O problema das enchentes e inundações é algo comum na vida da maioria das cidades. Todo o ano é a mesma coisa: entre os meses de dezembro e fevereiro, os noticiários são tomados por problemas relacionados com a elevação dos cursos d´água, enxurradas que abrem crateras e interrompem o trânsito. Trata-se de um fenômeno comum na natureza e de maior incidência de desastres no mundo desde o ano 1900, segundo o The International Disaster Database. Portanto, não é “privilégio” de Bauru e é quase inútil amaldiçoar o céu, o prefeito e muito menos o presidente do DAE. Digo “quase”, porque o desabafo serve de catarse numa hora em que a paciência se esgota.
É evidente que as consequências do fenômeno são intensificadas pela ação humana. Entre as possíveis causas estão a urbanização desordenada, aliada à ausência de um bom planejamento urbano, e os eventos climáticos extremos. Se formos procurar os culpados, vão para o mesmo saco todos os prefeitos e vereadores; engenheiros e urbanistas; nós, cidadãos comuns que jogamos lixo nos bueiros; e o tal de El Ñino, solto sem tornozeleira eletrônica.
Nos jornais do meu tempo havia capa, bota de borracha e guarda-chuva permanentemente pendurados nas redações. Meu batismo como jornalista foi numa enchente com dezenas de desabrigados. Passaram-se sessenta anos e a atitude é a mesma: na primeira bonança o problema cai no esquecimento para voltar na enchente seguinte. Os prefeitos sabem que as obras de contenção custam muito, e não rendem reconhecimento porque o investido em drenagem fica sob a terra. Também há falta de conhecimento sobre o combate de enchentes por parte dos planejadores urbanos.
Talvez, pela pouca informação técnica transmitida na graduação das escolas de Engenharia. Se quem deveria saber, não sabe, imagine o prefeito. Lembro-me de uma reunião na Prefeitura, nos anos 1970, quando o então prefeito Alcides Franciscato trouxe da Politécnica, via arquiteto Jurandyr Bueno Filho, experts em “bacias de contribuição” com a finalidade de dimensionar as tubulações de drenagens das águas que cairiam no vale da futura Avenida Nações Unidas. Concluíram que as galerias deveriam começar com 60 centímetros de diâmetro, terminando com “ovoides” (tubos em forma de ovo), depois do cruzamento da Av. Rodrigues Alves, onde caberia um homem em pé(!). Franciscato correu atrás de recursos federais e estaduais para fazer o recomendado. Seus sucessores seguiram a mesma receita, direitinho.
Mesmo com todos os cuidados, ninguém previu que as colinas margeando a Av. Nações Unidas seriam tão rapidamente ocupadas, com a remoção de toda a vegetação do cerrado e a impermeabilização do solo. Com a pavimentação das ruas e a cimentação de quintais e calçadas, a maior parte da água, que hoje deveria infiltrar no solo, escorre na superfície, provocando o aumento das enxurradas e as inundações. Além disso, a impermeabilização contribui para a elevação da velocidade desse escoamento, provocando erosões e causando todos os tipos de danos materiais e pessoais.
Segundo o sistema Integrado de Administração Financeira, a cada R$ 1 que poderia ser gasto em prevenção a desastres no Brasil, o Poder Executivo gasta R$ 37 para a recuperação e reconstrução. Aqui, insiste-se em atuar mais na resposta aos eventos, que custa mais do que a prevenção e mitigação dos danos. Os especialistas descobriram que as cheias urbanas apresentam um pico alto e pequeno volume de água. Com reservatórios, construídos em áreas públicas é possível reduzir a vazão significativamente. São as áreas temporárias de retardo de vazão, também chamadas de “piscinões”. É preciso retardar a chegada da água à Av. Nações Unidas, no nosso caso principal. Muita coisa pode ser resolvida com leis adequadas: a da obrigatoriedade dos condomínios (horizontais ou verticais), e quaisquer edificações de mais de mil metros quadrados terem cisternas para armazenar água da chuva, que também serve para serviços de limpeza e jardinagem.
A última vez que as bombas de captação das águas do Rio Batalha foram inundadas, nos anos 1960, a população quase que totalmente dependia da Estação de Tratamento. O presidente do DAE Álvaro Lamônica levou o motor “queimado” à porta da Câmara, na caçamba de uma camionete, para que os vereadores avaliassem que não era um motor qualquer, mas um mastodonte caríssimo e que levaria tempo para ser reparado.
De lá para cá, nada foi feito para evitar a repetição, mesmo porque o problema tornou-se inverso: o Batalha começou a secar. E nós, assistimos.
O autor é jornalista e articulista do JC