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Política, som e fúria

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min


“Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!” – grita o rei em desespero, na tragédia de Shakespeare, disposto a qualquer coisa para preservar o poder. A montaria de Ricardo III, da Inglaterra, desequilibra-se e cai, durante a Batalha de Bosworth. Joga o cavaleiro ao chão. Antes que o rei possa se agarrar de novo as rédeas, o cavalo assustado sai em disparada. Ricardo olha de um lado, olha do outro e vê seus generais em retirada, com os soldados. Nenhum deles lhe oferece a garupa.

A dimensão política em Shakespeare tem sido objeto de milhares de teses e ensaios. As histórias e situações dos seus personagens servem para qualquer tipo de comparação com a política e os políticos. O vilão dessa peça, lembraria os esforços do ex-presidente Lula em seu bunker num hotel de Brasília, loteando 20 mil cargos de confiança, 32 ministérios e 600 diretorias em empresas estatais e fundacionais do reino. Em troca de um “cavalo” capaz de lhe devolver o Poder.

Quando se fala hoje de William Shakespeare (1564-1616), não nos referimos somente ao literato. A cultura, no sentido lato, realça a sua universalidade. A maioria das pessoas sabe frases de Shakespeare, mesmo que não saiba quem as escreveu. Os seus versos são lidos em funerais e casamentos. Os seus sonetos aparecem em cartões do Dia dos Namorados. Os políticos roubam-lhe frases, os escritores fazem títulos a partir dele. Um soldado britânico defendeu-se das acusações pela tortura de prisioneiros no Afeganistão, com Macbeth: “Que for mister, farei executar, / Com a graça de Deus, em seu lugar/ E tempo.”  Suas obras foram traduzidas em uma centena de línguas. Foram produzidas 1.104 versões para o cinema. É o mais lido, depois da Bíblia. Os quatro séculos da sua morte, no mês passado, são reverenciados em 110 países. Há milhares de explicações para essa onipresença. Shakespeare pôs em cena personagens cativantes por imperfeições próprias do ser humano, motivadas desde a simples vaidade às desculpas mais torpes. Ele trata das relações do homem consigo mesmo, como diz Harold Bloom, em “A invenção do humano”. A perda do poder é um veneno. A áspide em Cleópatra, bem poderia ser uma jararaca. “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, em Hamlet. A obra do poeta é pano de fundo para teorias políticas, psicanalíticas, feministas, multiculturais e serve para qualquer outra moda. Sempre os seus personagens poderosos caem em desgraça por causa da economia decadente, os gastos exorbitantes na corte, a impopularidade do rei e as revoltas com os novos tributos para melhorar as contas públicas. “Não podemos continuar aceitando passivamente o naufrágio do nosso país. Talvez as nossas esperanças estejam perto”. Sai de cena Ricardo III, entra Henrique IV.  A Guerra das Duas Rosas, que se deu entre as dinastias de York (rosa branca no escudo) e de Lancaster (rosa vermelha), deixou a Inglaterra na mais extrema penúria.  O rei foi morto porque faltou um prego no estoque para a ferradura do seu cavalo.  As “pedaladas” haviam esgotado o erário. Por causa de uma ferradura mal pregada o cavalo escorregou; por falta de um cavalo, perdeu-se a batalha; por causa de uma batalha perdeu-se um reino inteiro.

As relações de poder sempre foram pendulares no teatro de Shakespeare: legitimidade-usurpação; política e vida. Nada separa essas dicotomias. Todos os indivíduos sofrem, direta ou indiretamente, os efeitos das ações políticas, mesmo o amor em Romeu e Julieta, separados pelo ódio de duas famílias em disputa pelo poder. Este exercício conduz quase sempre a armadilhas. Torna o governar um pesadelo. “Meu poder já não existe/ Só minha força persiste/ Mereço escapar à pena” – clama Próspero, em “A tempestade – a ilha do poder”. Escrita em 1611, mostra a que todos nós estamos sujeitos aos mesmos erros, quando não há freios que modere as paixões. Seria então impossível governar sem atender aos achaques da sua base de apoio?  O bardo considera o caráter, mais do que qualquer coisa: “Basta ser um homem” – matéria-prima em falta. Mas, o poeta jamais perde a esperança: “Somos matéria de que os sonhos são feitos”.

As pessoas sempre serão capazes das maiores torpezas pelo poder. Para quê?  “A vida é apenas uma sombra que caminha. (...) É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria significando nada” (Macbeth, ato V, cena V). Em Shakespeare, enquanto houver ser humano, vida e sociedade, a política se desenvolverá como tragédia. 

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC.  

 

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