Geral

Entrevista da semana: Pierangela Filizzola

João Jabbour
| Tempo de leitura: 8 min

Samantha Ciuffa
Pierangela Filizzola: da fome à Mamãe Noel de Bauru

Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver. A sábia frase de Dalai Lama explica, sobremaneira, a pressa da espiritualizada Mamãe Noel Pier de Bauru, que também pode ser chamada de Pierangela Filizzola quando não está pedindo, sem receio ou vergonha, ajuda da população para praticar o bem.

Há 20 anos, Pierangela faz o Natal de muitas crianças ter um sentido mais ameno, na região do Parque Jaraguá. E exatamente hoje, Mamãe Noel acordou de madrugada porque tem mil providências a tomar, e talvez só vá ter tempo de ler esta entrevista à noite, pois é o dia do almoço que realiza para centenas de crianças e seus pais em algum ponto do Jaraguá, ao lado da sempre amiga Andreia.

Quando você ler, no começo da entrevista, o que foram os primeiros anos da vida de Pierangela Filizzola, perguntará, como o fiz com a própria, quais os traumas que ainda incidem em seu cotidiano, tamanho o sofrimento da menina que, por incrível que pareça, foi salva (sem aspas, porque foi real) da própria mãe pela tia, a quem dedica toda sua trajetória honesta e solidária na vida.  

A solidariedade incondicional de Mamãe Noel foi forjada no sofrimento da pequena Pier, que passou fome, entre outras privações, e esta é a única marca que ficou daqueles dias em que poderia até ter se tornado uma marginal, drogada, prostituída, como tantas crianças e jovens são induzidos a serem. O que restou ainda hoje é nada comparado ao que o destino lhe reservava: ela tem verdadeiro pavor de ver algum espaço vazio em sua despensa de alimentos. Corre para repor. A dor da fome lhe vem à mente dessa forma, mas é plenamente substituída pela alegria de ajudar a muitos que, como ela foi, são vítimas de famílias e um País desestruturados.

JC– Você é de Bauru? Quais as lembranças de sua infância?
Pier -
Sim, sou nascida aqui. Minhas lembranças não são nada boas. O que foi bom foi minha tia (Juracy Frota Barros), que me criou, ela foi meu pai e minha mãe. Ela fez tudo por mim. Me levava para passear, de trem, principalmente, adorava viajar de trem até São Paulo. Minha mãe era alcoólatra. Ela não me criou, fui criada por um tempo pela minha avó e depois minha tia fez isso. Só que, quando eu já estava com 9 anos, vivendo com minha tia, minha mãe foi lá, me ‘roubou’  e me levou para morar no Parque Jaraguá, mesmo local onde eu entrego brinquedos hoje.

JC – Quanto tempo isso durou?
Pier -
Uns seis meses. Minha tia fez de tudo para tentar me tirar de lá, porque minha mãe, sempre alcoólatra, judiava de mim. Me fazia até pedir esmola na rua para sustentar o vício dela. Eu descia a Pinheiro Machado (avenida), com mato para todo lado, muito perigoso, eu com 9 anos. Mas eu tinha de ir até a Vila Falcão pedir, não tinha outra alternativa. Chegava a ir até a Praça Machado de Mello, no Centro. Sofri muito nessa época, passei fome e frio. Até hoje, quando vejo criança pedindo esmola me corta o coração. Sofri isso na pele...

JC- E seu pai?
Pier-
Meu pai trabalhava com cinema, era cinegrafista e viajava muito. Ele chegou a acompanhar o Chico Anísio, filmou com ele. Mas eu o conheci muito pouco, só mais tarde, depois de casada é que eu pude tentar um contato maior com ele, que já morava em São Paulo. Fui com meu marido, conseguimos encontrá-lo, mas acho que a esposa dele ficou meio enciumada e aí eles sumiram de novo. Depois, uns 16 anos depois, descobri que ele morava em São Carlos e fui ao encontro dele, de novo. Consegui conviver com meu pai uns dois anos. Agora, faz um ano, ele faleceu. Ele abandonou minha mãe logo cedo porque ela não tinha juízo, o traiu, teve filho fora do casamento, além do problema do alcoolismo.

JC- As lembranças de sua mãe, então, são terríveis...
Pier-
Teve um dia que minha mãe tentou me matar enforcada, naquela época em que ela me tirou de minha tia. Ela achou que eu não estava cuidando do meu irmão. Me pegou pela garganta, mas, por sorte, os vizinhos escutaram o barulho e me ajudaram. Foi quando chamaram minha tia, mas a polícia queria me levar para um orfanato, em Jaú, em comum acordo com o Juizado de Menor, de onde eu só poderia sair com 18 anos. Minha tia se mexeu, conseguiu ficar como minha tutora e me levou para um abrigo chamado Nosso Lar Mãe Rosa, em Jaú, que era tipo o Paiva aqui de Bauru. Uma casa espírita, adorava o lugar, tanto que sou espírita até hoje.

