Bairros

Minirredes solidárias se multiplicam em Bauru e promovem humanização

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 13 min

Ação entre amigos só faz bem

Grupos usam rifas, correntes e eventos solidários para colaborar com causas nobres e, assim, ajudar ao próximo

Douglas Reis
"Ações coletivas de solidariedade são questões de princípios e valores do ser humano”, acredita o professor João Carrara

Após um amigo sofrer um acidente de motocicleta, o professor e diretor pedagógico João Carrara se uniu a cerca de dez amigos para organizar uma pastelada e arrecadar fundos em prol do acidentado, que ficou impossibilitado de trabalhar por um longo tempo.

Pontuais ou constantes, as campanhas solidárias se espalham por toda a cidade e são feitas, principalmente, por amigos e colegas que se unem e que, com a ajuda de outras pessoas conhecidas, acabam formando uma extensa rede solidária.

“Meu amigo sofreu fraturas em várias partes do corpo e precisou parar de trabalhar para se recuperar. O problema é que ele é autônomo e tem uma microempresa familiar com a esposa. Eles têm criança em casa e as contas não param de chegar. Então, resolvemos ajudar”,  narra o professor.

Vales foram vendidos e o grupo conseguiu a massa do pastel a preço de custo com um feirante que, inclusive, se ofereceu para fritar os pastéis. Até as embalagens e a locação da pastelada foram doados.

“Criamos uma verdadeira rede de solidariedade. E não tivemos um líder. Nós nos reunimos, dividimos as tarefas e pronto. Gosto de participar desse tipo de ação coletiva, acredito que isso é uma questão de princípios e valores do ser humano”, comenta o professor Carrara.

‘Eu ajudo as pessoas a ajudarem’

Aceituno Jr.
 Por meio de redes sociais e imprensa, Vera Cristina Cardoso cria uma rede de ajuda

É nas redes sociais que a promotora de eventos Vera Cristina Cardoso encontra ajuda. Ela realiza campanhas das mais diversas em benefício de desconhecidos, na maioria das vezes. No momento, por exemplo, ela está arrecadando donativos para uma gestante carente que espera por gêmeos. 

E as necessidades chegam até ela também pelas redes sociais. “As pessoas me marcam em postagens e eu começo a compartilhar e a divulgar. E, assim, vamos conseguindo a ajuda necessária. O segredo é divulgar. Uma pessoa vai puxando a outra”, explica.

Segundo Vera, a necessidade de ajudar o próximo surgiu ainda na infância. Com o auxílio do marido, ela já pintou creches e escolas. Até o orfanato do Paiva passou por uma reforma em suas mãos.

E quando a rede atinge os meios de comunicação, comenta Vera, a ajuda é ampliada. Foi o que aconteceu em dois casos, divulgados e registrados em reportagens do Jornal da Cidade. Vera ajudou uma mãe de família, com câncer, a conquistar uma moradia digna, além de tratamento médico e diversas doações, como mantimentos, agasalhos e até dinheiro.

Em outro caso mais recente, ela também contribuiu com uma família que vivia em situação vulnerável e que desejava retornar ao Estado do Maranhão, onde vivem seus familiares e amigos.

“Algumas pessoas precisam muito de ajuda, mas têm vergonha de pedir, é preciso também ter sensibilidade para notar isso. Eu digo que estou fazendo a minha parte e, com isso, toco nos outros e os ajudo a também ajudarem. Ninguém faz as coisas sozinho”, crê.

Em tempos de crise, corrente mútua de ajuda tende a aumentar

É típico do ser humano a solidariedade em tempos de crise por uma questão prática, a ajuda mútua surge como uma das alternativas para amenizar os efeitos da crise sobre a vida e a sobrevivência. A visão é do filósofo e professor Fausi dos Santos.

“Basta observarmos que, geralmente, os locais onde encontramos maior incidência de solidariedade são as comunidade mais pobres e despossuídas. Cria-se uma corrente mútua de ajuda, de partilha, de cooperação no qual estratégias de enfrentamento são criadas pelo grupo como tentativa de resistência e superação”, acredita.

Ainda segundo Fausi, o brasileiro historicamente aprendeu pelo viés da exclusão a ser solidário. Então, não causaria estranhamento, neste momento de crise econômica, ver grupos se organizando, seja em pequenos gestos, como a troca de materiais de uso diário, compartilhamento de caronas para o trabalho ou estudo, até a solidariedade para atender aqueles que passam fome, frio e outras tribulações.

