O Rio Lençóis assim como o Batalha e o Turvo nascem em uma região denominada Serra da Jacutinga. Essa região no passado foi muito predada. “Tiraram muita lenha e teve muita pecuária. A região de Borebi era forte na pecuária. Faziam entroncamento de transporte de boi. A pecuária é predadora do meio. Na sequência vieram os canaviais e as atividades cafeeiras. A origem do problema foi a extração de madeira. Quando acabamos com a vegetação do morro certamente ele vai descer. É o que vem acontecendo. Eu penso que a serra da Jacutinga vai se transformar em uma planície, graças ao mal uso do solo”, explica o ambientalista Celso Jacon.
Na opinião dele não tem como reverter a situação. “Para isso precisamos revegetalizar e restaurar os olhos d’água. Isso faz parte do projeto que criei para áreas degradadas. Esses locais, as nascentes dos rios, deveriam se transformar em Área de Preservação Permanente (APP). Se a nascente do rio Lençóis fosse transformada em APP todas as cidades que participam das bacias dos rios, turvo e batalha seriam beneficiadas.”
Ele conta que há 20 anos realizou o 1º Fórum de Defesa do Rio Lençóis. “Trouxe alguns resultados. O pouco que foi feito evitou catástrofe maior na última enchente na cidade de Lençóis Paulista. As prioridades são outras. Só quando acontece um desastre é que as pessoas pensam naquilo que poderiam ter feito. Ai já foi. Naquela época era necessário afastar as culturas das margens do rio. As invernadas iam até o rio. Coisa que não vinha sendo feita.”
Para evitar as enchentes do Rio Lençóis seria necessário em primeiro lugar a conscientização, enfatiza Jacon. “Houve um começo de conscientização, foi muito pouco mas esse pouco resultou em muito. Fizemos um marco inicial na nascente do Rio Lençóis. Plantamos centenas de mudas e a população e autoridades passaram a ter uma visão diferente do nosso rio. O problema que vem ocorrendo não só em Lençóis, chama-se descaso. As enchentes acontecem quando chove demais e os rios não têm mais calhas. Elas estão assoreadas.”
Ele acha essencial a sub existência dos olhos d’água. “Todos os rios têm início num olho d’água. Quando ocorre o assoreamento desse olho para plantar monoculturas, ele fica enterrado. Muitos foram enterrados para nivelar terreno e facilitar a mecanização a cana-de-açúcar. Para fazer a pulverização aérea. Com o Cadastro Ambiental Rural (Car), os proprietários rurais estão fazendo o cadastro de suas reservas. Segundo o Código Florestal eles precisam destinar determinada área para reserva. Isso não foi visto com muita atenção no passado.”
Jacon lembra que no passado aquela a terra do cerrado era considerada fraca, não servível. “Pensavam que era areia. Engano nosso, o cerrado é área de recarga do aquífero. São as áreas que deveriam ter mais cuidados e no entanto, o cerrado está ameaçadíssimo.”
Nascentes
A região das nascentes do Rio Lençóis no munícipio de Agudos possue fatores históricos da época da colonização do interior paulista e aspectos culturais do período áureo do cultivo do café e do tempo da escravidão, conforme relato de Sidney Aguiar que, em 2014, lançou o livro “Rio Lençóis de Ponta a Ponta. Da Serra de Agudos ao Vale do Tietê”.
O pesquisador conta na publicação que o rio conhecido por Água de Lençóes, no final do século XIX, foi motivo de disputa política entre Lençóis e Agudos, culminando na modificação do nome do rio devido ao impasse político-administrativo pela sede de comarca. O nome do manancial, que nasce na serra de Agudos, foi modificado para “Água do Taperão” até na junção com o córrego da Serrinha, entre os municípios de Agudos e Borebi.
Aguiar explica também que Jacutinga era o nome da Serra de Agudos. O nome fazia referência a antiga fazenda Jacutinga, atualmente denominada Santa Clara. A fazenda Jacutinga teria recebido este nome pela incidência da ave jacutinga nos arredores. A propriedade fazia parte de um complexo cafeeiro compostos pelas fazendas Jacutinga, São João e São Benedito, administradas pela extinta Companhia Agrícola São João de propriedade da tradicional família Cardia, em Agudos, relata Aguiar.