Regional

Projeto de Garça é o 1º no Estado a gerar renda por meio da música

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 11 min

Garça é uma cidade que conta com aproximadamente 44 mil habitantes, segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2014. Faz parte do ciclo do café e ainda conserva vários cafezais. É conhecida também pela festa da cerejeira, graças a presença da colônia japonesa. Desta vez a cidade aparece como a pioneira em usar o capital intelectual para gerar renda. Um projeto, batizado de Gerasom vai profissionalizar crianças, adolescentes e adultos para gerar renda através da música. 

O que parece quase impossível, não é tão difícil assim, segundo o professor José Roberto Moisés. Para ele, é preciso seriedade e comprometimento. “Minha família é de músicos. Meu pai foi maestro e eu sempre vivi da música. Queremos mudar a vida dessas pessoas com ensino teórico e prático. Após a conclusão do curso que tem duração de cinco anos, cada um deles vai decidir se formam um grupo ou se seguem carreira solo.” 

Para ele, música é o berço da cultura e é através dela que se faz a inclusão social. O mesmo pensa a regente da Orquestra Musicrescer de Duartina (38 quilômetros de Bauru), Nanci Domingues, que há 11 anos capitania crianças de 9 a 14 anos através da música. Segundo ela, os alunos aprendem concentração, música de qualidade e teoria da música. O projeto Gerasom está no início e só foi possível graças a uma verba do governo estadual que possibilitou a compra dos instrumentos. Ele vai funcionar de manhã até a noite, com lanches nos intervalos. É gratuito e terá ainda ensino de manutenção de instrumentos musicais. Para isso está sendo montada a luteria. 

O Musicrescer tem outra “pegada”, tem o objetivo de inclusão social. Começou como orquestra de violino e hoje acrescenta outros instrumentos. Tem mais de 10 anos e fez inúmeras apresentações, não só na região e no Estado, mas também em outros países. É presença marcante em eventos natalinos e em teatros especialmente em Bauru. 

Esses projetos são importantes para a vida dos alunos, porque desenvolvem a criatividade, disciplina dentre outros adjetivos. Para o aluno do Gerasom, João Victor de Souza Maximiliano da Silva, 13 anos, a música é uma maneira de se expressar. “Ela me acalma, me diverte. Estou aprendendo tocar bateria.” 

Ele está cursando a 6ª série do ensino fundamental. “Meus pais não são músicos e nem entendem de música, mas sentiram que a música me faz bem, então eles incentivam a minha participação na escola de música. Tenho uma irmã e um primo que também estão aprendendo tocar instrumentos musicais.” 

Diogo Henrique Benedito Maximiliano da Silva tem 12 anos, e é primo de João Victor. Ele é enfático em dizer que não falta às aulas de música. “Me sinto estranho quando falto à aula. Ela me faz bem. Eu gosto de música e pretendo fazer carreira como músico. Estou aprendendo bateria.” 

Os pais dele também consideram importante a música para ele. “Meus pais não são músicos, mas acham importante que eu conheça e aprenda a tocar instrumentos musicais. Eles falam que através da música posso crescer na vida.”

O projeto Orquestra de Câmara de Santa Cruz traz música às crianças carentes da região da Vila São José, onde aprendem musicalização em violino, viola clássica, violoncelo e contrabaixo acústico. O projeto da Secretaria de Cultura do Estado é por meio do Proac e conta com a parceria inicial da Secretaria Municipal de Assistência Social de Santa Cruz do Rio Pardo.

Música é disciplina, interação e sensibilidade 

“Música é cultura, berço da cultura. É uma linguagem universal e única. Através dela nós trabalhamos a sensibilidade, a interação, o compartilhar e a disciplina. É muito importante a disciplina. Todo músico tem que saber divisão, subdivisão, tem que esperar a tua hora, o teu momento. Para a sociedade em si é importante o ensino musical, porque agrega valores. Eles vão aprender a compartilhar momentos o que hoje é difícil na nossa sociedade, onde impera o individualismo. A tecnologia proporciona que cada um fique no seu quadrado e a música é o contrário disso. Um quadrado dá para muitos”. É assim que o professor de música José Roberto Moisés, 69 anos, define a importância da música na vida das crianças e adolescente. 

Moisés não acha difícil viver da música. “Não é difícil viver de música quando se tem seriedade naquilo que se faz. Você se compromete. Na minha família todos são envolvidos com a música. Meu pai foi maestro durante muito tempo. Trabalhou com música no município. Tivemos banda e orquestra em Garça, mas ambas acabaram. Com o Gerasom, escola profissionalizante, esperamos dar prosseguimento ao que foi interrompido.” 

