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| Economista Salete Lara aponta círculo vicioso na economia nacional como um fator desencadeador para o desemprego |
Quase dois anos após ser contratado por uma empresa de construção e comércio, Kauê Guilherme de Souza, 29 anos, foi demitido em outubro do ano passado. O auxiliar administrativo é um em meio a milhares de bauruenses que ficararem sem seus empregos em 2015, quando a cidade perdeu 4.286 postos de trabalho formal. Foi a primeira vez em que o município registrou mais desligamentos do que admissões desde 1999. O que mais assusta é que, depois de dois anos consecutivos com resultados negativos na indústria, os setores de comércio e serviços, locomotivas da economia local, apresentaram retração no nível de emprego.
Os dados foram divulgados nessa quinta-feira (21) pelo Ministério do Trabalho e Emprego e, em Bauru, apontam, em números absolutos, maior queda no setor de serviços, com saldo negativo de 1.604 vagas. No comércio, esse número foi de -1.313; na indústria, -1.164; e na construção civil, -218. Ao todo, foram registradas 51.470 contratações ante 55.756 demissões ao longo do ano.
Coordenadora do curso de ciências econômicas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Salete Lara explica que o quadro é consequência de um círculo vicioso na economia nacional diante da crise, alimentada pelo endividamento do governo, pelas incertezas na política brasileira e pelo cenário internacional. “Os bancos estão reduzindo crédito para as empresas e isso desestimula a produção, que gera desemprego, que gera inadimplência, que gera crise econômica, que gera falta de produção”, exemplifica.
CICLO
| Malavolta Jr./JC Imagens |
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| Cafeo: só após a consolidação de mudança, contratações vão voltar |
Economista e vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Reinaldo Cafeo observa que o varejo em todo o País vem enfrentando dificuldades e não havia formas de a cidade sair ilesa da crise, mesmo com resultados surpreendentemente melhores do que o esperado no último dezembro.
“A gente vê o fechamento de lojas por aí. É natural que, num ciclo recessivo, as demissões comecem na indústria, depois afetem o comércio e, por último, cheguem ao setor de serviços. Era por causa disso que Bauru vinha resistindo com um pouco mais de contratações, mas até mesmo as empresas de recuperação de crédito têm perdido um pouco de sua robustez”, avalia.
Diante disso, para Cafeo, o ciclo de recessão efetivamente chegou à cidade e só não é pior graças à força de algumas áreas, como a da saúde, que vem mantendo os postos de trabalho.
SUBSISTÊNCIA
Em Bauru, o único setor da economia a contratar mais do que demitir em 2015 foi o da agropecuária, com 564 admissões e 529 desligamentos.
Reinaldo Cafeo pontua que, de fato, a agropecuária tem garantido bons resultados, especialmente com a alta do dólar, que beneficia a exportação, e a abertura de novos mercados para produtos brasileiros.
Salete Lara completa que o setor ainda resiste à crise econômica pelo fato de a população não deixar de priorizar justamente os bens de primeira necessidade, de subsistência.
‘Está difícil’
| Aceituno Jr. |
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| Kauê e mais 70 funcionários foram demitidos |
Algum tempo antes de ser deligado da empresa para a qual trabalhava, Kauê Guilherme de Souza, 29 anos, já desconfiava do risco de demissão. Ele conta que não foi o primeiro nem o último dos alvos da onda de cortes, que afetou cerca de 70 colegas.
“Começou com quem trabalhava nas obras e, aos poucos, foi saindo o pessoal do serviço interno, passando por alguns gerentes até chegar no setor administrativo, onde eu atuava”, lembra.
Morador da Vila Carolina, ele conta que previa as demissões quando começou a atender ligações e receber correspondências com cobranças de fornecedores por dívidas em atraso.
Casado e com uma filha de 3 anos, no próximo mês, ele receberá a última parcela do seguro-desemprego e ainda não tem outra oportunidade de trabalho à vista.
“Está difícil. O número de ofertas caiu muito e, nas vagas para as quais me cadastrei ou enviei currículo não fui sequer chamado para entrevista”, lamenta o chefe de família, que incrementa o salário da esposa vendendo cosméticos. “O problema é que, em um mês, o negócio vai bem. No outro, não. Preciso de algo mais seguro”.
Depois da retomada
Reinaldo Cafeo afirma que o desemprego é o último fator desencadeado em um ciclo recessivo. “Os empresários tentam segurar a mão-de-obra até o último momento”. Por outro lado, após a onda de demissões, a recuperação dos níveis de emprego demora a ser atingida, na avaliação do economista, mesmo após a retomada do crescimento econômico.
“O empresariado tenta ganhar produtividade com o pessoal que já tem. As contratações só voltam a ocorrer quando tiverem certeza do ambiente mais estável”, aposta. Esse cenário deve impulsionar a busca por espaços no mercado informal, segundo o economista.
