Smartphone LG Optimus L4 II Dual Chip 3G. Este celular pode ser comprado por pouco mais de R$ 400,00. É provável que o aparelho fique ainda mais barato neste mês de Black Friday (quando as lojas, principalmente na Internet, fazem promoções e a maioria vende tudo pela ‘metade do dobro’ do preço). É só negociar. Guilherme Borges, 23 anos, enfrentou negociação por causa de um celular deste modelo em Bauru na última quarta.
A negociação em via pública foi papo reto. Ou melhor, reto só no cabo da faca. Depois, a lâmina se tornava curva. Estes eram os termos da negociação. Guilherme tinha o bem – que não estava à venda – de um lado e o assassino tinha a faca – que estava bem afiada - na outra ponta. A ponta. Aponta e fura. Foi coisa de segundos. Tempo suficiente para uma câmera de segurança flagrar o jovem mexendo em seu smartphone e, instantes depois, cambaleante. A negociação havia acabado ali. A vida havia acabado ali. A sociedade, de certa forma, havia acabado ali.
O celular levado pelo criminoso fora comprado por Guilherme após trabalho árduo. A câmera de 3 megapixels era mais do que suficiente para os anseios dele. Como quase todo jovem, adorava uma selfie. Selfie com boné pra trás, selfie no espelho do banheiro, selfie com óculos escuros, selfie com a língua de fora. Talvez Guilherme tenha tirado tantas selfies para que a sociedade não o esqueça; não o contabilize como mais um número da violência. “Apenas mais um”.
“Não reaja quando for assaltado”, aconselham as autoridades. Um sábio conselho, por sinal. Mas até quando não reagiremos? E não se trata de reação contra o bandido no ato ou de apenas colocar o autor desse crime atrás das grades (inclusive, a polícia agiu de forma rápida neste latrocínio e deteve o suspeito poucas horas depois).
É preciso saber quando haverá uma reação na base de tudo isso? Quando haverá uma reação no sentido de não haver mais casos assim? Quando haverá educação de qualidade? Quando haverá igualdade? Quando haverá políticas públicas eficientes contra o crack, que é a mola propulsora para muitas dessas tragédias? Quando os demais ‘Guilhermes’ poderão andar tranquilos com seus smartphones se preocupando apenas com a próxima selfie que vão tirar?
Smartphone LG Optimus L4 II Dual Chip 3G. R$ 400,00. Era isso que Guilherme valia para o assaltante. A negociação foi concluída tragicamente. A tecnologia segue avançando em progressão geométrica e o valor desse modelo de celular, com certeza, diminuirá nos próximos dias. Triste saber que, tão rápido ou até mais veloz, despenca o valor da vida humana. E quanto valerá a próxima vida? Ou melhor: por quanto será a próxima morte?
O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia