Virou rotina: a falta de pediatras tem, constantemente, gerado filas e revolta no Pronto Atendimento Infantil (PAI), única unidade pública de Bauru com atendimento médico ininterrupto para crianças. Na tentativa de resolver o problema, a Secretaria de Saúde, por meio da Fundação Regional de Saúde, publicou chamamento para contratar profissionais plantonistas para expandir o serviço da UPA Bela Vista, oferecendo remuneração maior do que a destinada aos clínicos gerais vinculados à entidade.
O motivo da diferenciação é a escassez de especialistas em pediatria, verificada não apenas na cidade, mas em todo o País; não somente no âmbito do poder público, como também no privado. “São como moscas brancas. A gente quase nunca vê”, brinca a diretora-geral da fundação, Claudia Sgaviolli.
A Secretaria de Saúde já promoveu diversos concursos públicos para contratar pediatras, mas nunca atraiu número relevante de interessados. A própria entidade, criada há menos de dois anos, também recorreu a um processo de chamamento anteriormente, mas não obteve êxito.
A ideia, agora, é alcançar a adesão de profissionais para garantir o preenchimento de escalas, inicialmente, com dois médicos especialistas no período das 7h às 19h, um das 19h às 7h, e outro entre as 18h e 0h, intervalo de tempo no qual a busca por atendimento costuma ser maior.
Até 40% mais
Enquanto a Fundação Regional de Saúde paga R$ 1.500,00 pelo plantão de 12 horas de clínicos gerais nas UPAs Ipiranga e Bela Vista, os pediatras interessados no chamamento receberão, no mínimo, R$ 1.650,00. Este valor vai remunerar os plantões cumpridos em dias de semana, no período noturno, quando há mais profissionais disponíveis.
Durante o dia, momento em que muitos atuam em seus consultórios ou na rede pública, o plantão valerá R$ 1.800,00. Já nos finais de semana e feriados, independentemente do horários, a entidade desembolsará R$ 2.100,00 por 12 horas de trabalho, 40% a mais dos que os R$ 1.500,00 oferecidos aos clínicos gerais. “Antes da publicação, já havíamos feito um levantamento que apontou interesse, inclusive, de grupos de profissionais de fora. Hoje [terça-feira, dia 17], já houve uma procura interessante por informações sobre o processo”, afirma Claudia Sgaviolli.
O credenciamento dos médicos ocorre de hoje até o dia 18 de junho e todas as informações sobre o processo estão disponíveis no site https://www.bauru.sp.gov.br/saude/fundacao.aspx.
Pelo tamanho
A escolha da UPA Bela Vista para a expansão do atendimento pediátrico de urgência e emergência se deu pelo seu porte e sua estrutura, já pronta para disponibilizar os consultórios necessários. “Ela é a maior das quatro e não por acordo. Segundo a divisão territorial, a unidade do Bela Vista reponde pela assistência de mais de 150 mil pessoas”, explica o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti.
O gestor reconhece a necessidade de aumentar a oferta de pediatras na rede de urgência emergência com o intuito de desafogar o Pronto Atendimento Infantil (PAI). “O próprio prefeito Rodrigo Agostinho passou por lá neste final de semana e reiterou a necessidade de centrarmos esforços nesse sentido”, comenta. O governo chegou a propor transferir para a Fundação Regional de Saúde a escala médica do PAI, mas avaliou que a entidade não conseguiria recrutar o número de profissionais necessários para preencher a escala da unidade.
No plano ideal, ela deve funcionar com quatro pediatras durante o dia e quatro à noite. Frequentemente, contudo, pais e mães têm se deparado com apenas dois médicos nos plantões, o que culmina em longas horas de espera por atendimentos a crianças. O problema tem se agravado desde que a administração municipal, por recomendação do Tribunal de Contas do Estado (TCE), limitou a remuneração dos profissionais ao subsídio do prefeito Rodrigo Agostinho. Por conta dos plantões extras, os salários de muitos deles ultrapassavam o valor de R$ 16.634,87. Em razão disso, parte dos pediatras foi obrigada a reduzir ou deixar de cumpri-los.
Falta de pediatras é estrutural em todas as áreas
Representante do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em Bauru, Carlos Alberto Monte Gobbo confirma a escassez de pediatras. Segundo ele, mesmo em instituições prestigiadas e concorridas chegam a sobrar vagas de residência destinadas à especialidade. “Não é um problema enfrentado somente pela rede pública. Em âmbito privado também é uma realidade”.
Gobbo explica que a pediatria, de forma geral, se resume ao atendimento em consultórios, não propiciando ganhos extras com outros procedimentos, como cirurgias, por exemplo.
A baixa remuneração no poder público, por sua vez, justifica o fenômeno pelo outro lado da moeda. “A Constituição de 1998 imputou aos municípios, ente federativo com menor poder econômico, a responsabilidade pela atenção primária, em detrimento à carreira médica federal, que existia anteriormente. Isso foi um erro”, acredita o médico. Gobbo critica ainda a inexistência de políticas de Saúde estruturantes por parte da União. “Trazem médicos de fora, constroem UPAs, mas não atacam o centro dos problemas”.