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Drible desejos infantis ilimitados; confira o que diz especialista

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Éder Azevedo/JC Imagens
Psicóloga Carmem Neme dá dicas sobre como pais devem agir

Consciente de que o Natal deixou de ser uma festa essencialmente religiosa para se tornar um fortalecimento dos “valores consumistas modernos, pós-modernos e contemporâneos onde valores religiosos foram se perdendo”, a psicóloga Carmem Neme faz um alerta aos pais: não se deixem “escravizar” por desejos dos filhos, por mais que o comportamento consumista seja constante.

Também nesta época do ano, ela propõe reflexão da família em relação aos valores considerados essenciais. E vai além. Sugere aos adultos que mantenham a fantasia típica do período natalino, mas se desfaçam do medo de frustrarem crianças por não acatarem todos os seus pedidos. Entre tantas recomendações, adverte aos pais, por exemplo, a não se comparem com outros.

Baseada na Psicologia do Desenvolvimento, Carmem Neme ressalta que o comportamento consumista é ensinado em nossa cultura por diversos meios e é endossado pelas famílias. Os pais, também impregnados destes valores, por temerem causar sofrimento aos filhos, deixá-los frustrados ou se sentindo “por baixo” em comparação aos filhos de parentes e amigos, ficam subjugados aos desejos (muitas vezes “tirânicos”) da criança. Neste contexto, em muitas situações, eles se submetem a grande sacrifício para comprar o que os filhos querem, sem, ao menos, promoverem reflexão sobre a conduta nada educativa.

Oportunidade

“Precisamos aproveitar a época de Natal e datas similares para avançarmos qualitativamente no tipo de educação que estamos proporcionando aos nossos filhos. Mesmo que se dê para a criança aquilo que ela pediu, vale a pena gastar uns minutinhos para refletir com ela a respeito dos valores que consideramos importantes para serem pessoas melhores no futuro”, diz a psicóloga. Nesta trilha, fica mais fácil evitar o grande mal-estar contemporâneo provocado pela insatisfação crônica, sentimento de vazio e falta de perspectivas ou sentido para a vida.

Para Carmem, é compreensível a dificuldade dos pais que se sentem oprimidos pelos apelos consumistas. “Eles vendem a ideia de que o ter um objeto ou ganhar isso ou aquilo é sinônimo de ser feliz, ser amado”. Por essa razão, há casos em que, cheios de culpa, muitos se endividam para dar o que a criança quer.

Como proceder?

Para a psicóloga Carmem Neme, o comportamento dos pais é mesmo fundamental. Contar para as crianças a história do Natal, o significado dos presentes, mesmo preservando a fantasia do Papai Noel para os pequenos, ajuda muito a criar pessoas capazes de refletir valores humanos e éticos.

Com esta condução, os pequenos, com certeza, poderão ser muito mais felizes do que os que são “entupidos” de presentes, cujo prazer é apenas momentâneo, avalia a psicóloga. Para ela, é preciso ter clareza do que se quer transmitir aos filhos e ter muita paciência para conversar com eles sobre questões difíceis como essa, de modo que possam ir compreendendo e amadurecendo do ponto de vista psicológico. “Devemos estar preparados para dizer ‘não’ quando necessário, com a clareza de que estamos educando, dentro de preceitos que pensamos ser corretos resguardar”, conclui.

Superando frustrações

A bancária Anete Marchiori Marques, mãe de três filhos e às voltas com uma neta, não tem muitas histórias para lembrar dos presentes de sua infância. “Penso que lembro mais do que não ganhei do que dos que ganhei”. E isso deixou alguma marca profunda e negativa na vida dela?

“Não, ao contrário. Acho que aprendemos desde cedo a superar as frustrações. E isso as crianças de hoje em dia não sabem porque os pais não deixam que se frustrem”, diz. Já Dora Canaver, telefonista, lembra que, quando criança, queria ter um piano. Seu sonho era ser pianista. Mas o pai lhe deu uma “sanfona”. Ela remoeu por anos essa frustração. O pai e a mãe se separaram, mas a genitora nunca se esqueceu do pedido da filha. E quando Dora teve sua filha, a mãe dela deu para a neta o tal pianinho. Lei da compensação...

“Acho que reclamei tanto, fiquei tão traumatizada, cobrei tanto da minha mãe a vida inteira que, para aplacar a culpa, deu para minha filha”, reitera, hoje com carinho. Com bom humor, agora que o tempo passou, lembra que poderia ter aceitado de bom grado a sanfoninha em vez de focar na frustração do piano.

“Poderia ter virado a Dora Gonzaga, cantando e tocando baião, forró, agora que a moda é ‘sofrência’”, brinca. No mesmo Natal, ela e a irmã Dulce Canaver fingiram que estavam dormindo. “Meu pai colocou no sapatinho a tal sanfona. Ali também descobri que o Papai Noel não existia”, finaliza.

Negativa ao filho não é sinônimo de desamor

O que fazer diante dos pedidos ilimitados das crianças? “Em primeiro lugar, devemos lembrar que a tarefa dos pais é educar e, para isto, é preciso que assumam algum tipo de valor. Se não queremos criar tiranos, narcisistas, individualistas, impulsivos e pessoas vazias de sentido, precisamos aprender a conversar com nossos filhos e, na medida em que já podem ir entendendo, precisamos ir mostrando que nem tudo o que queremos é possível ou bom”, orienta a psicóloga Carmem Neme.

De acordo com ela, em outras palavras, as crianças têm de entender que se não será possível agora ganhar tal presente, não significa ser menos feliz ou desamado. A psicóloga também entende que manter a fantasia, a sensação mágica do Natal é fundamental. E os pais não podem pensar que não atender os desejos significa quebrar as fantasias.

“Mesmo com crianças pequenas, podemos explicar algumas coisas, sem quebrar a fantasia. Crianças pequenas são capazes de entender, por exemplo, que Papai Noel tem que dar presentes para muitas crianças e nem sempre pode dar tudo o que elas querem pois é muito caro”.

Na opinião da psicóloga, os pais também precisam saber que frustração não prejudica a criança (desde que não seja excessiva), mas que ceder a todos os desejos dos filhos gera pessoas imaturas, egoístas e, muitas vezes, com graves tendências antissociais. Mostrar realidade, a diferença entre as diversas camadas sociais também ajuda muito.

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