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A intolerância dos tolerantes

Isabel Cristina Miziara
| Tempo de leitura: 2 min


Sei que o título tem um apelo altamente paradoxal, mas esta não é minha intencionalidade, qual seja, a de criar paradoxos. Não sendo filósofa, nem intencionando ser pretensiosa, pois tenho ciência das minhas limitações, desejo, tão somente, estabelecer posições, ponderar sobre a tolerância e seu lado antagônico, tendo em vista que muito de cada uma dessas características do ser humano têm caminhado alhures, sem destinação certeira.

Para podermos refletir melhor sobre o tema, vamos entender, mesmo quer rasteiramente, o que é a tolerância. Qualquer pesquisa simples pelos meandros da internet, permite-nos descobrir que tolerância é um vocábulo oriundo do latim, que significa suportar, aceitar; também nos deparamos com a ideia de que a palavra representa sofrer, suportar pacientemente. Assim, a partir das definições apresentadas, depreende-se que tolerante é  aquele que aceita, suporta, sofre pacientemente diante de situações com as quais não concorda, que representam algo que vão de encontro as suas crenças mas que, decidido a fazer o bem, respeita e aceita posições contrárias as que possui. Destarte, a intolerância é o reverso da medalha, representa a não aceitação do oposto, do diferente, do díspar, do que não agrada.

Com esses dois pensamentos postos, vislumbramos a eterna dubiedade humana, que versa entre o bem e o mal, que deságua num questionamento: como agir no seio da sociedade? Como portar-se diante do outro? A estas perguntas, a filosofia apresenta como resposta a ética e suas filhas valiosas, as virtudes, que têm a função precípua de humanizar o ser humano, elevando seu grau de civilidade para que sejam estabelecidas relações interpessoais mais adequadas, respeitosas e harmoniosas.

Neste cenário aparece a tolerância, filha da ética, a nos acenar, não representando, em momento algum, a subserviência. Humanizar-se não significa aceitar sem ponderar ou questionar. Um mesmo fato pode ter uma infinidade de versões, interpretações, explicações. Cada um tem sua verdade, defende seu ideário, suas crenças. Entretanto, a despeito das liberdades individuais, existe o bem comum e coletivo, as razoabilidades que devem ser ponderadas, o respeito à liberdade de expressão e pensamento. É neste ponto que entra a intolerância dos tolerantes, para que não se tornem subservientes e aceitem tudo como forma de crença indelével no direito do outro pensar e ser diferente. O outro tem esse direito, mas tem o dever de respeitar quem acredita em outras coisas, quem se entusiasma por aquilo pode lhe causar estranheza, mas não pode ultrapassar o limite das individualidades. Assim, o tolerante deve ser intolerante com o desrespeito, o escárnio, a mentira, o cultivo das inimizades, a incitação à promoção da desordem, as ações que favorecem poucos em detrimento de muitos.

A intolerância dos tolerantes não é a panaceia para as dificuldades que enfrentamos nos momentos atuais, mas pode ser um bom começo para colocar fim ao descaso, à insensatez e a desfaçatez as quais temos assistido.


A autora é professora e coordenadora pedagógica

 

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