JC – Ficou até quando no Nosso Lar?
Pier-
Até quando eu tinha uns 14 ou 15 anos. Minha mãe faleceu quando eu tinha 12 anos. Teve cirrose de tanto beber. Voltei, então, a morar com minha tia, com quem eu fiquei mais uns três anos, porque lá no Nosso Lar acabei conhecendo meu ex-marido. Uma criança carente também. Namoramos um tempo, depois acabei casando, com quase 18 anos. Tive o primeiro filho com 19 anos. Fiz concurso no Estado e comecei a trabalhar na Saúde, onde estou até hoje (atualmente, Pier trabalha no prédio onde fica o núcleo de saúde da Quintino Bocaiúva, no Departamento Regional de Saúde, depois de ter sido cedida a um dos cartórios eleitorais de Bauru, onde ficou por 23 anos).

JC – O que esse sofrimento todo deixou de legado às fases posteriores de sua vida?
Pier-
Me ensinou muito. As pessoas falam que eu tinha tudo para ser uma pessoa revoltada, de mal com a vida, mas, pelo contrário, me ajudou. Por isso é que eu tenho essa vontade de fazer o bem, de ajudar. Só faço na época do Natal porque eu trabalho, mas, quando aposentar, vou fazer em todas as datas importantes. A criança é o adulto do futuro. Precisa de apoio e amparo. Precisa se sentir amada. Para não caminhar por maus caminhos.

JC – Certamente, você viu de muito perto a marginalidade, principalmente quando foi para a rua pedir esmola. Chegou a ser instigada a fazer algo errado, ilegal?
Pier-
Cheguei a receber convites, mas felizmente não cedi.

JC – E você nunca precisou fazer nenhum tratamento psicológico ou coisa do tipo?
Pier-
Acho que sou uma pessoa forte, talhada pela vida. As pessoas me dizem: Pier, você é tão alegre. Não acreditam que eu possa não ter sequelas, problemas. O único problema real que eu tenho é o pavor de passar fome. Esse foi o único trauma que ficou. Sempre comi muito depois daquilo tudo, acho que para compensar... Sorte que não tenho tendência para engordar (risos). Não posso ver a prateleira com um vazio que corro substituir o produto que faltou.

JC- Seu nome chama a atenção.
Pier -
Meu nome é italiano. Meu pai nasceu na Itália, ele se chama Pietro Bernardo Filizzola. Pierangela era o nome de uma famosa artista italiana da época. Adoro meu nome.

JC – Quando foi, finalmente, que despertou em você essa vontade de praticar a solidariedade e a benemerência? Foi junto com a ideia da Mamãe Noel ou isso veio depois?
Pier-
Sempre gostei de ajudar as pessoas, mesmo jovem, participava de várias ações, principalmente quando morei lá no Nosso Lar. A gente saía às 5 horas da manhã para pedir doações para o próprio Lar, em Jaú. Mas uma campanha própria eu comecei quando eu já estava no cartório eleitoral, meu filho e minha filha adultos, quando, então, conheci a Andreia, que me ajuda hoje na festa do Parque Jaraguá, após ela ter ido trabalhar em casa. Num Natal, ela me falou que a época mais triste de sua vida era o Natal, porque os filhos dela, eram dois, não ganhavam presente de Papai Noel. Assim como muitas das crianças que eram suas vizinhas. Comecei, então, a comprar uns brinquedos para as crianças dela e daí para ampliar a festinha para a vizinhança foi quase automático. Mas me deparei com o problema do custo de distribuir presentes a muitas crianças.

JC- Quando foi isso?             
Pier-
Em 1994, há 21 anos. Então, falei para a Andreia, que como era assinante do Jornal da Cidade, tentaria pôr uma nota pedindo, através da Tribuna do Leitor. Tanta gente escreve sobre tantas coisas que resolvi arriscar. Orei a Deus e Nossa Senhora Aparecida e o resultado foi uma grande surpresa pela quantidade de presentes que ganhei. Acho que uns quinhentos brinquedos, se não me engano. Naquele ano, teve criança que ganhou dois, três brinquedos... Não parei mais desde então, sempre anunciando pelo jornal. Foi quando percebi que Bauru era uma cidade muito solidária. Um ano depois, arrumei uma roupa de Papai Noel, mas não usava a barba postiça. Depois, passei a usar a roupa da Mamãe Noel, logo em seguida.  

JC- O que você não teve na infância, agora, retribui às crianças...
Pier-
Isso mesmo, mas faço questão de frisar que a data é o aniversário de Jesus. A fantasia da figura do Papai Noel é bacana, não tem mal nenhum nisso, mas o principal é a celebração religiosa. Antes da entrega, nós fazemos uma oração.

Perfil

Nome: Pierangela Filizzola

Signo: Peixes

Local de nascimento: Bauru

Filhos: Claudino Felipe Jr., Karla Felipe do Amaral e Kleber Felipe

Livro de cabeceira: Bíblia

Filme preferido: ‘Ghost – Do outro lado da Vida’

Hobby: Tirar fotos

Time de futebol: Corinthians

Para quem dá nota 10: Para os kardecistas, pois são caridosos

Para quem dá nota 0: Aos políticos

E-mail: kaepier@hotmail.com

Comentários

Comentários