| Renan Casal/Arquivo JC |
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| Assim como ocorreu no ano passado, em Bauru, desfile cívico acontece no Sambódromo e deve reunir milhares de pessoas |
Bandeira, hino, verde e amarelo. Os símbolos da pátria, mais uma vez, tomarão o Sambódromo na manhã desta segunda-feira (7), a partir das 8h45, no desfile cívico de 7 de Setembro, data em que se lembra a Independência do Brasil, declarada em 1822. Estima-se que 4 mil pessoas irão desfilar. Mas por que uma tradição tão antiga e que já foi usada como instrumento de poder para atender a distintos interesses ao longo da história nacional ainda sobrevive? Qual sua ressignificação para os dias de hoje?
Diretora regional de ensino em Bauru, Gina Sanches acredita que as paradas ganharam, nos últimos anos, caráter de exaltação à cidadania. “O desfile vem sempre acompanhado do trabalho de resgate histórico e suas reflexões. No fim das contas, a ideia é estimular o amor ao País, fazendo com que as crianças e os jovens entendam que são eles os protagonistas da nação”.
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Apesar da ideia de que os desfiles estejam em baixa, a dirigente destaca que, em Bauru, a participação das escolas da rede estadual tem sido ampliada no 7 de Setembro. “Estamos motivando e recebendo o acolhimento tanto dos professores quanto dos alunos, que gostam de estar ali”.
Nesta segunda-feira, oito escolas estaduais estarão representadas. Ao todo, 4 mil pessoas e 51 grupos participarão do ato cívico, incluindo entidades assistenciais e religiosas.
HERANÇA
Menos otimista, Cláudio Bertolli, antropólogo e professor da Unesp, acredita que os desfiles ainda não se livraram dos estigmas de “enfadonho” e “irritante” herdados do regime militar, instaurado no Brasil no período entre 1964 e 1985.
“O exército, a bandeira, o hino e todos os símbolos nacionais foram exaustivamente usados não mais para exaltar a pátria, mas sim a própria ditadura. Uma geração, à qual eu pertenço, foi obrigada a participar desses desfiles nas escolas. Havia punição para quem não seguisse a regra, inclusive com suspensão de três dias. O objetivo era apenas o de impor a sensação de ordem, de uma harmonia que não existia. Algo que até então era positivo foi ressignificado. Tanto é que esses desfiles tornaram-se bem menos concorridos”, analisa.
A “herança”, segundo Bertolli, ainda não se dissipou porque as próprias Forças Armadas também não conseguiram se reposicionar frente à sociedade mesmo 30 anos depois do fim do regime.
“O máximo que percebemos é a participação nos desfiles de instituições que estão vinculadas ou são dependentes de verbas do Estado. Não há espontaneidade da sociedade”.
Além de Bauru, várias outras cidades da região terão terão desfiles hoje.
Desfiles se massificaram durante a ‘era Vargas’
Cláudio Bertolli pontua que as paradas militares surgem ainda na história antiga, durante o Império Romano. No Brasil, surgiu com a constituição do Exército Nacional, formado para a Guerra do Paraguai. Os desfiles já eram tradição na Velha República, com o intuito de reforças valores, como a autonomia e a independência do Estado Nacional.
Esses atos se massificaram e receberam a adesão da sociedade civil, no entanto, durante os primeiros governos de Getúlio Vargas (1930-1945), por meio de sindicatos e grupos estudantis.
A “era Vargas” significa um momento de afirmação do nacional, o qual encontrava-se exacerbado, em nível global, à época. O conceito de nação remete a valores positivos como a língua, a cultura e a defesa do território. No entanto, sua exacerbação leva à xenofobia (ódio aos estrangeiros) e até a perseguição das “minorias”, como aconteceu no nazismo e no fascismo, “contemporâneos” de Gatúlio.
