| Alex Mita |
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| Algumas pinturas da Igreja Matriz de Santa Terezinha acabaram lixadas; |
A Igreja Matriz de Santa Terezinha na cidade de Guarantã (78 quilômetros de Bauru) guarda, em seu interior, dez painéis pintados por Francisco Paulovic. Uma campanha desencadeada pelo padre José Francisco Banwart está possibilitando a restauração das obras.
Para o religioso, dar vida aos painéis tem como objetivo primeiro preservar a história da cidade, que se entrelaça com a do artista que trabalhou em igrejas do Interior Paulista. Mas, para o futuro, ele prevê tornar o templo um atrativo turístico.
Tornar a igreja um ponto turístico é o próximo desafio que o padre pretende, junto com a comunidade, enfrentar. “A cidade de Guarantã é depositária da memória desse artista. É um artista sacro que estudou em Viena. Ele tinha uma identidade própria, inconfundível. Quem olha para a pintura dele nessa igreja irá identificá-la em qualquer outra igreja que ele tenha pintado.”
O projeto turístico ainda faz parte das ideias do padre. “Não temos um projeto. Vamos caminhar devagar. Inauguraremos os painéis restaurados na primeira semana de outubro durante festa da padroeira Santa Terezinha. No dia 1º de outubro é inauguração oficial e na semana do dia 3 ao dia 9 haverá intensa programação cultural pública.”
A semana cultural não é de música temática religiosa, segundo o pároco. “Será desenvolvida no interior da igreja para celebrar a inauguração dos painéis. Haverá apresentação da Orquestra Sinfônica de Lins, o Clube da Viola de Bauru e artistas da região. Haverá música clássica, sertaneja. Pretendemos fazer com que através da música as pessoas também possam aproveitar a beleza do templo.”
Desde 1923
opinião do padre, as obras da igreja fazem parte da memória não só dos católicos. “Mas de toda a comunidade. Paulovic era um artista discreto, não assinava suas obras. Ele teve sua qualidade e não foi devidamente reconhecido, mas tem seu valor. Ele veio para o Brasil em 1923, na primeira metade do século 19. Viveu de encomendas das igrejas. Se ele tivesse vivido na Europa, talvez não tivesse desenvolvido a pintura religiosa. Tivesse abraçado outra temática, mas era a igreja seu único caminho para ele sobreviver da sua arte no Brasil.”
Paulovic viveu na região. “Ele era um esloveno. Quando veio para o Brasil, em 23, se estabeleceu em Pirajuí. “Lá tem a segunda igreja que ele trabalhou. Depois ele foi morar por um tempo em São Paulo. Retornou e se estabeleceu com sua família na cidade de Cafelândia, onde foi enterrado. Ele esculpiu os 12 apóstolos na igreja Santa Isabel de Cafelândia. Essas obras existem ainda.”
Há pinturas lixadas, mas esperança recai sobre painéis que ‘reviverão’
Para restaurar os 10 painéis de Francisco Paulovic na igreja matriz de Santa Terezinha em Guarantã foi escolhida a artista plástica Tereza Cristina Almeida Prado que conta com a participação de sua irmã, Maria Cecília Siqueira Matheus que faz as bordas dos painéis.
“Começamos a trabalhar na igreja na primeira segunda feira de outubro do ano passado, quando foram montados os andaimes. Os 10 painéis devem ficar prontos em agosto.”
A restauradora lembra que no início a parede caia onde ela passava a mão. “Caia a pintura e o reboco. Sobrava sempre a parte dos rostos, especialmente de um painel de Cristo. As mãos e os pés dele também ficaram. As outras partes do corpo caiu. Eu tirei toda a pintura que estava estragada.”
Ela ressalta que o restaurador anterior executou algumas coisas que não deveria ter feito. “Fiz retoques com massa corrida. A igreja foi toda pintada em látex. Franciscus Paulovic pintou com essa tinta, depois teve uma pessoa que veio restaurar. As paredes foram danificando principalmente por causa do tempo. Em Guarantã chove muito, venta muito, tira a telha do lugar, na igreja entrava água por tudo que é canto. Agora está tudo arrumado. Antes da restauração foi feita a reforma para não estragar tudo.”
A artista explica que antigamente, na época de Da Vinci usava os afrescos e outro tipo de pintura. “Era uma pintura que faz no cimento molhado, mais resistente. Esse material é restaurado encima. No caso, restaurar é limpar, precisa de pouca pintura. Já em Guarantã foi usado o látex, desde a primeira pintura. Estamos restaurando com um tipo que é mais um gel de longa duração. Deve durar cerca de 20 anos. Vai resina por cima para não ter perigo de estragar logo.”
Ela lamenta que alguns painéis foram modificados. “Na verdade os painéis foram restaurados outras vezes. Foi modificado o rosto de alguns personagens, principalmente das três crianças que acompanham Nossa Senhora de Fátima. Os rostos e as mãos dos santos foram preservados. Quem restaurou não mexeu. Eu não tenho todas as fotografias. Porque ele fez as mesmas obras em diversas igrejas e com elas poderia ser acertado alguns desvios.”
Riqueza regional
A artista plástica ressalta que colocou um pouco mais de cor para chamar a atenção. “Na restauração coloquei um pouco mais a mesma cor, para chamar um pouquinho mais atenção. Paulovic é um artista sacro importante. Tinha personalidade. Quando você olha as características da pintura dele você as reconhece em todas as igrejas que ele pintou. É importante a preservação. É uma riqueza regional.”
Em Cafelândia, o interior da igreja continha pinturas do Paulovic, mas pintaram por cima. Acabaram com tudo. “No lugar dos painéis fizeram janelas. Mas as esculturas da entrada da igreja são dele, semelhante as existentes nas igrejas da Europa. Os apóstolos lá encima. Em Pirajuí, tem uma igreja que tem obras dele. O padre está me esperando para restaurar. Como já fiz a restauração aqui e já sei as características do pintor, ele me chamou.”
Ela lembra que Paulovic tinha um irmão que morava em Pirajuí. “Ele era Eslavo e foi preso na 1ª Guerra Mundial. Ficou em campo de concentração. Saiu e foi para Viena, onde estudou, ele não era um pintor sem técnica. Com pouco mais de 30 anos veio para Pirajuí e começou a pintar as igrejas da região. Foi morar em Cafelândia.”
