, ser uma orientação da sua direção. Todas as visitas na UTI, sempre sua aparência era de estar em paz e dormindo profundamente, apesar de todos os equipamentos nele instalados para dar suporte. Quantas reflexões sobre essa palavra Dignidade, tão difícil de ser expressada nesses dias. Sondas, cateteres, coletores, entubações, frascos com soro, medicamentos e aparelhos, certamente trariam muito desconforto para ele. Para nós também, foi um tempo que Deus nos deu para preparar-nos para a despedida que se aproximava. O respeito dos médicos e enfermeiros a todos os que ali se encontravam internados era admirável e trazia uma tranquilidade possível para aqueles momentos. Foi pedagógico. Ao exercer conjuntamente o ensino (nesses 40 anos de FOB USP) e a prática clínica em consultório (22 anos), sempre me preocupei em respeitar meus semelhantes. Ansiedades de alunos, pacientes, professores, sempre procurei ouvi-las e ajudar na melhor forma que minha consciência mandava. Quantas vezes, na minha especialidade (ortodontia), que trata muito com a parte estética dos jovens e adultos, percebia-se que maior que o problema em si, ali relatado, estava numa “dor na alma”. Aconselhei muitos a procurarem tratamento psicológico, pois o que poderia oferecer certamente não deixaria o paciente completamente satisfeito. Confesso que perdi muitos pacientes, mas estava em paz por acreditar nas minhas convicções. Em minhas aulas, cito que o consultório é uma empresa, que vive de receitas e tem despesas, sendo o resultado final do mês: lucro, empate ou prejuízo. Também cito, que ao buscar uma receita de R$ 200,00 a hora trabalhada, por exemplo, posso auferir o mesmo valor atendendo um paciente a R$ 200,00, dois pacientes a R$ 100,00 ou quatro a R$ 50,00, cada um. O que ressalto é que a uma hora dedicada ao primeiro, 30 minutos de atendimento aos 2 pacientes ou quinze minutos aos 4 pacientes, não será possível a mesma qualidade de serviço por mim prestada. Uma vez li que uma consulta médica deveria ser de 60 minutos, sendo 50 deles dedicado às queixas do paciente. Aprendi, na escola da vida, que algumas atitudes funcionam muito bem, conforme a atenção que lhes são dadas. Não vejo no currículo da odontologia matéria de psicologia sendo ministrada aos alunos. Fico imaginando, quando abrirem esperançosamente seus consultórios, se depararem com pacientes que relatam suas queixas de trincas nos dentes e restaurações, dores na musculatura facial e na nuca, problemas respiratórios, podem se associar a problemas psicológicos, que devem receber a atenção e a dignidade necessárias àquela consulta.
Cada dia está mais difícil viver nesse mundo dominado por máquinas e computadores, que são auxílios “frios” e que não contemplam a humanização. Imagens diárias nas tvs nos mostram situações de idosos apanhando, estupros, cenas de violência em roubos, sequestros, execuções sumárias, nos paralisam completamente, e me faz refletir se somos mesmos seres inteligentes que dominam esse planeta, que os religiosos dizem ser feito por Deus e que atribuiu-se ao homem o domínio sobre todas as suas diversas criações. Uma imagem forte, ganhadora de prêmios e divulgação mundial, que seu fotógrafo se suicidou, mostrava um urubu e uma criança africana, quase morrendo, com dizeres que o animal estava preservando a dignidade da criança, até ela morrer, para depois deixar seu instinto animal agir. Carreiras que tratam das diversas áreas das ciências da saúde deveriam contemplar algumas orientações psicológicas para seus alunos saírem com o diploma, com as habilidades práticas e emocionais tão importantes para o tratamento daqueles que são chamados Pacientes, em todas as suas dimensões.
Arnaldo Pinzan- Prof. associado III FOB-USP e 2º secretário do Lions Clube de Bauru Centro.