Polícia

Operação Resistência prende 21 pessoas por tráfico

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Polícia Federal/Divulgação
Dos 21 presos, 11 eram de Bauru e foram encaminhados para o CDP e para a Cadeia de Pirajuí
João Rosan
Tenente-coronel Walter de Oliveira e delegados federais Karen Dunder e Ênio Bianospino

“Tinha tudo para dar errado, mas foi uma operação muito bem-sucedida”. Foi assim que a chefe da Delegacia da Polícia Federal de Bauru, Karen Cristina Dunder, definiu a ação desencadeada nessa terça-feira (1) em conjunto com a Polícia Militar e que resultou na prisão de 21 pessoas.

Devido ao vazamento de informações ocorrido há cerca de 15 dias, a ofensiva que desarticulou duas quadrilhas de traficantes que abasteciam Bauru e região por pouco não foi frustrada. Mas, com a redefinição de estratégias, rastreamento de novas informações e a mobilização de 150 policiais federais e militares, a prisão do grupo foi efetivada durante a manhã e só cinco suspeitos seguem foragidos. Os nomes dos procurados e dos presos não foram divulgados pela PF.

Denominada Operação Resistência, a ação desarticulou duas organizações criminosas que já haviam atuado juntas e traficavam maconha e cocaína adquiridas em Campo Grande (MS). Naquela cidade, foram presos cinco fornecedores.

Outro fornecedor foi capturado em Araras (SP), 11 investigados foram presos em Bauru e um em Pederneiras. Três já haviam sido presos em flagrante e 413 quilos de maconha já haviam sido apreendidos ao longo de oito meses de investigação. Entre os capturados, três eram mulheres, incluindo uma faxineira de uma terceirizada que presta serviços para o Fórum de Bauru. Segundo o delegado federal Ênio Bianospino, que coordenou a ação, foi ela a responsável pelo vazamento de informações que quase culminou no fracasso da ofensiva.

“Foi algo inédito em toda a minha carreira. Esta mulher teve acesso a documentos sigilosos e, fazendo uso de um celular, os fotografou. Ao chegar em casa, mostrou as imagens para o marido, que as levou para um dos líderes da quadrilha. A notícia correu entre os criminosos, que receberam a orientação para saírem de suas casas e não deixarem nada que pudesse comprometê-los”.

Dificuldade

Por este motivo, a PF e a PM não conseguiram apreender armas e drogas que, conforme as investigações apontaram, estavam guardadas em propriedades rurais de Bauru e região. Segundo Bianospino, a mulher e o marido – que não possuíam antecedentes criminais - estão entre os presos na manhã dessa terça. Não se sabe, até o momento, se a funcionária foi infiltrada no prédio do Judiciário por uma das quadrilhas ou se ela foi cooptada por um dos líderes da associação - que era seu vizinho.

“Há a possibilidade, ainda, de ter havido uma coincidência. Enquanto realizava seu serviço, ela pode ter visto os documentos sobre uma das mesas do Fórum e, ao se deparar com o nome de um conhecido, ter feito as fotos para alertá-lo. De qualquer maneira, sua participação está comprovada e ela responderá pelos crimes que cometeu, podendo cumprir pena de 20 anos de reclusão”, esclarece o delegado.

‘Negócio’ familiar

Lideradas por três irmãos, as quadrilhas atuavam em Bauru há muitos anos. Segundo o delegado federal Ênio Bianospino, pelo menos quatro filhos e sobrinhos destes criminosos já integravam o grupo como traficantes menores. Alguns dos membros, inclusive, já haviam cumprido pena pelo comércio ilegal de entorpecentes. “Trata-se de uma associação bem estruturada, com divisão de tarefas. Por meio das investigações, conseguimos comprovar onde as remessas eram guardadas, como eram distribuídas aos responsáveis por cada região da cidade e municípios vizinhos e como chegavam ao consumidor final”, detalha.

Habitualmente, a droga era transportada em caminhões, em meio a cargas lícitas, como os 413 quilos de maconha que foram apreendidos no final do ano passado pela Polícia Rodoviária na rodovia Marechal Rondon. Conforme o JC divulgou, o entorpecente estava escondido em fardos de materiais recicláveis prensados e um homem – posteriormente identificado pela PF como membro da organização desarticulada, nessa terça (1) – foi preso.

Policial militar de Bauru é investigado

Um policial militar de baixa patente de Bauru também é investigado por suspeita de financiar uma das quadrilhas que foram desarticuladas durante a Operação Resistência. A prisão, contudo, ainda não foi pedida porque não há comprovação de que ele seja efetivamente membro da associação criminosa.

Segundo o tenente-coronel Walter de Oliveira, o PM está em licença médica e, assim que retornar ao trabalho, dentro de uma semana, passará a responder a processo administrativo interno, podendo ser afastado de suas funções ao menos temporariamente. Ele seguirá, ainda, sob investigação da PF.

“Ele emprestava dinheiro e cobrava juros por este suporte, como faz um agiota. O que está sendo verificado é se ele, de maneira consciente, se valia desta prática para que os líderes das organizações criminosas pudessem adquirir as cargas de drogas. A situação ainda é nebulosa, mas temos extremo interesse em eliminar de nossas fileiras os policiais que tenham desvio de conduta”, pontua.

‘Resistência’ fez buscas em 23 locais

Durante a Operação Resistência, foram realizadas buscas em 23 endereços e 21 de 26 procurados foram presos. Eles serão indiciados por tráfico de drogas, associação ao narcotráfico, financiamento ao narcotráfico, quebra de sigilo judicial, favorecimento pessoal, favorecimento real e informante de associação criminosa.

As penas para cada um dos crimes variam entre dois e 20 anos de reclusão. As mulheres foram encaminhadas para a Cadeia Pública Feminina de Pirajuí e os homens, para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru. As investigações seguem no sentido de produzir novas provas contra os presos e localizar os cinco foragidos.

Apuração no Fórum

Diretor substituto do Fórum de Bauru, o juiz Gilmar Garmes informou que medidas administrativas serão tomadas para apurar eventuais falhas que tenham resultado no vazamento de informações. “Um procedimento administrativo interno será instaurado para investigar se esta funcionária terceirizada contou com o auxílio de algum servidor. Mas acreditamos que houve uma desatenção, já que este tipo de processos e documentos sigilosos impressos deveriam permanecer em armários trancados”, pontua, salientando que os profissionais de limpeza possuem acesso às salas do Fórum após o final do expediente.

“Foi um procedimento de segurança que não foi observado. Iremos reforçar esta orientação a todos os servidores. Mas, com a instituição dos processos digitais, a tendência é dificultar ainda este tipo de acesso indevido”, esclarece.

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