Articulistas

O fim do erotismo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Os meios de comunicação conseguiram acabar com uma das manifestações mais sublimes da velha cultura, que é o erotismo. Exemplo disso é a morte anunciada da revista Playboy. Os editores foram diminuindo e depois tiraram as roupas das mulheres para anabolizar as vendas. Com tudo às escâncaras, começaram a raspar também os pelinhos pubianos das artistas famosas. Resultado: abusaram do imaginário realista (se o oximoro for tolerável). Fotos de mulheres peladas deixaram de turbinar a libido masculina, diante de tantas facilidades proporcionadas pela chamada liberdade sexual. Hoje, até os adolescentes, no primeiro bate-papo pelas redes sociais, utilizam-se de uma expressão chave: ‘manda nudes’. Vem do inglês “nude”, que significa sem roupa. As respostas são os selfies diante do espelho do banheiro, seguidos dos tradicionais kkkk, hahaha, hehehe e invariavelmente terminam em rsrsrsrs. A Internet está cheia de sites de mulheres peladas, em cores e em movimento. E de graça. Depois de 40 anos, o último número da Playboy vai circular em dezembro. Chegou a vender 1 milhão e 250 mil exemplares com o ensaio fotográfico de JR Durán, mostrando toda a magia da Feiticeira Joana Prado. Hoje, os 80 mil exemplares não dão para pagar os royalties cobrados por Hugh Hefner, dono do título e do formato da revista. Nos Estados Unidos, a publicação deixará de mostrar montes pubianos raspados ao estilo de bigodinhos a la Hitler, para se dedicar a artigos intelectualizados sobre estilo de vida. Aqui no Brasil as estrelas de tevê preferem ganhar para sair na ilha de Caras, onde não se exige que tirem a roupa.


A preocupação não é com mais este golpe nas publicações impressas. Todos nós sabemos que vão tombar, uma a uma, no campo da luta por leitores cada vez mais velhos e escassos. A verdadeira tragédia dessa guerra “nua e crua” pelo mercado está na destruição da discrição e do pudor que sempre acompanharam o sexo desde que a sociedade humana atingiu a civilização. A liberdade sexual e a queda de muito tabus e preconceitos que cercavam a vida erótica, levou à dessacralização do corpo em nome de ideais libertários, e libertinos. Vargas Llosa conta o caso da escola pública, na Extremadura, Espanha, que instituiu a Oficina da Masturbação para alunos a partir de 14 anos. Título da campanha: “O prazer em suas mãos”. O Tribunal de Justiça não fez nenhum reparo moral à iniciativa. Há 60 anos, eu, aluno do padre Firmino, jamais poderia imaginar que haveria um dia aula de punheta na escola.


George Bataille, cujo pensamento (católico-marxista) alimentou teóricos de várias áreas, em seu ensaio sobre “O Erotismo”, mostrou-se preocupado em escapar desse cativeiro da modernidade. Alertou para os riscos da permissividade desenfreada em matéria sexual. O desaparecimento de preconceitos, algo libertador de fato, não pode significar a abolição dos rituais, do mistério, dos formalismos e da discrição graças aos quais o sexo se civilizou e se humanizou. A principal virtude do erotismo é a da desanimalização do amor físico. O dom de transformar uma pulsão instintiva em atividade criativa e compartilhada que prolonga o prazer físico. No quarto à meia-luz, em ambiente de absoluta privacidade, é que exercitamos nossos desejos e fantasias. O sexo levado à via pública corresponde a uma volta às cavernas. Nada tem a ver com direitos de cidadania, justificativas do tipo - “o corpo é meu e faço dele o que quero”. O culto da virgindade evaporou-se com a generalização do uso da pílula. Claro que isso deu às mulheres uma autonomia sexual infinitamente mais ampla que suas avós. Reduziram-se os preconceitos contra a homossexualidade. É prerrogativa de cada um. O Estado e as igrejas não devem se imiscuir. Pode até soar como um grito de liberdade contra todas as sujeições e servidões – religiosas, morais e políticas – que restringem o direito ao livre-arbítrio. Freud denominava de pulsão tanática (de morte), essa disputa com o instinto vital e criativo, mediante a vulgarização.


É claro que a Playboy não é responsável, sozinha, pelo fim do erotismo. Nem a Adriane Galisteu, pelo seu cachê recorde de R$ 2 milhões para raspar os pelos pubianos com um novo aparelho da Gillette, diante da câmera. Na verdade, o mundo ocidental caminha para transformar sexo em prática tão comum e corrente como comer, dormir e trabalhar. Essa perda da aura, do mistério, da paixão, da fantasia e da criatividade pela banalização, deixa o mundo mais pobre.



O autor é jornalista e articulista do JC      

Comentários

Comentários