Os 515 anos de exploração inconsequente de nossas matas, terras, rios e de nosso subsolo resultou em problemas insolúveis, quer pelas suas dimensões e complexidade, quer pela incapacidade de nossa sociedade conscientizar-se de nação. Somente como nação, unidos num ideal de solidariedade, de justiça, de integridade e dignidade cívica, voltados para o bem comum atual e porvindouro, é que saberemos zelar pelo patrimônio que Deus nos confiou. Depois de tantos anos de degradação, somente projetos de visão global do país poderão levar o Brasil a encontrar solução para esses gigantescos problemas, que impedem o desenvolvimento sustentável. Sem isso, continuaremos avançando e regredindo, como sempre.
É possível recriar nossas matas e produzir a água que está sumindo de nossos rios? Sim. O engenheiro Florestal José Carlos Nogueira Bollinger, que foi diretor do Horto Florestal de Bauru, quando era estudante da Esalq aceitou o desafio de seu tio, dono da Usina Ester, em Cordeirópolis, e reconstruiu a mata nativa que tinha se transformado em pasto. Refez a mata e reviveu o rio que passava por ela. Está em livro que a faculdade editou. O casal Lélia Deluiz Wanick e Sebastião Salgado, o famoso fotógrafo, depois de viverem em vários países, retornaram ao Brasil para cuidar da propriedade que era da família, em Aimorés, na divisa de Minas com o Espírito Santo, a fazenda Bulcão, com 709 hectares de terras completamente degradadas. Ali desenvolveram um magnífico projeto de recuperação vegetal e hídrica. É o Instituto Terra, que depois do sucesso na restauração da propriedade está com um projeto mais ambicioso, auxiliando outros proprietários de todo o vale do Rio Doce, com seu viveiro de mudas e uma escola de educação ambiental.
O Rio São Francisco está secando e outros seguirão o mesmo caminho se não houver um projeto nacional de recuperação. A água não é um produto que se consome, apenas é utilizada e devolvida à natureza, que se encarrega de purificá-la e devolvê-la para novo uso. A água está nos mares – salgada 97,5% e 2,5% doce está na atmosfera (vapor); geleiras (sólida) e líquida nos rios, lagos, subterrânea e no corpo dos seres vivos (biota). A água subterrânea está nos aquíferos, grandes depostos da água das chuvas infiltrada no subsolo. Os rios vão dando vazão a essa água e ela precisa ser reposta, o que é feito principalmente onde há mata nativa. Recobrindo a região degradada com o mesmo tipo de vegetação, esses depósitos voltam a encher, ativando as nascentes e os rios. É o que projetos como o do engenheiro José Carlos Bollinger e do casal Sebastião Salgado realizam. As águas que escorrem pelas ruas asfaltadas e terrenos pelados de vegetação vão para os rios, evaporando ou chegando ao mar.
Existem iniciativas bem sucedidas, tanto de governos como particulares. A Embrapa é um exemplo. Dedicada à pesquisa agropecuária e à formulação de políticas agrícolas, tem dado contribuições relevantes de apoio a produtores agrícolas e pecuaristas, tanto na melhoria de suas atividades como na proteção e recuperação dos mananciais hídricos e no reflorestamento. Mas é uma empresa pública, ligada ao Ministério da Agricultura e tem as suas limitações. A Emater, que parece ter sido iniciada no Paraná, existe em vários Estados, com natureza jurídica diferente – empresa pública, autarquia ou associação sem fins lucrativos. Focada na extensão rural, também cuida da preservação ambiental. No Estado de São Paulo há o Programa de Microbacias Hidrográficas, executado pela CATI, ajudando os agricultores em práticas conservacionistas. O governo dá apoio à formação de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), mas são sempre projetos pontuais.
Vale a pena pesquisar o Instituto Terra, no Google, para ter informações mais detalhadas e ver fotos e vídeos. É um projeto modelar, sob os aspectos de organização e gestão. Por conta de sua atuação, mais de 7 mil hectares de áreas degradadas estão em processo de recuperação na região e mais de 4 milhões de mudas de espécies da Mata Atlântica já foram produzidas para uso próprio e para abastecer a região. Na opinião de Salgado, é uma “reconexão com a natureza.” Imaginemos esse projeto em nível nacional, restituindo-nos as perobas, cedros, jatobás, pinheiros, imbuias, jacarandás, mognos etc e enchendo o “velho Chico”, o Rio Grande e o Rio Doce, sem a lama. Seria melhor que uma fiscalização inepta e multas nem sempre recolhidas.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru