O momento delicado por que passa a economia nacional somente será superado quando efetivamente tivermos o pleno controle da inflação. Esta é a condição para o país pensar em voltar a crescer, economicamente falando. Afinal, o que causa a inflação? Os ensinamentos básicos de economia indicam que a inflação é gerada tanto pela oferta como pela demanda.
Do lado da oferta, portanto, por quem vende, a alta de preços pode ser provocada pelo repasse de custos aos preços finais, como é o caso, por exemplo, do aumento do preço do pãozinho. Dólar mais alto eleva o custo de importação do trigo, este aumento de custo é repassado ao preço final. Nestes últimos tempos tivemos inúmeros insumos que subiram de preços, como a energia, água, combustível, entre outros.
Do lado da demanda os preços sobem quando há excesso de procura ou insuficiência de oferta. Se todos os consumidores resolverem, simultaneamente, demandar determinado produto, a concorrência entre os consumidores pode elevar os preços. Há ainda o fato de a oferta do produto ter sido reduzida. Isso ocorreu com o tomate, cebola, carne, entre outros. Não há excesso de demanda, mas a redução na oferta do produto eleva seu preço.
Considerando o atual comportamento do consumidor, está evidente que a inflação no Brasil é causada pela oferta, ou seja, os produtores repassando seus custos ao preço final. E isso ocorre mesmo com o mercado debilitado, à medida que o Brasil tem importantes setores muito concentrados. Os grandes conglomerados empresariais dominam segmentos importantes da economia. São denominados de oligopólio, ou seja, poucos ofertantes. Não obedecem às leis de mercado e repassam aos preços finais o aumento de custo, e como possuem volume, escala, acabam impondo seus preços.
O que o governo faz neste momento para combater a inflação? Não ataca as causas do desequilíbrio entre oferta e procura. Vejam o caso do aumento da taxa de juros, é somente um paliativo. Juros altos inibem a demanda (que não é causa da inflação) de bens financiáveis. Assim o aumento dos preços de alguns produtos, principalmente da cesta básica, é compensado pela queda no preço do televisor, por exemplo. Como combater a causa da geração de inflação?
É imperativo ampliar a oferta de produtos e serviços. Isso ocorre com investimentos. O setor privado precisa sentir confiança que ao investir terá o retorno esperado. Também precisa de linhas de crédito de longo prazo e com juros em níveis suportáveis. Enquanto isso não ocorrer, quem dará o tom na oferta de produtos serão as empresas que dominam seus setores. Vale ainda destacar que as margens de lucro caíram o que reduz o volume de recursos disponíveis para investimentos.
Por seu turno, o setor público precisa gerar excedentes na gestão das contas públicas para não deixar os fundamentos econômicos se deteriorem, como por exemplo o endividamento público, e ainda com estes excedentes estimular também os investimentos. Por isso a importância do ajuste fiscal para criar condições para retomada do crescimento econômico. Ajuste bem feito, com estratégia clara na condução da política econômica, cria um ambiente favorável na economia, acalmando os inseguros, o que culminaria em menor risco interno, reduzindo o prêmio por este risco, retratado nos juros elevados.
A conclusão por este prisma é: sem o controle efetivo da inflação não há espaço para retomada do crescimento econômico. E este controle, como princípio, passa pelo rigor na condução das contas públicas. Observem que não será tarefa fácil, pois ajustar fiscalmente exige redução de gastos e eventuais aumentos de tributos, em que sua maioria tem que ser negociado com o Congresso e ainda conviver com pressão da opinião pública. Por tudo isso é que as projeções para retomada do crescimento do país não são de curto prazo, afinal, há um longo caminho a ser trilhado, passando, inclusive, pela introdução de um novo modelo de política econômica. Uma coisa é certa: quanto mais tempo o impasse político perdurar, quanto menos força tiver o governo em combater a escalada de preços, mais tempo levará para sairmos da recessão.
O autor é economista, articulista do JC