Articulistas

Sobre distrações, ilusões, lapsos e sonhos

Carlos D?Incao
| Tempo de leitura: 3 min

“Então marchamos vitoriosamente sobre as ruas das grandes cidades! Nos unimos pelas armas e pela convicção de que a liberdade, embora isso aparente ser um lugar comum, tem mesmo um elevado preço…mais precisamente o preço de milhares de homens e mulheres que pagaram com suas vidas o momento de alegria e glória onde flamejavam pelas avenidas milhares de bandeiras escarlates! Não tardou para que nossas mãos vingadoras caíssem sobre o inimigo, mas não como imaginavam os iníquos, mas sim sobre a forma da justiça e humanidade que transformam quartéis em escolas, cemitérios em parques e a miséria em riqueza dividida, de modo que todos pudessem, enfim, se realizar como indivíduos sem censuras e limitações…”


(Mas tudo isso foi apenas uma distração... Distração que eu tive enquanto observava crianças suplicando por dinheiro em uma avenida da cinza cidade de Bauru… Distração rapidamente corrigida pela buzina de um carro que se impacientava com minha demora em me movimentar…)


“Então uma nova ordem social foi elevada! Nossa irmandade e igualdade como seres humanos triunfavam sobre qualquer diferença, seja ela qual fosse! A diferença não mais significava divisão, mas sim a riqueza de nosso gênero. Para cada um havia o máximo do que essa nova ordem poderia oferecer e de cada um exigia-se o máximo de sua generosidade. Assim, não existiam mais cabeças baixas, nem humilhados, nem ofendidos, pois não havia mais explorados e nem exploradores…”


(Mas tudo isso foi apenas uma ilusão... Ilusão que tive enquanto assistia o gerente do maior banco da cidade chamar o segurança para retirar da sua agência um senhor negro, pobre e maltrapilho… Ilusão rapidamente corrigida pelo sinal do caixa que me lembrou que o próximo a ser atendido seria bem acolhido porque era branco, rico e estava bem vestido…)


“Então acabei vivendo muito mais do que pensava que viveria! A ciência e a medicina não eram mais indústrias, mas uma ferramenta em prol da vida, do bem-estar e da perpetuação da felicidade. Milhares de jovens que sonhavam ser médicos se tornaram médicos e milhares de crianças que queriam estudar ciência se tornaram cientistas!


Tantos mistérios foram revelados… do universo ao átomo, de nosso funcionamento como organismo ao fato de que tantas doenças para as quais antes só havia tratamentos, na verdade tinham cura. Assim, a cada semana lia sensacionais artigos em revistas, jornais e outras tantas publicações, pois além de tudo, agora tinha tempo para ler…”


(Mas tudo isso só foi um lapso... Lapso de atenção em meu caminho para casa, quando me esqueci de comprar meus remédios. Lapso rapidamente corrigido pela minha ida à farmácia que me lembraria que em breve iria morrer envenenado por tudo aquilo que comemos, bebemos e nos “tratamos” na sociedade onde até a morte é um negócio).


“Então fizemos um pacto inexpugnável de amor, amizade e fidelidade que transcenderiam o tempo, a idade e toda e qualquer diferença entre nós dois! Nós o selamos com um beijo em uma noite de inverno! E assim, juntos, construimos nosso castelo e nossa dulcíssima prisão até o fim de nossos dias. Fui por ela sempre amado, respeitado e perdoado. E o elo da reciprocidade foi nossa linguagem comum e descobrimos, enfim, que poucos alçaram tão elevada riqueza…”


(Mas tudo isso foi só um sonho... Sonho rapidamente corrigido pelo despertador que me lembrava que não poderia me atrasar para o trabalho... ao mesmo tempo que percebia o som de uma fina garoa que caia sobre a cidade e sobre cada uma de nossas solidões…)


O autor é professor de história/USP e diretor do Instituto de Ensino D’Incao

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