Meu irmão Sebastião (Peru) não gostava do apelido. Ele me apresentou para o sr. Ângelo Franciscato, na época dono da empresa Expresso de Prata. Meu irmão já era funcionário da empresa e tinha bom relacionamento com todos os funcionários. Devido à expansão da empresa o sr. Ângelo me contratou para cobrador de ônibus.
O sr. Ângelo era uma ótima pessoa e muito divertido, ele me perguntava se eu tinha algum apelido, eu disse a ele que meu apelido era Belini, da Seleção Brasileira, por causa do meu tipo físico e a maneira como eu tocava na bola. Nessa época eu batia uma bolinha com meus colegas na Ponte Preta da Vila Coralina. Eu procurava imitar o Técão, zagueiro do Noroeste. O sr. Ângelo, com seu jeito brincalhão disse-me: agora aqui você é o “Pavão”, cobrador do Expresso de Prata.
Fui escalado para trabalhar na linha Bauru/Botucatu. Na época, a estrada não tinha asfalto e os motoristas e cobradores colocavam o nome do ônibus de cata-caipira. O motorista e o cobrador também eram caipiras. O ônibus de nº 37 era antigão, o motorista era o Mangilão e o cobrador era o Pavão.
Saímos de Bauru às 12h com destino a Botucatu, o sr. Ângelo disse pra mim: Pavão, nesta caixa tem um pardal, você solta ele na chácara do Franciscato, por que ele está perturbando as cozinheiras.
Naquele tempo, a estrada de terra fazia uma poeira de lascar. Na reta da Brahma, depois de Agudos, na poeira e no sol de arrebentar mamona, fui obrigado fechar o ônibus, foi quando me lembrei que não tinha soltado o pardal.
Eu disse para o motorista Mangilão: vou soltar o pardal dentro do ônibus. Viajavam um casal com dois garotinhos, soltei o pardal e ele foi pra frente do ônibus, os meninos ficaram doidos para pegar o pardal e diziam que era um canário, e começou a brincadeira.
Eles diziam: pegue ele pra mim, pai, cerca lá, mãe, foi um forfé danado. Para disfarçar, eu disse para os meninos que era um chupim ou sabiá poca, e os meninos diziam que era um canário, canário não é preto e é pequeno. Os passageiros se divertiram com o pardal. E para deixar os meninos mais agitados, um passageiro disse que era um gavião-punhé e todos riram à vontade e esqueceram a poeira e o calor.
O pássaro saiu não sei como e nem sei por onde. O Mangilão ficava sorrindo com a boca fechada e ficava mais engraçado. Quem deve estar sorrindo com minha história é o meu amigo Ângelo. Onde ele estiver, que esteja em paz.