O projeto, segundo ele, é um sonho antigo. “Quando trabalhávamos com as crianças no Cras tivemos o primeiro curso de fanfarras. Eles foram muito criativos, fizeram um trabalho de percepção musical interessante. Então nós resolvemos aproveitar esse talento e trabalhar uma escola de música onde eles pudessem gerar renda. Esse foi o início. Hoje estamos aqui com a escola de música.” 

O professor explica que as crianças a partir de sete anos podem frequentar. “A partir dessa idade a criança começa a ter entendimento. A coordenação motora dela está mais precisa. As mãos estão com desenvolvimento para fazer os acordes, manusear os instrumentos, por isso a faixa etária focada é a partir dos sete anos, qualquer idade.” 

O curso a ser oferecido gratuitamente tem cinco anos de duração. “Nosso curso tem um tempo para ser concluído. É óbvio que a vontade é de cada um com suas particularidades. No futuro cada um vai escolher o melhor caminho para ele. Alguns vão seguir carreira solo, outros vão montar banda, conjuntos, cameratas e orquestra. Eles vão somar conhecimentos para montar o que desejarem nessa área.” 

Para o professor, é uma oportunidade inédita, especialmente para as crianças. “Essa é uma oportunidade para quem não teve e não tem e vai ser difícil de adquirir o instrumento musical,  oportunidade única. Além deles estudarem, quando capacitados o projeto vai ampará-los para que desenvolva essa profissão patrocinando também alguns instrumentos para que eles comecem a carreira gestora. Aqui temos violão, violino, bateria, teclado, guitarra, contrabaixo, flauta transversal.

Manutenção

O projeto Gerasom de Garça não é só profissionalização através da música. É também uma maneira de aprender a dar manutenção em instrumentos musicais e a construí-los, afirma a gestora do Fundo Social de Solidariedade, Maria Angélica Monici.


“Temos duas salas, uma para as aulas de música e outra que será a luteria. Na luteria, os alunos vão aprender a confeccionar os violões e a consertar instrumentos musicais. Aqui vai funcionar das 8h às 21h para que todos aqueles que se interessam possam ter acesso as orientações no horário contrário ao da escola. Oferecemos lanches nos intervalos. Nesse prédio que é da prefeitura funciona a Casa da Amizade do Rotary Clube e Interact.” 

Orquestra do Musicrescer tem aulas de música teórica e prática aos seus alunos

A Orquestra de Câmara Musicrescer de Duartina (38 quilômetros de Bauru) começou em 2004 como uma alternativa de ensino musical para crianças carentes. No início era orquestra de violino. O projeto deu tão certo que ela já gravou CD e DVD, fez turnês internacionais e se prepara para uma nova apresentação internacional, no Chile, no ano que vem. 

A primeira turma da orquestra saiu, venceu a idade limite e atualmente os 21 instrumentistas têm de 9 a 14 anos. “É uma nova orquestra. A partir de abril do ano que vem pretendemos fazer concertos para arrecadar fundos para custear a nossa turnê para Santiago no Chile. Fomos convidados a nos apresentar lá”, comenta a regente Nanci Paluan Domingues.

O projeto idealizado pela regente e fundadora aposta na música para livrar crianças da violência urbana e colocá-las em contato com a música. “A música é cultura, não difere ninguém por raça, cor ou religião, é democrática. O grupo começou tímido, com 19 crianças e adolescentes que tiveram o primeiro contato com a música erudita e com o instrumento musical através do projeto.” 

A nova orquestra intensificou os ensaios para começar as apresentações no próximo ano. São crianças que dificilmente teriam contato com a música erudita e com os instrumentos musicais que o projeto dispõe. Nos 11 anos de existência, a orquestra se apresentou inúmeras vezes em Bauru, no aniversário da cidade, nos teatros e em eventos. 

A orquestra tem local próprio para ensaios. Funciona em uma sala do projeto crescer que atende crianças com o objetivo de proporcionar habilidades educacionais, culturais e esportivas. As atividades são gratuitas e estão focadas na inclusão social de crianças e adolescentes, jovens e adultos em condições sociais e econômicas menos favorecidas.

O projeto ocupa uma área de cerca de 10 mil metros quadrados, com piscina, quadras poliesportivas, centro de lazer, refeitórios, auditórios e salas de aula. O Musicrescer oferece aulas de música teórica e prática. Há ainda a fanfarra que desenvolve a coordenação motora e auditiva dos alunos além de resgatar os valores patrióticos e valores culturais.

