Jânio Quadros interrompeu uma jornalista que se dirigia a ele pelo primeiro nome: “Jânio, não. Senhor Jânio. Intimidade com mulher só pode resultar em aborrecimentos ou filhos. Com a senhora não quero nenhum dos dois”.
Lembrei-me do folclore ao ler a entrevista de Miriam Dutra, a jornalista que foi amante do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nos anos 80 e 90, expondo em detalhes um segredo que o Brasil já sabia. Só faltava a voz da própria protagonista. Os dois se conheceram em Brasília, no Piantela, restaurante frequentado por políticos. Naquela abordagem, Miriam deve ter chamado o então futuro presidente de Fernandinho, tal o resultado que hoje se conhece. O certo é que o modelo janista desencorajador de intimidades foi desprezado.
Sexo e poder sempre andaram juntos. Existe uma outra República sob os lençóis. Lula teve também a sua Miriam, a Cordeiro, com uma filha fora do casamento. A única diferença é que no caso de FHC, dois testes de DNA revelaram que o filho não tem o pai que se supunha, como fruto dessa relação extraconjugal. Renan Calheiros, presidente do Senado, sustentava a amante e o filho com dinheiro de propina de empreiteiro. José Dirceu arrumou com amigos favorecidos pelo governo, um jeito de facilitar a aquisição de moradias para as suas ex.
Há exemplos de prevaricações entre estadistas ilustres, como François Mitterrand, presidente francês já morto. Kennedy teve dezenas de amantes, entre elas a atriz Marilyn Monroe. O poder estimula a libido. Seja o detentor “Sapo Barbudo” ou “Príncipe dos Sociólogos”. Só que no Brasil, eles gozam com o nosso dinheiro. E aqui como lá, “ex é para sempre”. Ninguém almoça de graça. A Miriam, de FHC, vive em Madri desde 2006. A Globo pagava a ela 4 mil dólares, como jornalista colaboradora.
O amado amante entrava com mais 3 mil dólares, pagos mediante um contrato de trabalho fictício com a Brasif, empresa que detinha o monopólio de lojas de artigos livres de impostos, em aeroportos internacionais. Antes da Miriam, quem vinha do exterior podia comprar 300 dólares em mercadorias nos chamados duty free. O limite de isenção, depois do cala a boca dado à jornalista, passou para 500 dólares. Agora, as fontes secaram. A Brasif foi vendida; o filho não é de FHC e a Globo não precisa mais de uma colaboradora de 4 mil dólares.
Em uma das entrevistas à Folha, a jornalista contou que Fernando Henrique pagou dois abortos seus durante o período em que se relacionaram. O ex-presidente não negou, dizendo que “questões de natureza íntima, minhas ou de quem quer que sejam, devem se manter no âmbito privado a que pertencem”. É verdade. Não é da conta de ninguém se uma mulher decide interromper uma gravidez por não se julgar competente para ser mãe. A hipocrisia é a sociedade brasileira tratar o assunto como crime e os políticos só defenderem a prática para as amantes. São realizados mais de 1 milhão de abortos operados por “curiosas”, no Brasil.
O SUS faz ao menos 200 mil atendimentos anuais por complicações pós-aborto. As mortes por procedimentos errados também estariam na casa dos milhares. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tem um projeto que dificulta o acesso de mulheres a pílulas abortivas na rede pública – mesmo que tenham sido estupradas. Ninguém se propõe a abrir discussão sobre o aborto, no momento em que o zika virus pode estar contribuindo para a microcefalia em bebês. Crianças vão encontrar dificuldades motoras e mentais a vida toda. E os políticos, com medo de perderem votos, se constrangem diante da urgência de se discutir a opção pelo aborto em casos comprovados.
A sexualidade faz parte da nossa conduta. Ela faz parte da liberdade em nosso usufruto deste mundo. Quando a Bíblia fala de sexo, não está falando de pureza, mas de mecanismos de dominação – jogos sociais de poder e mecanismos sociais de controle. O Pentateuco é tolerante com a poligamia e tampouco condena homem casado que faz sexo com amantes. Dinheiro, sexo e poder. É impossível pensar um período histórico que não tenha sido motivado ou, pelo menos influenciado por um dos elementos dessa tríade. O filósofo Michel Foucault dizia que o sexo não é uma fatalidade, ele é uma possibilidade de ascender a uma vida criativa. Infelizmente, tem gente que mistura pecar com criar. Depois, vem a briga pela pensão, pela guarda dos filhos e dos cães. Comam a maçã. Mas, por favor, engulam o caroço. Cuspi-lo na nossa cara não é justo.
O autor é jornalista e articulista do JC