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Sofisma

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Em economia existe a expressão “sofisma da composição”, que representa o que podemos denominar de vício de pensamento, isso porque foca um aspecto do conjunto analisado em detrimento de todo o resto desse conjunto. É, na prática, um raciocínio falso, onde o todo é julgado pelo que se vê em uma das partes. Por exemplo, imputar como verdadeiro para o mercado como um todo aquilo que ocorre com um setor isoladamente.


Especificamente a palavra “sofisma” pode ser definida como argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade ou da realidade. Mesmo tendo lógica, é enganosa. Afinal, por que coloco estes conceitos? Exatamente para alertar sobre alguns pronunciamentos e até posicionamentos no tocante ao momento econômico e político por que passa o Brasil.


Cada um de nós deve ficar atento a algumas análises simplistas que vão na direção do sofisma. Vamos a alguns exemplos de importantes lideranças do atual governo federal. Ouvi a seguinte a expressão da presidente Dilma Rousseff: “A oposição tem absoluto direito de divergir, mas não pode sistematicamente ficar dividindo o país, porque tem certo tipo de luta política que cria um problema sistemático não só para a política, mas para a economia, a criação de emprego e o crescimento das empresas”. Observem o sofisma presente.


É verdadeira a crise política e também é verdadeiro o problema econômico que afeta o emprego e o crescimento, contudo, faltou dizer que a necessidade do ajuste fiscal, um dos pilares para equacionar o desequilíbrio na economia, que precisa de negociação com o Congresso, se dá em função dos erros na condução da política econômica até agora e que o atual partido situacionista está no poder há quase 15 anos. Também faltou dizer que boa parte dos políticos da base aliada é contrária ao ajuste fiscal, emperrando as reformas necessárias ao país.


Quem mais ao meu juízo “sofisma” é o ex-presidente Lula. Ele é excelente comunicador e tenta de um limão fazer uma limonada em vez de esfregar no olho (como dizem popularmente). Por exemplo: ele alardeia que milhões de brasileiros saíram das classes D e E e reforçaram a classe média brasileira. Isso foi uma conquista e tanto. Mas isso é meia verdade, à medida que ele não fala que mais de um terço destes brasileiros está fazendo o caminho de volta, por conta da crise econômica, insisto, instalada por incompetência na condução da economia do atual governo, a cujo partido ele pertence.

E o que é pior: estas pessoas estão voltando piores, pois estão endividadas. Assim, joga para plateia. A própria tentativa de ainda ser reconhecido como metalúrgico, trabalhador, tem meia verdade. Atualmente ele está mais para ser considerado “elite” a que ele mesmo ataca do que o trabalhador do passado, afinal, quem fatura ao ano na casa dos milhões, tem amigos como pecuaristas, empreiteiros e tantos outros, não pode se colocar com um humilde trabalhador. Seu próprio padrão de vida atual confirma isso.


Considerando a última ação da Lava Jato que culminou com o depoimento do ex-presidente, a maior parte das falas em sua defesa, atacou órgãos ligados ao próprio governo, como é o caso da Polícia Federal, que é ligada ao Ministério da Justiça. Outra maneira de passar parte da verdade, ou então transformar parte da verdade em verdade completa.


O alerta aqui é que não podemos perder o foco. Temos que ser críticos com os oportunistas que tentam desviar daquilo que efetivamente interessa: passar o país a limpo, independentemente de partidos políticos (quem for corrupto que seja preso, da situação ou oposição, ou seja lá quem for) e que definamos logo um novo modelo econômico que permita sair deste marasmo em que está nossa economia.


Enquanto isso não acontece, de sofisma em sofisma o desemprego cresce, a economia afunda e os mais pobres padecem como nunca. Muita atenção neste momento.


O autor é economista e articulista do JC

 

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