Em 2009, a orquestra Musicrescer lançou o DVD gravado na turnê realizada no México em 2008. A gravação foi feita no Teatro do Centro de Convenções da cidade de Coatzacoalcos, considerado um dos melhores do mundo pela sua arquitetura, acústica e tecnologia.

O repertório das apresentações incluem obras eruditas, com violinos e piano e clássicos do choro que incluem outros instrumentos. O Musicrescer é desenvolvido pela prefeitura da cidade em parceria com o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e Adolescente do Estado de São Paulo.

Garça criou escola profissionalizante

A cidade de Garça (70 quilômetros de Bauru) foi a primeira no Estado de São Paulo a criar uma escola de música com o viés de profissionalização. O projeto Gerasom é baseado no conceito de economia criativa que é a produção de serviços e produtos por meio da criatividade, do capital intelectual de cada um. A ideia usar a música para melhorar a sociedade, ressalta o secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de Garça, Alcides Ângelo Gamba Neto. 


“A música é disciplina. Impõe limites e deveres, o que está em falta na Educação das crianças e adolescentes. Eles começam a pensar mais naquilo que eles querem para a vida deles e para a sociedade em que vivemos. Uma das principais finalidades do projeto é a iniciação musical e profissionalização para  geração de renda.” 

Na cidade já tem uma escola de música, lembra o secretário. “Temos a Escola Municipal de Cultural Artística que musicaliza, forma músicos, só que não tem esse viés de profissionalização. O Gerasom vem cumprir essa lacuna. A escola cobra uma taxa de R$ 12,00/mês, mas tem gente que não pode dispor desse valor. No Gerasom as aulas serão gratuitas com praticamente os mesmos professores.” 

A intenção é atender toda a população que quiser participar dos cursos, com ênfase as classes economicamente menos favorecidas. “Pessoas das faixas de renda, C, D, E que são aquelas que não têm acesso às aulas particulares. As mesmas que não teriam condições de adquirir instrumentos musicais desse porte para aprender música.” 

Os instrumentos de percussão, teclado, violões, cavaco, guitarra, contrabaixo dentre outros foram conseguidos via Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo. “Eles subsidiaram o município com R$ 15 mil. Usando o conceito de geração de renda nós criamos o Gerasom que no futuro irá gerar renda a partir da música. Nesse formato, somos a primeira escola do Estado de São Paulo.” 

Um dos trabalhos do projeto será buscar músicos que hoje estão ociosos e a partir deles formar grupos. “Esses grupos  terão arranjadores profissionais que vão trabalhar com eles para que eles possam se apresentar e gerar renda. As primeiras aulas deverão acontecer em novembro e deve começar com uma média de 25 alunos. O Gerasom é fruto de um projeto que a secretaria já tinha e evoluiu para esse.” 

Revelando a fórmula

Como primeira cidade a conquistar recursos do Fundo Social no Estado de São Paulo para projeto de profissionalização através da música, Garça se propõe a revelar a fórmula para outras cidades. “Outras cidades que contam com o apoio do Fundo Social no Estado de São Paulo apresentem esse projeto. A secretaria está aberta a dar informações para aquelas que se interessarem.”

 Sta. do Rio Pardo tem projeto de Orquestra de Câmara

Há pouco meses a cidade de Santa Cruz do Rio Pardo conta com uma nova iniciativa relacionada à música. O projeto Orquestra de Câmara de Santa Cruz traz música às crianças carentes da Vila São José, onde aprendem musicalização em violino, viola clássica, violoncelo e contrabaixo acústico. 


Para a participação no projeto as crianças e adolescentes devem ter entre 8 e 18 anos, morar nas proximidades do bairro atendido, manter-se estudando e com uma renda familiar baixa. A ideia é do professor José Magali que havia anteriormente desenvolvido um projeto parecido e desejava ter um programa com um viés social atingindo crianças e jovens de uma comunidade carente. E está sob a coordenação de Fabiano Moreira.  Todas as aulas são ministradas no Centro de referência de Assistência Social (Cras).

Para as 30 crianças ou jovens atendidos no projeto é concedido uma ajuda no valor entre R$ 90,00 e R$ 100,00 por meio de um vale alimentação onde poderão utilizá-los em supermercados, açougues, padaria, lanchonetes entre outros. 

A Orquestra tem o apoio da Secretaria de Cultura por meio do Proac e a parceria inicial da Secretaria Municipal de Assistência Social de Santa Cruz do Rio Pardo. 

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