Modelo de crescimento esgotado e falta de rumos pioram quadro
Professora de Economia da Uniesp em Bauru, Dulce Eliza Gonçalves Alvares aponta a origem da crise que culminou em fechamentos dos postos de trabalho no esgotamento do modelo de crescimento, calcado no consumo.
“No início do primeiro mandato do governo Dilma, as medidas tomadas por parte do governo para aumento do consumo e aquecer a economia foram efêmeras, pois logo se esgotaram por parte da população”, acredita. Para a economista, repetindo a estratégia de Lula, a presidente errou, pois as famílias já estavam endividadas e sem crédito.
EVOLUÇÃO DO EMPREGO EM BAURU
1999 -2.600 2000 1.031 2001 313 2002 61 2003 1.819 2004 5.239 2005 4.759 2006 3.686 2007 5.706 2008 5.170 2009 2.190 2010 12.939 2011 6.973 2012 6.717 2013 1.074 2014 1.826 2015 -4.286
Os números são resultados da diferença entre as admissões e desligamentos ano a ano
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“Ficou muito preocupada em ser comparada, mas todo mundo já tinha trocado de carro e os eletrodomésticos. Essas medidas são muito ineficazes quando as taxas de investimentos são baixas, o que sempre ocorreu no Brasil. Essa mesma política culminou no aumento da inflação (que restringe ainda mais o consumo) associada à recessão”, observa Dulce.
Ela acredita ainda no aumento da taxa de desemprego porque muitos jovens que vinham sendo sustentados pela família passam a buscar a inserção no mercado.
INSTABILIDADE
Mais grave do que os erros, porém, é a falta de perspectivas. Para Reinaldo Cafeo, o governo federal tem se mostrado incapaz de mudar o modelo econômico. “Sem sinalizações de uma nova política, cresce a desconfiança no mercado. E o que a gente pensou que fosse melhorar no segundo semestre vai sendo adiado. O FMI diz que a recuperação do Brasil só acontecerá em 2018. Serão mais dois anos amargando essa situação, que ainda deve piorar até começar a melhorar”, analisa.
Salete Lara concorda que as projeções econômicas para médio prazo estão longe do cenário ideal e aposta que a melhora só virá junto da estabilidade política.
Brasil fecha 1,5 mi de vagas em 2015, pior resultado desde 1992
É a primeira vez em que as demissões superaram as contratações desde 1999 no Brasil
Por Sofia Fernandes
Prejudicado principalmente pelas demissões na indústria e na construção civil, o mercado de trabalho brasileiro fechou 1.542.371 vagas no ano passado, o pior resultado desde 1992, quando começou a série estatística do governo. É a primeira vez em que as demissões superaram as contratações no Brasil desde 1999, consequência da retração na atividade econômica, baixa demanda por bens e serviços, contração do crédito, entre outros fatores.
A indústria de transformação demitiu 608,8 mil trabalhadores com carteira assinada. O setor de construção civil fechou 416,9 mil vagas, segundo dados divulgados nessa quinta-feira (21) pelo Ministério do Trabalho. A agricultura foi o único setor a apresentar saldo positivo de vagas no ano passado, com a criação de 9.821 postos.
Houve queda no emprego em todos os Estados, sobretudo nas regiões com mais indústrias e formalização do trabalho. São Paulo concentrou o fechamento de 466 mil vagas. Minas Gerais, 196 mil, e Rio de Janeiro, 183 mil vagas encerradas.
Em dezembro, houve um saldo negativo de 596 mil postos de trabalho, movimento puxado pelas demissões dos trabalhadores contratados temporariamente nos meses anteriores para atender a demanda de fim de ano.
Os salários médios de admissão tiveram uma queda de 1,64% no ano passado, considerada a inflação, passando a R$ 1270,74. A queda foi maior para os homens, de 2,28%, pela forte presença masculina nos setores mais afetados pela baixa contratação e demissões. Para as mulheres, a queda foi de 0,34%.
O ministro do Trabalho, Miguel Rossetto, reforçou, durante a divulgação dos dados, o discurso de que o ano foi ruim para o emprego no país, com diminuição da renda, mas que essas perdas não anularam as conquistas dos últimos anos. “Se tivemos um ano difícil em 2015, preservamos as conquistas importantes dos últimos anos em relação à ampliação forte do mercado de trabalho.”
Segundo Rossetto, que pela primeira vez apresentou os dados do Caged, é possível uma retomada do emprego neste ano, mesmo com a perspectiva de mais um longo período de recessão e alta inflação.
Para esse feito, o ministro acredita em: expansão do crédito, retomada das exportações, recuperação dos mercados antes ocupados por importações, concessões e na terceira etapa do Minha Casa, Minha Vida, que, na visão do governo, pode aliviar o setor da construção civil.

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