É admirável a capacidade de organização e coordenação dos três locais que exibem filmes aqui em Bauru: Alameda, Shopping Boulevard e Bauru Shopping. Todos, até parecendo uma combinação diabólica, passam somente comédias e enlatados americanos de caráter alienante e nenhuma qualidade artística. Muitas vezes, o mesmo “abacaxi digital” é exibido em inúmeras salas numa verdadeira overdose da mesmice. Isso é muito ruim e afronta a capacidade de escolha das pessoas em geral e do coitado do bauruense que é submetido a esse martírio. Bauru, cidade de muitas universidades, não é brindada com um mísero filme de qualidade a que os estudantes possam assistir e exercitar sua capacidade crítica e intelectual.
Há aproximadamente um mês foi lançado um filme nacional denominado “Que horas ela vai chegar”, com desempenho magistral da carismática atriz global Regina Casé, filme este muito elogiado pela crítica e grande imprensa, tendo sido premiado nos festivais internacionais de Berlin e de Veneza e tudo indica que será escolhido para representar o Brasil no próximo Oscar na modalidade filme estrangeiro.
Esse filme desenvolvido no formato clássico tem apresentação, desenvolvimento e desfecho marcados, desenvolvendo temática que tem tudo a ver com a nossa realidade social, assim como passagens cômicas para agradar o grande público. Duvido que esse filme seja exibido em Bauru, apesar de ter sido coproduzido pela Globo Filmes e mencionado nos programas “Esquenta” e “Fantástico”, porém o mesmo não se enquadra no tipo de lixo que abunda em nossas telas com filminhos cujo único objetivo é o faturamento máximo, jamais exibindo algo mais elaborado e com temática minimamente fora do convencional, os denominados “filmes de arte”.
No lixo a nós imposto pelos três empreendedores mencionados só nos oferecem comédias ou enlatados americanos com efeitos especiais e porcarias que nada acrescentam ao lixo cotidiano que vemos na televisão comercial.
Para terminar, lembro uma história engraçada. Há muito tempo teria sido exibido, no extinto Cine BTC, o filme “Ovo da serpente”, do diretor sueco Ingmar Bergman, conhecido pela qualidade de seus filmes e pela complexidade dos temas abordados. Dizem que o operador da máquina de projetar filmes no extinto Cine BTC, num momento de distração ou por descuido motivado pela monotonia da profissão, inverteu os rolos de celuloide do filme, tendo passado inicialmente o último rolo e terminado a projeção com o rolo inicial.
Os bauruenses cultos que tiveram oportunidade de assistir essa sessão ímpar de cinema, com rolos trocados, ficaram impressionados com a “genialidade” do cineasta sueco, o qual, num momento de ruptura com os dogmas cinematográficos, teria criado uma nova forma de ordenar as cenas, com tudo invertido e desafiando as regras até então existentes que propagavam filmes que exibissem os fatos sequencialmente com um começo, um meio e um desfecho preferencialmente feliz, sempre nessa ordem.