| Quisohi Goto |
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| Luís Victorelli aceita trocas para conseguir vender seu sobrado |
Foi ainda no início do século 16 que a História do Brasil registrou as primeiras práticas de escambo, em que colonizadores portugueses ofereciam objetos, como espelhos e ferramentas, em troca do trabalho indígena. Passados mais de 500 anos, nem mesmo a adoção de uma moeda oficial, dos cartões de crédito e até mesmo de financiamentos bancários conseguiu extinguir esta antiga estratégia de negócios.
Devido ao cenário econômico desfavorável que o País atravessa, donos de imóveis têm recorrido, cada vez mais, à permuta para conseguir efetivar vendas. Segundo entidades do ramo, a maior flexibilidade nas negociações - em que proprietários aceitam imóveis de menor valor, terrenos e até veículos como permuta – intensificou-se nos últimos cinco meses.
“Tudo isso é reflexo de um cenário nacional de retração econômica, que não atinge apenas o setor imobiliário. Diante da dificuldade em vender, é preciso encontrar facilitadores para fazer os negócios acontecerem”, destaca Fernando Cesar Pegorin, diretor da área de imobiliárias da regional de Bauru do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP).
Para Carlos Eduardo Candia, delegado regional do Conselho Regional de Corredores de Imóveis (Creci), o recurso das trocas é mais comumente utilizado para imóveis de maior valor, a partir de R$ 500 mil. “Até donos de casas de R$ 1 milhão estão aceitando este tipo de proposta. Mas, quanto maior o valor, maior a dificuldade para venda”, salienta.
Os especialistas destacam que não existem regiões específicas da cidade onde se concentram os imóveis com este tipo de facilidade para compra. Mas, de acordo com Pegorin, boa parte deles está localizada em condomínios fechados.
Nas páginas de classificados do JC, é possível encontrar anúncios de imóveis à venda em lugares tão distintos como o Residencial Villaggio, as avenidas Nações Unidas e Getúlio Vargas, os jardins Primavera, Ferraz, Bela Vista, Cruzeiro do Sul e Petrópolis, bem como o Núcleo Mary Dota. Os valores divulgados variam entre R$ 165 mil e R$ 870 mil e os vendedores aceitam casas ou apartamentos de menor valor, terrenos e veículos em permuta.
‘Queima’
Segundo Candia, as trocas têm ocorrido com maior frequência neste ano porque, além do momento de estabilidade na demanda por imóveis na cidade, quem ainda possui interesse em comprar tem resistido a contrair financiamentos, cada vez menos atrativos devido à elevação das taxas de juros. “E a venda, à vista, do valor cheio é muito difícil de acontecer. Então, o proprietário precisa encontrar saídas, abrir o leque de possibilidades para negociação. Senão, o imóvel dele corre o risco de ficar meses parado na imobiliária”, destaca.
Se, de um lado, existem potenciais compradores cautelosos em fazer empréstimos bancários, de outro há alguns proprietários que, em meio à crise, precisam vender uma casa ou apartamento para “fazer dinheiro” com certa rapidez. “Assim, ele pode fazer a ‘queima’ do seu segundo imóvel ou mesmo vender o imóvel onde mora, e trocar por outro mais barato”, explica Candia.
Além da possibilidade de permuta, os vendedores também têm oferecido outros vantagens, como um número maior de parcelas para o pagamento, conforme destaca Pegorin. “E outro benefício para quem compra são os preços, que entraram em acomodação, depois de um período de valorização acelerada dos imóveis”, completa.
Corretor de plantão
Há três meses, o jornalista Luís Victorelli, 52 anos, tenta vender um sobrado de 14 cômodos localizado na quadra 3 da rua Voluntários da Pátria, no bairro Higienópolis. Mas ele sabe que o preço, de R$ 700 mil, pode assustar os potenciais compradores em tempos de crise.
Por este motivo, o proprietário decidiu aceitar permutas, desde que não ultrapassem 50% do valor do imóvel em oferta. “Aceito outro imóvel, veículo ou terreno em troca. Além da boa localização, o sobrado é híbrido, já que possui uma área que pode ser utilizada para comércio”, detalha.
Victorelli conta que decidiu desfazer-se do imóvel há alguns anos porque queria mudar-se para um espaço menor. Na época, acabou financiando outra casa, já que, ainda com o mercado imobiliário bastante aquecido, não se sentiu atraído por nenhuma das propostas feitas pelos compradores.
“Foram ofertas que, hoje, eu aceitaria facilmente. Mas a realidade econômica era outra. Além disso, eu ainda não havia procurado uma imobiliária e não tinha definido o valor que eu realmente queria”, destaca.
Agora, o jornalista conta até mesmo com um corretor de plantão, que permanece quase todo o dia no sobrado, para atender e apresentar o imóvel aos potenciais compradores, mesmo sem hora marcada. “Até pelo fato de já ter comprado outra casa, as possibilidades de negociação são maiores. Quem tiver metade do valor da casa e uma boa oferta para fazer poderá ficar com o imóvel”, completa.
Até unidades novas
Presidente do Conselho Regional de Corretor de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), José Augusto Viana Neto revela que até mesmo proprietários de imóveis novos têm aceitado fazer permutas. “Quando o mercado estava muito aquecido, os incorporadores não aceitavam móveis usados como parte do pagamento. Hoje, esta realidade mudou”, explica.
Segundo Viana Neto, as trocas começaram a se tornar recorrentes devido ao preço elevado das unidades lançadas, cujo aumento foi muito superior à evolução da renda da população. “Com isso, os salários se tornaram insuficientes para cobrir a exigência dos bancos para financiamentos”, pondera, destacando, contudo, que as permutas atingem essencialmente unidades menos procuradas, como apartamentos localizados em andar térreo ou primeiro andar.
“O estoque deste tipo de imóvel é muito grande. Mas é interessante ressaltar que se tratam de unidades remanescentes. As demais continuam sendo vendidas rapidamente, em até 90 dias, quando comercializadas a preço de mercado”, finaliza.