O Dia da Pátria, 7 de setembro, só se tornou feriado nacional em 1949, durante o governo de Eurico Gaspar Dutra. A partir disso, a ideia do nacionalismo foi, gradativamente, sendo substituída pela ideia do patriotismo, até a ascensão do regime militar na década de 1960.
Amor à pátria
Nos últimos meses, especialmente nos protestos contra a corrupção e o governo Dilma Rousseff (PT), notou-se a exaltação aos símbolos nacionais por parte dos manifestantes, que abusaram das bandeiras e vestimentas em verde amarelo. Em menor proporção, até mesmo a exaltação às Forças Armadas foi observada em alguns atos Brasil afora.
Para Cláudio Bertolli, a utilização desses símbolos é uma forma de os brasileiros mostrarem que amam a pátria, mas reprovam o governo e até mesmo o Estado. “É muito comum se falar que o brasileiro não ama a pátria. Não é uma verdade. E é em defesa dela que se recorre a esses elementos. As manifestações ganharam tom emotivo desde as últimas eleições presidenciais. Isso se dá pela indignação frente ao Estado e seus rumos. Mas se há essa carga de rancor frente ao PT, por exemplo, há também uma carga positiva frente aos símbolos nacionais. Constituem-se duas faces da mesma moeda”, conclui o antropólogo.
Documentos afirmam: imagem lendária do grito do Ipiranga não existiu
Por Aurélio Alonso
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Uma tremenda indisposição intestinal atacava o príncipe regente D. Pedro I em 7 de setembro, às 16h30 de 1822, quando ele decretou a Independência do Brasil. Nada do cenário imortalizado no quadro de Pedro Américo reflete a realidade. Até hoje, nos livros didáticos, ficou a imagem de D. Pedro I em cima de um belo cavalo com a espada em riste. Em 1972, o cinema recriou a cena com Tarcísio Meira.
Não houve glamour nenhum. O óleo sobre tela pintado em Florença na Itália entre 1886 e 1888, por Pedro Américo, que marcou a imagem no inconsciente coletivo brasileiro, é coberto de polêmica e acusado de plágio em cima da obra “Napoleão em Friedland”.
O que os políticos e marqueteiros de hoje fazem na manipulação de imagens de obras públicas não perde nada para que o que se fez lá nos primeiros anos do país recém-liberto. A “desconstrução” dos fatos é provada com documentos históricos, mas o famoso adágio ‘Quando a lenda é melhor do que a história imprima-se a lenda’ vingou, claro, por conveniência dos detentores do poder.
D. Pedro estava em cima de uma mula, coberto de lama e poeira e não no alazão fogoso acompanhado da cavalaria com uniforme de pompa. Momentos antes de chegar ao arroio do Ipiranga, o príncipe regente tinha parado em uma estalagem, porque estava com problemas intestinais, não se sabe se provocados por alimento mal conservado ou água contaminada das bicas existentes ao longo da Serra do Mar.
O documento que registra o “desconforto” é do coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo, que deixou em suas memórias as evidências da “dor de barriga” do príncipe, então com 24 anos. O jornalista Laurentino Gomes retrata no livro ‘1822’ que o coronel usa um eufemismo para contar os intervalos regulares de D. Pedro para “prover-se” no denso matagal que cobria as margens da estrada. Esse detalhe também é contado por Octávio Tarquínio, no livro “A vida de D. Pedro I”.
A Independência foi proclamada por D. Pedro I após receber correspondências de José Bonifácio e princesa Leopoldina de que a colônia tinha ordenado a volta do príncipe regente, porque a metrópole pretendia nomear interventores militares, encarregados de manter a ordem em cada província.
Na carta, Bonifácio escreveu: “Senhor, o dado está lançado e Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores”. Nove anos depois, em 7 de abril de 1831, D. Pedro I abdicaria o trono brasileiro, o seu primogênito D. Pedro II assumiria num segundo e último período monárquico até a proclamação da República, arquitetada de um golpe militar.