“Ainda é comum, felizmente, observar gestos de solidariedade em meio a uma tendência cada vez maior ao egoísmo, talvez porque a crise nos coloque frente à condição de finitude, nos dê um choque de realidade ao demonstrar a real condição de fragilidade da existência”, finaliza.

Minirredes solidárias se espalham pela cidade

Grupos de amigos, colegas de trabalho, igreja e faculdade se unem para ajudar conhecidos e até desconhecidos

Aceituno Jr
Grupo de estudantes da USC cozinha para moradores de rua; na foto: Samantha Ciuffa, Vitória Palmejani, Adham Marin e Natália Lemos

Por influência do avô, o estudante de jornalismo da Universidade Sagrado Coração (USC) Adham Felipe Marin começou a ajudar o próximo. E já conseguiu influenciar amigos na prática solidária. Entre eles, as também estudantes de jornalismo Samantha Ciuffa, Vitória Palmejani e Natália Lemos. Juntos, eles cozinham para moradores de rua de Bauru sempre que podem.

Os alimentos que compõem as marmitas entregues quase sempre vêm do apelo via redes sociais, como o facebook. “Gostaríamos de melhorar nossa forma de arrecadação, mas ainda não sabemos como. A gente tem algumas pessoas com quem sempre podemos contar. Um proprietário de restaurante doa os recipientes (marmitas de isopor) e comida também. Gostaríamos de conseguir uma rede de pessoas que colaborasse semanalmente com a comida, aí sim a gente poderia fazer tranquilo, sem ter que rezar para a comida aparecer. Mas ela nunca faltou”, comenta Adham. Além dos alimentos, os jovens dispõem de parte do seu tempo para conversar com os moradores de rua, algo que, segundo Adham, é tão importante para eles (os moradores) quanto a própria comida.

“Certa vez, conhecemos um jovem engenheiro elétrico que estava na rua com diploma na mão depois de ter caído em depressão por problemas com a esposa e o trabalho. Toda semana a gente conversava com ele e levava a marmita. Passou um tempo e não o encontramos mais. Até que o vi no Poupatempo, todo arrumado. Ele me disse que sentiu vergonha ao ver a gente cuidando dele. Então arrumou um emprego, alugou uma casa e estava recomeçando. Estava no Poupatempo fazendo novos documentos. O pouco que fazemos pode ser muito para as pessoas”, alegra-se.

Brechós ‘alimentam’ atividades filantrópicas

Divulgação
Nas fotos, Miguel Zaidan Daré com o grupo Voluntários em Ação em visita a uma das comunidades carentes de Bauru

No próximo mês de junho, o grupo Voluntários em Ação comemora 19 anos de trabalhos sociais filantrópicos ininterruptos. Hoje, 20 pessoas formam a equipe, com idades entre 13 e 75 anos. “Eu e minha mãe, Emília, fomos ao Paiva, no Bela Vista, e estávamos numa sala aguardando para passes mediúnicos e, da sala de espera, eu olhei para umas senhoras no pátio, com bonecas, colares... Eram as abrigadas da entidade.  No momento, me deu uma vontade de falar com elas, ouvir, fazer algo. E assim nasceu o então Grupo do Daré”, lembra o idealizar e voluntário Miguel Zaidan Daré. 

A primeira visita aconteceu em junho de 1997, com Miguel, a mãe, uma prima, Wanda, e três amigas Dedé, Jacira e Norma. O grupo foi crescendo e, mais tarde, ganhou o nome de Voluntários em Ação. Segundo Miguel, todas as atividades sociais são pagas com a renda dos tradicionais brechós realizados a cada dois ou três meses. Tudo é fruto de doações de amigos do grupo.

Toda semana os amigos realizam visitas aos abrigados e comunidades carentes. São servidos lanches, bolo, refrigerantes, mantimentos, brinquedos... Visitam e levam alegria. Este é o lema do grupo, escrito, inclusive, nas camisetas. E a alegria é levada para idosos, deficientes, crianças, comunidades, asilos, projetos...

