Tribuna do Leitor

Vivemos a distopia

Henrique Matthiesen
| Tempo de leitura: 2 min

Inúmeros são os adjetivos que sintetizam o ânimo da sociedade brasileira neste momento em que convivemos. Desesperança, desilusão, descrença, desalento, entre outros adjetivos nada animadores. Falido por completo, o sistema político mostra suas vísceras mais deprimentes, em seu jeito despudorado de corrupção e de engodo, onde quase nada se salva, a constatação do mais do mesmo é inexorável, onde descortina um retrocesso de golpes elitistas e de estelionato eleitoral.


Um dos fatores que apequenaram nossa sociedade é a arrogância dos que pregavam mudanças, dos que se colocavam como paladinos da ética, dos bastiões da moralidade e donos incontestes da história. Encravavam a utopia de um novo tempo, e acabaram sendo a decomposição da distopia.


Confundiu-se, de forma catastrófica, orgulho com arrogância, e foram soberbos ao extremo. Não compreenderam que o orgulho é a satisfação de fazer algo, orgulho de um legado, de uma obra, de um resultado obtido; enquanto a arrogância é o sinônimo da superioridade, do arrogar-se donos da história, e a ostentação indevida do poder. Esquecem-se de que quando o xadrez político acaba, tanto o peão como o rei, vão para a mesma caixinha.


Na desconstrução da utopia verificamos de forma perniciosa que a falta de solides do discurso à pratica, que seus fundamentos eram voláteis, volúveis que ruíram irresistivelmente quando alcançados o desígnio, demostraram a ética conveniente que está associada ao relativismo, onde tudo vale em relação àquilo que estou desejando, onde os meios justificam os fins.


Segundo o austríaco Stefan Zweig, fugido do nazismo na Europa, veio para o Brasil com a esposa e aqui ficou até sua morte. Escreveu importantes obras, uma delas, “Brasil, o país do futuro” uma utopia que embalou muitos de um dia ver um país com justiça social, soberano, pujante. Esse mantra foi a perspectiva que milhões de brasileiros viveram nos últimos anos. A elevação social de uma parcela secularmente marginalizada foi a senha da utopia e dos sonhos mais edificantes na construção de fato do Brasil do futuro.


Percepção de descrença e desalento, coexistimos contemporaneamente desanimados. O sentimento de cansaço, de fadiga, de que as coisas não mudam, de que não suportamos mais está intrincado nos corações do povo brasileiro. Afinal, qual é a saída?  Qual nova utopia? Quem presta? Simbolicamente, recorremos à frase mais celebre sobre decepção na história da humanidade, talvez tenha sido atribuída a Júlio Cesar, quando, no dia 15 de março do ano 44 a.C. foi assassinado nas dependências do Senado numa trama política viu entre os algozes, seu enteado Brutus, alguém que era tratado como filho.


“Até tu Brutus”, a expressão mais singular da decepção e da traição. Será que também devemos dizer “Até tu, PT”? “Até tu, PSDB”? “Até, tu…”? Basta escolher o partido de Brutus de sua preferência.

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