| João Rosan |
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| Rosseti destaca importância estratégica da Delegacia de Bauru |
| Quioshi Goto |
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| Nova chefe da Delegacia da PF, Karen Dunder, toma posse hoje |
Superintendente regional da Polícia Federal em São Paulo, Disney Rosseti diz ter entre suas maiores prioridades o combate à corrupção. Aos 41 anos, ele comanda uma das principais unidades da PF, que concentra o maior efetivo de policiais federais no País - são 15 delegacias descentralizadas, além das especializadas na Capital e das unidades localizadas nos aeroportos de Guarulhos e Congonhas.
À frente da superintendência regional desde setembro do ano passado, Rosseti está em Bauru para acompanhar, nesta quarta-feira (3), a posse da nova chefe da Delegacia de Polícia Federal de Bauru, Karen Cristina Dunder - a primeira mulher a assumir o cargo na cidade. Em entrevista concedida, na tarde dessa terça (2), ao JC, o superintendente falou sobre a importância estratégica da delegacia de Bauru em âmbito estadual.
Também destacou o trabalho realizado pelo Ministério Público, Judiciário e a própria PF, que, junto com “a sociedade civil engajada”, têm instituído uma “mudança de paradigma em relação à corrupção”. Rosseti discorreu, ainda, sobre o recurso da delação premiada, que ele considera uma “ferramenta que veio para ficar” após o uso “emblemático” na Operação Lava Jato. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.
JC - Qual é o principal desafio da PF nos dias de hoje?
Disney Rosseti - São Paulo, por si só, é um desafio, já que responde por quase 40% do efetivo da PF no Brasil. É o estado mais rico do País, centro econômico e industrial, com o maior porto da América Latina, além do Aeroporto de Guarulhos, que responde por quase 70% do tráfego de imigrantes no Brasil. Tudo isso está sob nossa responsabilidade.
JC - Diante de tantas atribuições, qual é a principal meta da PF?
Rosseti - A PF possui uma gama de atribuições imensa, como diversos serviços prestados à população. Mas, dentro do trabalho de polícia judiciária, uma prioridade é o combate à corrupção.
JC - Trata-se de uma forte reivindicação da própria população. Há um clima de indignação muito grande em relação aos casos de corrupção no País.
Rosseti - Os crimes de colarinho branco, lavagem de dinheiro, corrupção de agentes públicos, sem sombra de dúvida, são uma grande prioridade, sem deixar de lado as questões afetas ao tráfico de drogas e crimes ambientais.
JC - Quais são os mecanismos de que a PF dispõe, hoje, e quais novas estratégias podem ser lançadas para combater a corrupção?
Rosseti - A PF continua investindo muito em tecnologia e capacitação de seus servidores, de maneira a otimizar seus trabalhos. São equipes altamente especializadas. Quanto mais sofisticada uma organização criminosa, mais especializadas precisam ser as ferramentas de investigação. Dependendo da situação, ferramentais importantes são a interceptação telefônica, a infiltração de policiais. São recursos diferenciados, mais invasivos em relação à intimidade das pessoas, mas que obedecem a parâmetros preestabelecidos.
JC - O recurso da delação premiada, amplamente utilizado na Operação Lava Jato, deve se tornar uma ferramenta institucionalizada para desarticular organizações criminosas?
Rosseti - Em se tratando de crimes de corrupção de agentes públicos, a delação é uma ferramenta imprescindível de investigação. A Operação Lava Jato está demonstrando que, sem este recurso, seria muito difícil chegar aos resultados que foram alcançados. É um caso emblemático, um divisor de águas em relação ao uso da delação premiada como instrumento de prova.
JC - Trata-se de um recurso controverso, cuja legitimidade é bastante contestada por alguns setores do Direito.
Rosseti - Existe esta controvérsia no Brasil, mas é uma ferramenta que veio para ficar. Nos países que tiveram problemas mais sérios com o crime organizado, como Estados Unidos e Itália, a delação é amplamente utilizada, com muito sucesso. No Brasil, é algo relativamente novo, embora já haja uma regulamentação. Mas é um mecanismo que vai sofrer adaptações e limitações por parte da Justiça. É um caminho natural.
JC - O senhor avalia que a corrupção no País chegou a um patamar sem precedentes ou os casos ficaram mais expostos nos últimos anos?
Rosseti - É difícil saber se a corrupção aumentou ou se está mais exposta pelos processos criminais e pela atuação dos órgãos de investigação. Mas, com certeza, há uma mudança de paradigma no Brasil em relação à corrupção. O País está mudando para melhor neste sentido, com base no trabalho das instituições: polícia, Ministério Público, Justiça e a própria sociedade civil, que está muito engajada.
JC - A mudança que o senhor cita está relacionada ao maior grau de autonomia da PF e de outros órgãos para investigar?
Rosseti - Temos autonomia absoluta e independência nas nossas investigações e na atuação institucional.
JC - O seu antecessor, Roberto Troncon, defendia a transformação da PF em uma autarquia, inclusive com orçamento próprio, para evitar interferências políticas? Esta também é uma bandeira da atual gestão?
Rosseti - A transformação em agência ou autarquia é algo que pode ser discutido, mas, mesmo com o atual formato, temos autonomia e independência absoluta em nosso trabalho. Da mesma forma, a autonomia em termos orçamentários seria interessante para a instituição, mas, apesar de todo o quadro, temos tido condições de trabalhar. Porém, não quer dizer que não possam ser estudadas e avaliadas alterações, para que a instituição siga seu caminho natural de aperfeiçoamento. E isso pode ser fortalecido com ferramentas específicas, como uma lei orgânica, independentemente da vestimenta que isso traga à instituição.
JC - Como o senhor avalia o papel da delegacia da PF em Bauru no cenário paulista?
Rosseti - Bauru é uma delegacia estratégica para a superintendência, não apenas por sua posição geográfica, por estar no centro do Estado, em um grande entroncamento rodoviário e ferroviário, e por ter um aeroporto, mas também pela própria importância da cidade e da macrorregião. A delegacia de Bauru é uma prioridade, sem sombra de dúvidas, para a nossa administração.
JC - Qual é a marca que o senhor deseja imprimir em sua gestão?
Rosseti - Espero conseguir fazer uma gestão de valorização do nosso componente humano, que é o que temos de mais alto valor dentro da PF, além de contribuir para o avanço da instituição, com eficiência nos seus trabalhos.
Quem é
Nascido em Campo Grande (MS), Disney Rossetti morou em Bauru entre 1980 e 1986, ainda durante a infância. Bacharel em direito pela Universidade Federal Fluminense, é pós-graduado em gestão de segurança pública pela Academia Nacional de Polícia, em ciências criminais pela Universidade do Sul de Santa Catarina e mestre em direito e políticas públicas pelo Centro Universitário de Brasília.
Ex-delegado da Polícia Civil em Minas Gerais, Rosseti ingressou na PF em 1999. De 2008 a 2015, passou por setores estratégicos da instituição, tornando-se superintendente regional da Polícia Federal no Distrito Federal, diretor da Academia Nacional de Polícia, coordenador-geral do Centro Integrado de Inteligência Policial e Análise Estratégica da Diretoria de Inteligência Policial, e adido policial na Itália.
Em setembro de 2015, assumiu a Superintendência Regional da Polícia Federal em São Paulo.

