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O jogo que deixou o mundo louco

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Milhões de pessoas, em pelo menos 35 países até o momento, correm atrás dos monstrinhos de aparência animal de um videogame criado em 1996, e agora reinventado. Consiste no seguinte...  Cada jogador é um caçador que tem de localizar pequenos monstros virtuais pela cidade, guiados pelo GPS do smartphone. É só apontar a câmera do celular para o local e lançar bolas virtuais em direção do bichinho detectado. Isso faz com que ele fique preso para ser treinado e utilizado como guerreiro em novo combates com outros usuários.

O jogo chama-se Pokémon Go. Ainda não chegou ao Brasil porque a Nintendo, dona dos direitos, ainda tem que resolver problemas com a capacidade dos servidores que armazenam as informações. O Brasil é o terceiro mercado mundial em mobile, ou seja, em número de celulares. A qualquer momento, o país entra no circuito e vamos ver pessoas em bando caçando Pokémons no Vitória Régia, no Tenrikyo, no Zoológico. O Google já tem Bauru mapeada em terceira dimensão. É só colocar virtualmente os personagens, onde mais interessar.    

O que talvez surpreenda é a idade de alguns desses jogadores. A geração de trinta anos se amarrou nessa forma de jogo “para crianças”, a princípio. Os cientistas analisam o que faz tantos adultos perseguirem criaturas fictícias com seus celulares à mão. O Pokémon Go trouxe à tona algo que parecia insólito, que crianças e adultos brinquem com o mesmo jogo. Em todo caso, jogar é uma atividade saudável em qualquer idade, embora os excessos não sejam boas opções. O principal atrativo desse aplicativo da Nintendo – a empresa japonesa já aumentou em 10 bilhões de dólares seu valor em Bolsa, desde o lançamento do game – é o uso da “realidade aumentada”. Os monstrinhos se integram ao mundo real. O usuário acredita estar diante de uma criatura fantasiosa, o que o leva a achar que poderá tocar no Pikachu, no Squirtle, na Palkia. Todos os personagens têm nomes, cada vez mais familiares. Essa onda pode criar uma ciberdependência. Tentar viver em duas realidades ao mesmo tempo leva certos indivíduos a uma psicose – como observou Juan de la Serna, autor de “Ciberpsicologia”.  

Qual a importância econômica? A Nintendo nada cobra para baixar o aplicativo, não vai lucrar com a venda de videogames neste caso, e o celular já é do usuário.  Mas, pode ser patrocinada a inserção de locais onde os bichinhos aparecem no mapa virtual. A rede McDonald´s se pôs à frente. Seus estabelecimentos vão servir para treinamento dos personagens capturados. Os estabelecimentos estão adquirindo “iscas” que atraem Pokémons para o local e, assim, trazem os caçadores a tiracolo.  A Nintendo já está vendendo uma pulseira inteligente que vibra para alertar o usuário de que há um Pokémon por perto. Vendida a 35 dólares, a pulseira já se esgotou na pré-venda. Os jornais e revistas querem alavancar vendas colocando iscas nos anúncios e textos, que levem à descoberta de personagens.  Em Portugal, na primeira semana do joguinho já surgiu o Pokéo Táxi, serviço de transporte para que fãs  possam andar pelas cidades e apanharem Pokémons nos locais, geralmente turísticos. O consumo de tempo na internet, praticamente dobra, o que é bom para as operadoras. Baterias extras serão vendidas para os celulares não “apagarem” em meio à caçada. Essa nova modalidade de consumo também faz surgir os primeiros críticos. O cineasta Oliver Stone disse que o jogo não tem graça, sendo uma forma de as grandes corporações conseguirem dados privados dos indivíduos, numa forma de “capitalismo de vigilância”. Estaríamos criando “uma sociedade de robôs”, e partindo para o “totalitarismo”. Stone acaba de lançar um filme sobre “Snowden”, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança, responsável pelo maior vazamento de informações secretas da história americana.

Há outros problemas óbvios, como dirigir procurando monstros. Invasões de propriedades privadas repelidas à bala. Os usuários, em locais ermos atraem assaltantes, ou podem ser confundidos com ladrões. Por outro lado, o fato de se jogar ao ar livre produz efeitos positivos em pessoas com sintomas depressivos. Incentiva pessoas a sair às ruas e se relacionarem. Em tempos de terrorismo, o Pokémon pode prestar um bom serviço à paz mundial. O garotinho postou uma foto segurando um cartaz com o desenho do Pikachu, onde se lê: “Estou em Kafranbel, na Síria, venham me salvar”.  


O autor é jornalista e articulista do JC

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