Nas redes sociais de sexta-feira, 17 de junho, a notícia que mais circulava pelas ‘timelines’ era a morte do comediante Ruben Aguirre, que deu vida ao professor Girafales, na Turma do Chaves (criação de Roberto Bolaños). Ruben encarnava diversos outros personagens em outros programas, como na Turma do Chesperito e até alguns vilões em Chapolin, ambos também de Bolaños. Mas foi na pele do educador da vila que Ruben tornou-se imortalizado no Brasil e na América Latina. E ele exprime muito bem algumas ideias que aprendemos nos bancos da universidade sobre o profissional “professor”.
Girafales é um professor idealizado, com trajes sociais impecáveis, um discurso hoje classificado como politicamente correto e uma postura resoluta. Sua estatura física avantajada bem remetia ao natural status que a profissão deve (ou deveria) ter nas sociedades, ou seja, um lugar de proeminência e distinção. Embora uma aparência conservadora, era comum nos episódios ver Girafales fora do ambiente escolar positivista, ensinando as crianças da turma no próprio pátio da vila conteúdos além da educação formal.
Uma vez na escola, nos episódios que se passavam dentro da sala de aula, encontramos alguns discursos de Girafales que encarnam bem o papel da educação na melhora das condições materiais de vida das pessoas. Muito antes de popularizar os estudos pedagógicos e métodos de educação modernos que rompem com o velho “sistema prussiano” de educação que previam castigos físicos às crianças, Girafales nunca agrediu nenhuma das crianças da turma quando estava à ensiná-las.
Aliás, são poucos episódios em que Girafales aparece em atos claramente agressivos de confrontos físicos. Apenas alguns conflitos com Senhor Madruga e Senhor Barriga (Edgar Vivar), como vemos nos episódios “Trocando os chapéus (1979)” ou “Os Toureadores (1976)”. Da frustração com seus alunos, professor Girafales preferia o choro, a angústia ou o estresse nervoso ao invés da agressão, como observamos no conhecidíssimo episódio “A prova de aritmética (1979)”.
Ideal esse expresso no episódio “Os chifres queimados do professor Girafales (1978)”, em um dos diálogos mais interessantes da série, que Girafales faz com o Senhor Madruga (Ramón Valdez), após este ter disferido um de seus famosos cascudos em Chaves que havia feito uma de suas peraltices: “Professor Girafales: Nenhuma criança tem melhor educação pelo simples fato de levar uma pancada! Seu Madruga: Não, claro que não! Mas com cinco ou seis, uma hora ele vai aprender! Professor Girafales: Menos ainda! Por acaso o senhor não sabe, Seu Madruga, que a surra constitui um método anacrônico, obsoleto em todos os sistemas pedagógicos? (...) Porque o Senhor acha que o Chaves irá aprender na base da pancada?”
Que esta pergunta de Girafales sirva de reflexão para todos nós, professores, pais, alunos, comunidade escolar em geral. A escola é um reflexo da sociedade e, infelizmente, vivemos numa sociedade violenta contra as crianças (principalmente as mais pobres), violenta contra os negros, contra as mulheres, contra os homossexuais, contra o que lhe é diferente e estranho. A resposta da pergunta de Girafales ao senhor Madruga pode ser respondida numa hipótese: mude a sociedade violenta e mudarás também todo seu sistema violento de educação. Como diziam Chaves e sua turma após o final de uma aula: “Até logo, querido professor!”