A ineficácia do poder público e a dificuldade do governo, em todos os níveis (municipal, estadual, e federal), em atender às demandas da população, faz com que cada vez mais as pessoas tomem a atitude de resolver problemas da comunidade por conta própria.
O fenômeno não é novo, mas vem ganhando nova dimensão nos últimos anos. Se na metade do Século 20 as pessoas buscavam auxílio em entidades como sindicatos e igrejas, na década de 1990 houve um forte crescimento das Organizações Não Governamentais (ONG), que seguem atuantes até os dias de hoje, mas agora outros grupos se mobilizam de formas diversas.
Mesmo sem necessariamente formalizar a abertura de entidades, pessoas se reúnem por afinidades para promover ações em diversas áreas, como saúde, educação, bem estar social, esporte e proteção dos animais. Há ainda o surgimento de “coletivos”, que são agrupamentos de pessoas com interesses em comum. Muitos são dedicados às temáticas das minorias, em temas como feminismo, movimento negro e LGBT, por exemplo.
Docente de Antropologia do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp-Bauru, o professor doutor Cláudio Bertolli Filho ressalta que a percepção da população é a de que o Estado brasileiro não atende aos anseios. “Há um sentimento de descrédito das pessoas com o governo. Não dá para falar em uma falência do Estado, mas sim que ele já não nos representa. As pessoas não se submetem às campanhas do Estado, porque simplesmente não confiam nele. Houve uma quebra de confiança. Isso não é só no Brasil, é no mundo todo de maneira geral, mas aqui temos contornos característicos que agravam isso”, aponta.
Descrédito
Bertolli salienta que o papel centralizador do Estado começou a perder força após a Segunda Guerra Mundial. “O Estado se organizou como conhecemos hoje na época da Revolução Francesa (final do Século 18), sendo o principal promotor das ações sociais e coletivas. Isso começa a mudar no Pós-Guerra, quando as pessoas veem que o Estado já não é tudo aquilo que se imaginava. A partir daí, ganham forças outras instituições, como as igrejas, clubes, associações e sindicatos, numa tentativa de não depender do poder estatal diretamente”, relata.
Para o antropólogo, mesmo estas outras instituições também passaram a sofrer com a desconfiança das pessoas no final do último século, abrindo espaço para movimentos emergentes. “Nos anos 90, a principal tendência foram as ONGs. Hoje já mudou um pouco, elas continuam existindo com força, mas outras formas de mobilização ganharam espaço, como os coletivos e as organizações populares. Isso sem depender de verba pública ou incentivo governamental, porque a população já não se sente representada no Estado e procura seus próprios meios para resolver as coisas”, argumenta. “Naturalmente as pessoas se agrupam por afinidades, interesses comuns, como a causa animal, ambiental, ou na saúde e educação, entre outros exemplos”, destaca Bertolli.
Outros caminhos
Sem poder contar com o governo em muitas situações, o cidadão acaba recorrendo a outros órgãos para tentar solucionar seus problemas cotidianos. “A pessoa muitas vezes prefere ir na imprensa para denunciar uma situação, porque confia mais na mídia do que no governo, e sabe que tendo aquela visibilidade a chance de conseguir uma atenção dos governantes aumenta. Em âmbito local é fácil perceber isso, em Bauru mesmo muita gente procura o jornal, e programas de TV e rádio para falar de falta d’água, problemas na área da saúde, buracos, asfalto, entre outros, porque ela sabe que pode ser ouvida de alguma forma”, conclui o professor Cláudio Bertolli. Pesquisas de opinião pública de diferentes institutos, como Ibope e FGV, apontam nos últimos anos a mídia como uma das instituições na qual os brasileiros mais confiam, ao lado de entidades como as Forças Armadas, a Igreja Católica e o Ministério Público. Os Poderes Executivos e Legislativo, em todas elas, gozam de pouco prestígio atualmente junto aos brasileiros. Um dos exemplos claros disso é a Tribuna do Leitor do Jornal da Cidade. Diariamente, a Redação recebe dezenas de cartas, muitas delas com reclamações para o poder público, que em geral tem atendido às demandas de forma rápida após a veiculação dos textos dos leitores e também das reportagens do JC.
Antecipando o governo
Um caso curioso que aconteceu em Bauru, neste ano, foi relatado pelo Jornal da Cidade em pelo menos três ocasiões – e que ilustra bem como os cidadãos se organizam. Em janeiro, uma matéria mostrou o zelo do senhor Sebastião Antonio. Aposentado, ele cuidou sozinho, durante um bom tempo, da praça Marco Antônio Ezidério, que ficava na altura da quadra 8 da rua Antonio Manoel da Costa, no Jardim Olímpico (perto da UPA Geisel/Redentor).
A história foi mostrada pela JC em janeiro, e no dia seguinte, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) prometeu, enfim, cuidar da praça. A revitalização do espaço acabou atrasando, e o “seu” Sebastião mudou-se para o Estado do Mato Grosso, em abril, sem ver o local revitalizado, agora com a ação do governo. Em agosto, a Prefeitura de Bauru concluiu a revitalização da praça. Mesmo sem presenciar a reforma pronta, certamente Sebastião Antonio foi fundamental para chamar a atenção da comunidade e dos próprios governantes. Afinal, ele se antecipou ao governo e, mesmo sem ter a obrigação, deu sua contribuição.
Outras praças foram adotadas nos últimos anos em Bauru, seja por pessoas físicas ou jurídicas, através de legislação que permite tal ato. As empresas que cuidam de áreas verdes na cidade tem, como contrapartida, um espaço publicitário na mesma. O trâmite é feito através da Semma, que cuida deste setor.
Cidadania e saúde
A “Turma do Bem” conta com 16 mil dentistas em mais de 200 cidades brasileiras, e também profissionais em outros países da América Latina. O trabalho começou em São Paulo, em 2002, e está em Bauru desde 2007. Na cidade, o coordenador é o cirurgião dentista Walter Silva Júnior. “Neste período, já conseguimos atender 600 adolescentes. São 105 dentistas atualmente colaborando na cidade. São selecionadas pessoas carentes, que não tem condição de pagar por uma consulta, e elas são atendidas diretamente por esses profissionais, em seus consultórios. E aí a gente mesmo (profissionais da área) é que acaba custeando todo o tratamento que a pessoa precisa”, detalha Silva. A “Turma do Bem” é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). “As contas de uma Oscip são auditadas pelo Ministério Público e por uma auditoria independente”, diz. Em Bauru, o atendimento até agora foi direcionado a adolescentes, entre 11 e 17 anos, mas passará a atender mulheres vítimas de agressão, e que sofreram lesões nos dentes durante esses atos. Em outras cidades, o trabalho já é feito, e uma exposição fotográfica sobre o tema, realizada pela Turma do Bem, acontece atualmente no Piso L1 do Boulevard Shopping Bauru. Na área de cidadania, uma iniciativa divulgada no JC é a do bauruense Antonio de Castro, o Toninho, que está distribuindo adesivos da campanha “Deveres para ter Direitos”. Ele promove encontros dos 6 candidatos a prefeito de Bauru com a população, aos sábados pela manhã, na rua Gérson França, quadra 14. A última reunião será nesta semana.