“Eu nasci para isso. Amo estar nas entidades e comunidades, adoro fazer algo, minha pequenina parte, ninguém pede para estar num asilo, numa comunidade carente, num abrigo de crianças, é tudo muito triste e complicado, mas temos que sorrir, engolir as lágrimas, arregaçar as mangas e cumprir nossa tarefa com nossos irmãos.”

Rede de amigos que ajudam é formada também no mundo virtual

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Maria Inês Faneco é a idealizadora do grupo Esquadrão do Bem

O grupo Esquadrão do Bem é conhecido na cidade, principalmente nas redes sociais, pelo fato de ser formado por amigos que se unem para ajudar. E, para isso, contam toda a ajuda possível. Segundo a idealizadora, Maria Inês Faneco, o grupo dá sequência ao trabalho feito por sua mãe, mas de forma mais ampliada. 

“Um dia estava muito frio e comentei com a amiga Tatiana Calmon sobre a necessidade de fazer uma coleta porque muita gente estava vindo pedir comida em casa. Começamos uma campanha para arrecadar alimentos para uma sopa e roupas para levar aos moradores de rua e de comunidades carentes”, narra Faneco.

Hoje, mais de 20 pessoas estão diretamente ligadas ao Esquadrão do Bem, mas o grupo conta com uma rede de centenas de doadores que abraçam as campanhas realizadas no facebook. E, toda semana, uma comunidade carente de Bauru tem suas necessidades atendidas. 

“O que nos move é o amor. Mas a miséria que as pessoas vivem nos deixa muito tristes, o que também nos move. Porém, com Deus tudo se multiplica, então não podemos reclamar. Atendemos ao mês cerca de mil pessoas divididas em cinco comunidades, além das que passam na minha casa e na casa dos demais membros do Esquadrão”, aponta.

De acordo com Faneco, alguns episódios marcam a vida dos voluntários. E ela cita um deles, ocorrido no ano passado, quando o pessoal arrecadou 1.250 litros de leite. “Um de nós disse para um garoto ir até o carro pegar leite e, para a tristeza de todos, o garoto perguntou o que era leite. Isso foi  uma grande porrada na nossa cabeça, porque muitas vezes reclamamos de alguma coisa”, pontua.

Mais

Na visão de Miguel, o município precisa de mais grupos e pessoas para suprir a carência, muitas vezes, até de um sorriso para um necessitado. “Muitas pessoas que recebem os alimentos só têm aquilo para sobreviver. E eu vejo que os voluntários são raros. O pessoal vai ficando mais velho e se “aposenta do trabalho”. Alguns jovens realizam uma visita ou outra, voltam depois de alguns meses, ou não voltam mais”, observa.

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Alguns integrantes do Esquadrão do Bem: Marco Bechir, Edmundo Marcos Sena Cruz, Maria América Ferreira, Sílvia Del Nero, Marisa Favinha, Paulo Faneco, Doia Molina e Maria Inês Faneco

‘Do outro lado da corrente’

Protagonista da campanha “Unidos pela Laís” fala sobre a gratidão dos que recebem ajuda

Malavolta Jr.
Diagnosticada com a Síndrome de Arnold Chiari, Laís Vaz é a protagonista da campanha “Unidos pela Laís”; arrecadação é para a cirurgia na Espanha

“Eu me sinto feliz ao ver que no mundo ainda existem pessoas boas, que ainda é possível vencer as diferenças quando se tem um único objetivo. É gratificante saber que (apesar do mundo em que vivemos) a união ainda é possível e que as pessoas ainda podem se amar”.

A narração acima é de Lais de Oliveira Vaz, a protagonista da campanha “Unidos pela Laís”, que se espalhou por Bauru nos últimos meses. Ao contrário do que ocorre com muitas campanhas de solidariedade, onde amigos, familiares ou mesmo desconhecidos iniciam as arrecadações, foi Laís quem tomou a iniciativa e começou a mobilização.

E um verdadeiro batalhão aderiu à causa. Familiares, amigos, colegas, pessoas até então desconhecidas... São muitos os andam fazendo a sua parte para levar Laís à Espanha (Leia mais no box abaixo).

Entre as ações: bingos, pedidos em semáforos, show de prêmios, baile, bazares, vendas de bolo, torta e chaveiro, ações na rua (abordagem das pessoas para arrecadações), ação entre amigos e família (grupos de pessoas que se reuniram para cada um arrecadar um pouco e fazer uma doação)... Até crianças já doaram todo o conteúdo de cofrinhos para ajudar a Laís.

