Se há alguma coisa de que os sorveteiros ambulantes não podem reclamar é o calor excessivo registrado neste ano. Com dias quentes, os sorvetes duram pouco tempo nos carrinhos e, assim, o ganho com a atividade se multiplica.
E, com a chegada da primavera, que começa oficialmente às 5h20 de hoje, a tendência é de que as temperaturas fiquem ainda mais altas e o apetite dos moradores por um picolé bem gelado aumente na mesma proporção. A chegada da estação mais florida do ano – em que normalmente são registrados os recordes anuais de calor - também é a data em que se comemora o Dia do Sorvete, produto tão ligado à profissão dos carrinheiros, popularmente chamados de sorveteiros pelas ruas por onde passam.
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| Carlos Ferreira saboreou casquinhas distribuídas por sorveteria no projeto Formiguinha |
A tarefa de levar o doce no conforto da casa ou no local de trabalho dos consumidores é bastante árdua, mas compensadora para a maioria deles. Quase sempre, são vendedores do sexo masculino, com mais de 40 anos, que encontram nesta função uma forma de complementar a aposentadoria ou mesmo a renda de outras atividades.
Há 13 anos no ramo, o carrinheiro Roberto Cremer, 50 anos, costuma deixar seu carrinho de lado e pegar sua moto para recolher materiais recicláveis quando chove ou faz frio. Mas, com as temperaturas ultrapassando a casa dos 30 graus todos os dias desde a semana passada, os sorvetes são sempre a sua prioridade.
“Com este calor, ajuda muito. Tem dias que vendo três carrinhos e não sobra um. Sai muito, principalmente os de fruta”, comenta, mostrando o compartimento vazio após o dia de jornada. Quando o dia é bom assim, são cerca de 250 picolés. O faturamento, contudo, é sempre dividido em percentuais preestabelecidos com a sorveteria que fornece, por consignação, os produtos. “O dinheiro que eu ganho é suficiente para sobreviver. Só sobraria se eu vendesse esse tanto de picolés todos os dias”, completa.
‘Segredo’
A rotina de Roberto é a mesma de Laurindo Lopes Carvalho, 50 anos. Todos os dias, são cerca de seis a sete horas de caminhada sob sol forte, nesta época do ano. Laurindo diz caminhar cerca de cinco quilômetros todos os dias. Ao mesmo tempo em que vende picolés, ele também comercializa CDs e DVDs, atividade que já desempenhava antes de se tornar carrinheiro.
“Consegui melhorar bastante a minha renda. O segredo é ir fazendo uma clientela fixa. Eu, por exemplo, ‘faço’ a saída de uma escola, a entrada de um hospital e a região central. Dependendo, vendo dez, vinte picolés de uma só vez”, conta ele, há apenas oito meses na profissão.
Roberto e Laurindo não trabalham com carteira assinada e possuem um acordo informal com a sorveteria, que fornece os carrinhos em troca de um percentual das vendas. Na empresa, diariamente, atuam de 20 a 25 carrinheiros, que respondem por quase 30% do total de picolés comercializados.
É o mesmo modelo de trabalho do sorveteiro Elias Cardoso da Silva, 41 anos, quatro deles dedicados a comercializar sorvetes. Ele garante que o ano quente de 2015, que atravessou um inverno praticamente sem dias frios, foi fundamental para ampliar as vendas de picolés, mesmo diante de um cenário de crise econômica.
“Aumentou bastante e espero que melhore ainda mais”, comemora ele, com sua corneta nas mãos para chamar a clientela e vestindo um amplo chapéu de palha, que o protege do sol escaldante de Bauru em mais um dia de trabalho.
Inverno foi um grau mais quente do que a média dos últimos 30 anos
O inverno bauruense foi um grau mais quente em 2015, considerando a média climatológica dos últimos 30 anos. Segundo o meteorologista José Carlos Figueiredo, do Centro de Meteorologia de Bauru (IPMet), não há uma explicação precisa para a elevação das temperaturas neste ano, nem mesmo é possível afirmar que as próximas estações repetirão o fenômeno.
“Já o mês de agosto foi 2,4 graus acima da média, mas não é possível afirmar que esta mudança tenha algum significado e que irá persistir”, pontua. A chegada da primavera, aliás, deverá ser marcada por diminuição das temperaturas, conforme adianta Figueiredo.
A partir do fim da tarde de sexta-feira e início do sábado, a chegada de uma frente fria deverá derrubar as temperaturas máximas em até dez graus. De acordo com o meteorologista, o contraste entre esta frente carregada de umidade e o tempo quente e seco que perdurará nesta semana em Bauru deverá favorecer a formação de nuvens de tempestade.
“É algo que sempre se espera para a primavera: tempestades com possibilidade de desenvolver tornados, principalmente nesta fase inicial, de transição entre uma estação e outra”, adianta. A previsão é de tempo instável no sábado, com menor probabilidade de chuva já no domingo.
Refresco
O sábado passado foi o dia mais quente do mês, com temperatura máxima de 36,7 graus, e também a data em que as crianças do projeto Formiguinha puderam se refrescar com sorvetes de diversos sabores, que foram distribuídos gratuitamente pela Sorveteria Mônica. Há nove anos, a empresa promove a iniciativa, que começou nas ruas da periferia da cidade e, hoje, atende especificamente os pequenos assistidos pela entidade, localizada no bairro Pousada da Esperança 2.
O objetivo é comemorar o Dia Nacional do Sorvete, celebrado no dia 23 de setembro e festejar a chegada da primavera. Ao todo, foram 60 litros de sorvete de massa oferecidos às 80 crianças do projeto.
“Nossa satisfação maior é ver a alegria da garotada saboreando o doce. Ficamos felizes com a felicidade deles”, completa o gerente da sorveteria, Viterbo Neto.
