| Samantha Ciuffa |
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| Casebre onde a criança nasceu, na Vila Cardia, está vazio, sem água e sem luz; bebê estava bastante sujo quando foi socorrido |
Era por volta das 7h da manhã da última segunda-feira (18) quando uma mulher de 37 anos deu à luz, em casa, a um menino. Era para ser mais um parto em meio às dezenas registradas todos os dias em Bauru, mas não foi. Sem ter passado por nenhum pré-natal, a mãe, usuária de crack, sequer sabia o tempo de gestação e a criança acabou nascendo “no susto” em um vaso sanitário sujo com fezes, em um casebre sem água e luz na Vila Cardia.
O pequeno, aparentemente saudável, foi rejeitado pela mãe logo no primeiro momento.
O Conselho Tutelar e a Vara da Infância foram acionados, posteriormente ao socorro médico.
Primeiros minutos
Esse foi o primeiro chamado daquele dia de uma das equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Os socorristas chegaram ao local e pegaram a criança do colo de uma vizinha do casebre.
“O bebê estava todo sujo de fezes e com fome, mas parecia saudável. Não sabemos nem como cortaram o cordão umbilical, mas, por sorte, deu certo. A mãe andava de um lado para o outro, mesmo depois do parto. Disse que não conseguiu largar as drogas e que não colocaria o filho no peito para não criar vínculo com a criança. A vizinha estava desesperada”, lembra José Carlos Gomes, enfermeiro do Samu. “Em onze anos de atendimento, nunca vi um nascimento tão triste assim”, lamenta.
Socorrida, a criança foi aspirada e recebeu oxigênio nos primeiros minutos de vida até a chegada à Maternidade Santa Isabel, onde permanecia até essa terça-feira (19). Mesmo com quadro de desnutrição da mãe, o JC apurou que o bebê teria nascido sem problemas graves.
Reação
A Famesp, organização gestora da maternidade, informou que a mãe recebeu alta médica nessa terça. Já a criança permaneceria na unidade, conforme apuração da reportagem. Ao tomar conhecimento do caso por meio do JC, a Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) comunicou o Conselho Tutelar sobre a situação da criança e também da negativa da mãe em ficar com o bebê.
A conselheira Patrícia Ana Dias esteve na maternidade anteontem no final da tarde e conversou com a mulher, que teria reiterado o abandono ao filho em virtude do vício. “Ela também não soube dizer quem é o pai. Agora, foi aberto um prontuário e o hospital está sabendo que ela não pode sair daqui com o bebê”, explica a conselheira, comentando que o caso seria levado à Vara da Infância e Juventude.
Após a alta médica, o recém-nascido deve ser acolhido em um abrigo.
Adoção?
| Samantha Ciuffa |
| Ubirajara Maintinguer detalha o que ocorre a partir de agora |
Juiz da Vara da Infância e Juventude de Bauru, Ubirajara Maintinguer, explica que, nessas situações, a Justiça recebe um laudo psicológico ou psiquiátrico do hospital.
“O que o Judiciário quer saber é se há vontade livre e se a mãe está firme na entrega ou se ela agiu assim por influência de algum problema de ordem psicológica decorrente do parto”, acrescenta.
Na sequência, segundo descreve o magistrado, a mãe é ouvida e deve explicar por quais motivos não quer a criança. “Informamos a mãe sobre seus direitos e sobre as consequências do ato. Perguntamos se ela quer que a família seja comunicada e se quer procura do genitor”, comenta Maintinguer.
Mesmo após a negativa inicial, a mãe, por direito, tem um prazo de até seis meses para tentar reaver a guarda. Também é avaliado se algum parente, na forma da lei, pode ficar com o bebê. Só em último caso, ele fica disponível para ser adotado por uma família substituta.
Caso a negativa em relação à criança persista em todas as fases da avaliação, ocorre a destituição do pátrio poder e a criança é finalmente encaminhada para a adoção.
“Elas (mães) acabam rejeitando o bebê, às vezes, por estar em outra relação, ou pelo fato de esse filho ser gerado em uma relação eventual ou de violência”, comenta o juiz.
De janeiro para cá, ao menos seis casos relacionados ao abandono de recém-nascidos ocorreram em Bauru, segundo estimativa da própria Vara da Infância e Juventude.
‘Vida perdida’
Há dez anos morando em um casebre de dois cômodos, a mãe da criança tem outro filho de 4 anos, que é cuidado pela vizinha que a ajudou na última segunda-feira (18). “Era tudo arrumadinho, mas ela entrou no crack e vendeu tudo o que tinha. Ela fica quase o dia todo na rua. Tentou tratamento no ano passado, mas voltou pior e grávida. Não tem condições de cuidar desse bebê”, comenta a vizinha de 40 anos que conversou com a reportagem.
E, ao que tudo indica, a situação dela era invisível ao poder público até segunda. Mesmo em vulnerabilidade, ela não estava inscrita em nenhum dos programas sociais da Sebes. “Iniciaremos hoje (segunda) mesmo o acompanhamento do caso”, afirma Darlene Tendolo, titular da pasta.
