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Deveria ser um olhar para frente, mas...

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

O desfecho foi dentro do esperado: Michel Temer assume o governo e terá um pouco mais de 2 anos para colocar o Brasil no caminho do desenvolvimento. Pouco adianta nesta altura discutir se foi “golpe” ou se as “pedaladas fiscais” é que retiraram o mandato da agora ex-“presidenta” Dilma Rousseff, deveria ser o momento de virar a página e olhar para frente. Confesso que tive que rever minha leitura sobre o ocorrido ontem, depois do passa-moleque do PMDB, mantendo, não seguindo a Constituição, a possibilidade de a ex-presidente Dilma em ocupar cargo público.


O passado deveria servir somente como indicativo para não cairmos nas mesmas armadilhas que nos pegaram no passado recente. Apesar deste importante momento histórico para o País, o PMDB rachou sua base de sustentação no Congresso Nacional. Seria imperativo não ceder a pressões e efetuar o ajuste fiscal. Não há meio termo aqui. Seria a hora de aproveitar o ambiente político favorável e fazer o que tem que ser feito, como, por exemplo, conter os gastos públicos antes de negociar com a sociedade brasileira eventual elevação dos tributos. Diria mais, é possível buscar o equilíbrio fiscal sem aumentar tributos. Neste caminho de cortes de gastos, a Previdência Social será, sem dúvida, um dos maiores desafios. O próprio tamanho do Estado deveria ser revisto.


É de se projetar que com ajuste fiscal seria possível pensar em retomar o crescimento da economia. Neste particular, é imperativo o controle da inflação e com ele a abertura de espaço para a queda dos juros. O empresariado precisaria retomar a confiança, e mesmo sem recursos abundantes (afinal, a recessão comeu margem de lucro), seria possível aportar novos recursos. O próprio governo central precisaria retomar sua capacidade de investimento. Com isso, o emprego poderia voltar e com ele a recuperação da renda dos trabalhadores. São questões que possibilitariam que o consumo voltasse e um dos vetores do crescimento da economia poderia ser acionado.


Há outras importantes questões pela frente: as leis trabalhistas precisariam se modernizar; a reforma tributária precisaria sair do papel; a reforma política precisaria avançar, enfim, o indicativo seria dar um choque de gestão, atacando os gargalos que nos impedem de sustentar o crescimento da economia. Também seria preciso rever a política externa brasileira. A dependência de venda de commodities já se demonstrou frágil. É preciso rever a pauta de exportação e implementar uma política de substituição de importação.


Se no passado o País obteve grau de investimento, atribuído pelas principais agências de risco, seria também imperativo voltar a apostar no tripé que nos permitiria retomar neste patamar: meta fiscal austera, regime de metas inflacionárias e câmbio flutuante. A equipe do ministro da Fazenda Henrique Meirelles é competente o suficiente para, tecnicamente, nos levar ao caminho da recuperação. Contudo, o PMDB perdeu a grande chance de demonstrar ao País que a página virou, que o olhar seria somente para frente. Deixou máculas e terá que se esforçar muito para reconstruir sua base aliada. Na prática, o próprio presidente empossado Temer terá que reconstruir sua base.


Lamentável que percamos mais tempo no jogo do interesse político. Perdemos a chance de uma grande virada no País. Resta o quê? Torcer para que os políticos se entendam e que deixemos de usar o condicional, ou seja, o “precisaria”, o “seria”, e troquemos para é “preciso” e “será” necessário fazer. O que está em jogo não é poder e tampouco o favorecimento a este ou aquele político e sim a qualidade de vida dos brasileiros.


Há muito o que fazer, mas o entrave político que poderia sair de cena ontem ainda prevalece, lamentavelmente.


O autor é economista e articulista do JC

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