“Tem uma infinidade de pessoas que me ajudam, desde ex-professores da primeira série, amigos de infância, amigos que conheci na faculdade, até pessoas que chegaram à minha vida há poucas semanas e se tornaram tão especiais, insubstituíveis e parceiras, que as levarei para a vida toda. Também tem a galera midiática das rádios e do JC, que sempre está ao meu lado. Entre as pessoas que preciso agradecer, três delas eu destaco, meu noivo Kenneth e duas grandes amigas, Giselle Maciel e Franciane Dias Caçador”, enumera Laís.

‘Sem limites’

Para Laís, Bauru é uma cidade sem limites para a solidariedade. “Por aqui temos pessoas que acreditam em sonhos, muitas que fazem o impossível se tornar possível. Aqui, o coração das pessoas ultrapassa limites, vence barreiras”, emociona-se.

Divulgação
Na foto, Laís ao lado do noivo Kenneth em uma festa temática promovida em prol da campanha

Rumo à Espanha

Em 2014, Laís foi diagnosticada com a rara e grave Síndrome de Arnold Chiari. A campanha “Unidos pela Laís” foi criada para arrecadar fundos para a sua cirurgia na Espanha, onde está o único instituto no mundo especializado na síndrome. Toda essa luta começou como um sonho, como ela costuma dizer, porém, a cada dia, a cirurgia marcada para junho está mais próxima da realidade. Por causa da doença, Láis precisou abandonar o maior sonho, a faculdade, projeto que ela pretende retomar após a cirurgia. 

Eventos

Os próximos eventos já estão programados. O “Bailão Unidos pela Laís” está marcado para o dia 14 de maio, no La Casa Eventos, e é uma promoção da TOP FM. No dia 15, haverá um show de prêmios na Casa do Garoto, promovido pela Paróquia Nossa Senhora das Graças. Mais informações na página do facebook “Unidos pela Laís”.

União entre alunos

Malavolta Jr.
“Nas instituições de ensino, o objetivo das campanhas solidárias é promover a solidariedade e a responsabilidade social junto aos alunos e comunidade”, comenta a professora Daniela Nunes Veríssimo Gimenes, supervisora do Núcleo de Atividades Complementares (NAC) ITE

Também é comum que grupos de alunos se unam para “engrossar o caldo” de campanhas de solidariedade propostas pelas próprias instituições. Segundo a professora Daniela Nunes Veríssimo Gimenes, supervisora do Núcleo de Atividades Complementares (NAC) da Instituição Toledo de Ensino (ITE), as campanhas solidárias desenvolvidas com os alunos têm por finalidade fazer com que os estudantes e comunidade se importem efetivamente com quem precisa de ajuda.

“No caso da ITE, também é objetivo promover a solidariedade e a responsabilidade social, arrecadando os mais diversos itens para serem entregues à Fundação Toledo (Fundato) e distribuídas à comunidade assistida pelos projetos sociais da entidade”, completa.

Ainda de acordo com Daniela, os alunos e a comunidade participam ativamente das campanhas, principalmente quando a divulgação das mesmas é intensa. “Conscientizamos, sobretudo, nossos alunos de que as doações são formas de participação de serviços à comunidade, forma de responsabilidade social, de proteção à vida, de preocupação com o próximo, oferecendo à comunidade interna e externa a prática de valores éticos e morais”, finaliza.

Os alunos arrecadam e doam durante todo o ano, leite, agasalhos, livros, alimentos, brinquedos, além de doação de sangue, entre outras. No momento, a instituição arrecada, até o dia 16 de junho, agasalhos. Toda a comunidade está convidada a participar.  

Calças, blusas, camisas, camisetas, casacos, cachecóis, gorros, luvas, meias e calçados são exemplos dos itens pedidos na campanha. As doações podem ser feitas diretamente no NAC (sala 116/Bloco 3), de segunda a quinta-feira, das 7h30 às 11h30, das 13h30 às 16h30 e das 18h30 às 21h; nas sextas-feiras as doações devem ser feitas até às 19h30.

Serviço

A ITE fica na Praça IX de Julho, 1-51, Vila Pacífico. Mais informações: (14) 2107-5060.

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