As eleições municipais serão atípicas, este ano, com as novas regras que encurtam a campanha, a crise na economia e os desdobramentos da Operação Lava Jato que atingem todos os grandes partidos. Estão proibidas as doações de empresas e o “caixa 2” virou o fantasma que a todos assusta, pela sua vulnerabilidade, a partir das delações premiadas. Começa na terça-feira a campanha de rua para escolha de prefeitos e vereadores. Os candidatos terão somente 45 dias para distribuírem “santinhos” – sem sujar as ruas – e, usar carros de som. Os palanques caíram de moda porque o “showmício” também não é mais permitido. Cresce em importância a propaganda gratuita no rádio e na televisão, para quem tem possibilidades de custear boas produções e tempo aberto pela somatória dos minutos atribuídos aos partidos em aliança.
As eleições municipais podem servir de “laboratório” para a disputa presidencial em 2018 – pontuam os analistas. Há perda de fé pública na categoria “políticos”. Os grandes líderes capazes de cativar o eleitorado, foram tragados na voragem dos escândalos. Os partidos se enfraqueceram. Sumiu a figura do “candidato natural”, aquele que reunia todas as condições políticas e carismáticas. O candidato nem tem muito o que prometer, além de uma gestão austera para lidar com o déficit entre receita e despesa. Em média, as administrações municipais conseguem investir em obras, menos de 10% da receita corrente líquida. Quase 90% das cidades brasileiras estavam em situação fiscal crítica ou difícil em 2015. O governo do prefeito Rodrigo Agostinho é uma das poucas exceções e ainda conseguirá entregar um orçamento equilibrado ao seu sucessor. Teve juízo para não se meter em obras suntuosas e aproveitou as reservas deixadas por Tuga Angerami, no primeiro mandato. Precisamos de uma sequência de gestões austeras para pôr a casa em ordem. O município ainda está endividado como consequência de erros no passado. A Prefeitura de Bauru chega ao limite de gastos com pessoal permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O Tribunal de Contas veta manobras, como aquela de jogar para a Fundação Regional da Saúde, parte dos gastos com a folha dos funcionários.
Uma consequência concreta dessa realidade é que os municípios perderam a capacidade de investir. Em um momento em que os governos estaduais e a União também estão cortando gastos, há poucas alternativas de fontes de recursos. Bauru ainda tem o privilégio de contar com o dinheiro do Fundo do Tratamento de Esgotos, para assegurar a continuidade da maior obra do município. O próximo prefeito deverá interromper, finalmente, a prática medieval de despejar esgoto in natura no Rio Bauru. A saída via aumento de tributos é de difícil viabilidade. O candidato deve prometer, isto sim, é arrecadar melhor. A criar um sistema de prestação de contas transparente, de maneira a permitir que a própria comunidade melhore a qualidade do gasto público. Misteriosamente, grandes devedores conseguem escapar das execuções. Os prefeitos terão que lutar pela revisão da distribuição de responsabilidades com a União e o Estado. Principalmente nas áreas da Saúde e da Educação. A desigualdade entre atribuições elevadas e capacidade fiscal limitada dos municípios é um problema que precisa ser encarado pelos candidatos sérios, nessa eleição.
Ainda ontem, na Fazendinha, um candidato me perguntava como fazer para atrair o voto dos jovens, sem sair à caça de Pokémon. Lamento não ter a resposta. Só sei que os jovens alegam decepção com o país, com a classe política e a economia. O reflexo desse desencanto nas urnas é instantâneo. Menos de 1% dos 143,3 milhões de eleitores têm entre 16 e 20 anos. Podendo “dar chapéu” no dia da eleição, que se dane. Negar a política é um jeito juvenil de fazer política. Preferem participar de uma religião, de uma ONG, de um projeto social, a se filiar a um partido. O fenômeno é igual em todo o mundo. São os “jovens do milênio”, com o saco cheio da política tradicional que não tem poderes de apresentar soluções aos problemas que lhes interessam. Eles acompanham o noticiário via redes sociais, mediados por amigos e grupos de interesse. O curioso é que, segundo pesquisas, 70% dos jovens acreditam que o voto pode transformar o Brasil. Parece contraditório, mas não é. Revela que o afastamento do jovem da política depende apenas do mundo político se voltar para o interesse coletivo.
O autor é jornalista e articulista do JC.