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Ministério da Saúde estudará "pílula do câncer"

Lígia Formenti
| Tempo de leitura: 3 min

O Ministério da Saúde vai criar um grupo de trabalho para estudar a fosfoetanolamina, substância com suposta ação contra o câncer que vinha sendo produzida no Instituto de Química da USP de São Carlos. “Temos de colocar fim nesta celeuma. Precisamos dar uma resposta para a sociedade”, afirmou o ministro Marcelo Castro.

Uma portaria sobre o assunto deve ser publicada nesta sexta-feira (30), no Diário Oficial. O texto, ao qual a reportagem teve acesso, estabelece prazo de 60 dias para que a comissão apresente uma linha básica de atuação. Para que as pesquisas sejam feitas, no entanto, é preciso o aval do grupo que desenvolveu a substância na USP. A universidade não comenta o assunto.

O formato proposto pelo governo prevê a análise da molécula, a realização de estudos para avaliar o mecanismo de ação e toxicidade da substância até um a eventual realização de pesquisa clínica. “Nunca foi feito nada disso. E se criou uma tensão nacional. A grande preocupação é que pessoas deixem de fazer o tratamento adequado para usar um produto que não tem eficácia comprovada”, disse o ministro.

A ideia é que Instituto do Câncer e a Fiocruz participem dos trabalhos. Castro afirmou que o ministério vai arcar com os custos do financiamento. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vai acompanhar os trabalhos. “Todas as etapas serão respeitadas, incluindo, por exemplo, o aval das comissões de ética”, disse Costa. O ministro ainda fez apelo para que pessoas não usem a substância. “É temerário. Não sabemos os efeitos que pode causar.”

Desenvolvida por um grupo de pesquisadores liderados pelo químico Gilberto Chierice, a substância foi durante anos fornecida gratuitamente para pessoas interessadas. Em setembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo vetou a distribuição. Dias depois, o Supremo Tribunal Federal decidiu em favor de um pedido para um paciente. O descompasso levou a uma onda de liminares.

Nessa quinta (29), uma audiência pública foi realizada no Senado. Entre os ouvidos, estava o presidente da Anvisa, Jarbas Barbosa, e o químico Gilberto Chierice. “Fiquei feliz com o depoimento do professor, que disse não ter intenção de que o produto se transforme numa garrafada”, disse Barbosa.

Criador defende suposto remédio

Reprodução de TV
O professor disse que fez pesquisa com a substância em Jaú

O professor aposentado de química da USP Gilberto Chierice defendeu nessa quinta-feira (29) a fosfoetanolamina, substância com suposta ação contra o câncer que, apesar de não ter passado por testes clínicos em humanos, despertou o interesse de pacientes pelo País.

“Não tenho um dado clínico de todas essas pesquisas. Mas tem muita gente que tomou”, disse em audiência audiência pública sobre o caso na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado. “É uma situação que chega a ser constrangedora. Ela (a substância) já foi chamada de garrafada, de pilulinha mágica”, disse.

Chierice comentou o período em que ele afirma ter sintetizado a substância em parceria com o hospital Amaral Carvalho, em Jaú.

Sem entrar em detalhes ou apresentar documentos, o professor afirmou que pesquisas sobre a substância foram realizadas e cumpriram regras do Ministério do Saúde. “Cadê? Vocês têm que pedir para o hospital. O hospital abandonou (as pesquisas), e eu sei qual é o motivo”, disse, sem, porém, informar tais razões.

O hospital afirma que o convênio com a USP não tinha relação com a fosfoetanolamina, mas sim com estudos com substâncias derivadas da mamona, embora a instituição tenha dito à reportagem que não seria possível apresentar os documentos relativos ao acordo.

No seu discurso, Chierice negou ter feito “exercício ilegal da medicina” ao distribuir o composto e disse que as doses da substância foram recomendadas pelo hospital após os primeiros testes com pacientes.

“Esgotado esse convênio, os pacientes passaram a pegar o medicamento na USP em São Carlos. E isso cresce de uma maneira às vezes incontrolável. Mas nunca inserimos na área médica”, disse.

Segundo Chierice, a polêmica começou após a USP cancelar a distribuição da fosfoetanolamina, “aquilo que entreguei por 25 anos”.

 

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