Bairros

Sem asfalto, os problemas dos moradores se acumulam há décadas

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 5 min

Quando a rua que passa na frente de casa não é asfaltada, não é somente o pó dos dias secos ou a lama dos chuvosos que dificultam a vida dos moradores. Sem pavimentação nas ruas, os problemas se acumulam, conforme apontam os próprios moradores.

“Eu posso enumerar vários. O mato toma conta das vias, os buracos vão engolindo tudo pela frente, o esgoto corre a céu aberto... Tudo isso eu vejo da porta da minha casa, infelizmente. A sensação é de esquecimento”, lamenta Ana Caroline Almeida dos Santos, moradora da quadra 1 da rua Evangelista Messias de Oliveira, no Parque Santa Cândida.

A rua onde está localizada a casa de Ana Caroline faz esquina com a avenida das Bandeiras, também sem asfalto. Nela, a reportagem encontrou crianças brincando ao lado de um córrego formado por esgoto.

“A rua Geraldo de Godoy é paralela à minha. Por lá, a situação é ainda pior. Carros não passam mesmo. Muitas vezes, os vizinhos se unem com enxadas para empurrar a areia e tentar melhorar os buracos”, acrescenta Ana Carolina.


‘Nunca morei em rua com asfalto’

Geraldo Rodrigues da Rocha vive na quadra 5 da avenida Antônio Fortunato, no bairro Pousada da Esperança I, há oito anos. Mas no bairro ele está há mais de 30. Todos eles vivendo a rotina das ruas de terra.

“Sempre morei em endereços sem asfalto. É muito ruim. O mato fica perto de casa. Se você carpe o mato que cresce na porta de casa, a chuva vem e faz valeta. Sendo assim, eu deixo. Ele acaba segurando a chuva”, conforma-se.

Quanto ao asfalto que melhorou muito a vida dos moradores das ruas recém-pavimentadas do Pousada, “seo” Geraldo é só elogios: “O asfalto é uma beleza. Todo mundo gosta. Mas eles fazem pingado. Um pedaço aqui, outro ali. O pessoal fala que tem projeto para pavimentar essa avenida toda. Dizem que o asfalto vai passar por aqui. E esperança a gente sempre tem”, acredita.  

‘Só tanque de guerra’

Adilson da Silva também é morador do Pousada da Esperança. Embora sua rua tenha recebido asfalto, ele anda diariamente pelo bairro e sabe bem como é viver em um lugar onde a lama e as crateras nas ruas ainda são comuns. A equipe o encontrou descendo a quadra 2 da rua Kenehiko Ijuim, que cruza com a quadra 3 da rua Maurício Pereira Lima. Ambas sem asfalto.

“Para passar por algumas ruas quando chove, como essa quadra da Kenehiko Ijuim, tem de ter caminhonete 4x4. Em alguns trechos, só tanque de guerra sobe. Não é difícil ver carro atolado por aí. Eu mesmo já vi um caído em um buraco formado no meio da rua. Casas que ficam no início de subidas também sofrem, mas é com a lama que escorre quando chove bastante”, narra.   


‘Ou é poeira ou é lama’

Passando pelas ruas do bairro dos Tangarás, a equipe se deparou com uma cena comum em regiões com muitas ruas de terra: a capinagem na frente dos imóveis. Na quadra 3 da rua Milton Dias de Carvalho, quem capinava era Cleide Veiga. 

Ela reclama que não pode construir um muro definitivo em seu imóvel ou mesmo uma calçada, porque não sabe exatamente quais são as metragens. E, em época de chuva, o mato cresce mais e vira reduto de bichos. Outros moradores fazem o mesmo. Juntos, eles também tentar “melhorar” as vias públicas retirando o entulho que desce na enxurrada.

“Sem contar que a casa não para limpa. Quando o tempo está seco, o vento traz poeira. Quando chove é a vez da lama não deixar nada limpo. Mas boatos contam que, em janeiro, a tubulação deve chegar por aqui. Quando estavam asfaltando as ruas de cima, fomos até lá e nos informaram que não há dinheiro para todas as quadras. Enquanto isso,s a gente vai vivendo como dá”, expõe.

Já o marido de Cleide, Jonas Belo Diniz, fala sobre a dificuldade de locomoção na região. As imensas ladeiras são verdadeiros desafios para crianças e idosos. Quando chove, os motoristas precisam encontrar novos caminhos para chegar ao seu destino. “Esses dias mesmo eu filmei a enxurrada que desceu com essa temporada de chuva que caiu por aqui, recentemente. Parecia um rio, mais de meio metro de altura. Só por Deus”.


De um lado asfalto, do outro...

A rua Waldemar Gregório de Moraes, na Vila Nova Celina, teve algumas quadras asfaltadas e outras não. Há 27 anos, o autônomo Hugo Antônio Rodrigues reside na quadra 13, sem asfalto. E com buracos.

“Disseram que os terrenos da nossa quadra estão irregulares e que, por isso, o asfalto não chegou aqui. Mas também não explicaram como devemos proceder. O fato é que eu espero o asfalto desde que eu nasci. Meus pais esperam há 34 anos. Eles são um dos primeiros moradores da região”, relata.

Os buracos na rua, que é uma ladeira, são tantos, que alguns moradores não conseguem chegar com os carros até as suas garagens. “O meu irmão, por exemplo, deixa na minha casa, que é na esquina. Ele mora mais para cima e não consegue subir. Aliás, a perua da escola também não sobe, os carros encalham, quando chove a rua vira um rio, com lixo e tudo...”, enumera.


Por tabela
Na quadra de baixo, o asfalto chegou, mas os moradores também sofrem com a falta de infraestrutura da quadra de cima, já que a água da chuva carrega lama, lixo e entulho ladeira abaixo.

“Isso é muito ruim. Tivemos que reforçar o muro de casa e colocar tábuas nas sarjetas da calçada para evitar que água destrua tudo. O ideal é asfaltar a rua toda. Em casa, por exemplo, o asfalto foi uma benção. A sujeira é menor, construímos nossa calçada, as crianças podem brincar... Mas pela metade fica difícil”, explica a moradora Daniela de Almeida Alves. 

 

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