Chegou, para alegria de uns e tristeza de outros, o polêmico Horário de Verão (HV). Nas três décadas de vivência no setor elétrico, constatei na maioria da população: aceitação inicial; euforia no meio; repúdio no final do período. Embora cause desconforto para muitas pessoas, oportuno esclarecer que não nasceu num “piscar de olhos” de algum brasileiro iluminado e tem razão de existir.
No mundo, com intuito de aproveitar os dias mais longos, com maior fotoperíodo (luz natural), o assunto sempre foi discutido, com foco na economia de eletricidade. Consta que no século XVIII o americano Benjamin Franklin propôs adiantar o relógio no verão, para economizar velas nas fábricas e residências. Consta ainda que no início do século XX também não prosperou o embate público, instigado por William Willet, da astronomia inglesa.
No entanto, é fato que em 1916, na primeira guerra mundial, a Alemanha curvou-se para a necessidade de adotar o HV, seguida por outros países. A economia de eletricidade reduziu o consumo da principal fonte energética da época: o carvão. A vez dos EUA foi em 1918. No Brasil, motivado pela necessidade de economizar energia, o HV foi instituído por Getúlio Vargas, em 1931.
O relógio foi adiantado em uma hora, visando deslocar o consumo e demanda de eletricidade no horário de pico, das 18 às 21h. Na época, ocorreram apenas 2 edições, com períodos de 6 meses cada (3 de outubro até 31de março). A letra da consagrada marchinha “Vagalume”, de Vitor Simon e Fernando Martins, retrata bem o porquê do HV ser retomado, nas décadas de 60 e 70, em nove edições, não sequenciais: “Rio Janeiro, cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”.
Após 18 anos sem dar as caras, em 1985 o HV foi retomado de modo recorrente. O que tem variado são as regiões abrangidas e os períodos definidos. A edição atual é a 43ª. Abrange apenas o Distrito Federal e 10 Estados (Sul, Sudeste e Centro Oeste), onde vivem 70% da população brasileira.
A duração atual do nosso HV é de 126 dias: do 3º domingo de outubro ao 3º de fevereiro. Nos EUA e Europa, o período supera 200 dias: de abril até outubro.
A afirmativa que mencionei, de que prevalece o repúdio no final do HV, agrava-se pela sobreposição com período escolar. Contrariando a filosofia inicial que o inspirou, para se dirigirem ao trabalho ou levarem os filhos às aulas, apesar de termos os dias longos, as pessoas são obrigadas a levantar antes do sol nascer e movimentar dentro de casa com as lâmpadas acesas.
Em nossa região, o relatório do Ipmet – Instituto de Pesquisas Meteorológicas, que encomendei, quando no Gabinete da Prefeitura de Bauru, em 2002, para subsidiar estudos sobre energia elétrica, aponta o fotoperíodo de cada dia no ano. Demonstra que no período do HV os dias são mais longos: 12h35, no início; 13h28, no meio (fim dezembro); 12h46, no final.
Além do uso de luz artificial e consequente economia de energia, nos aspectos técnico e financeiro, outras motivações são constatadas e sustentam a continuidade do HV: mais tempo para o lazer, redução da criminalidade e preservação ambiental. Portanto, acolhê-lo constitui-se em gesto de cidadania e civismo.
O autor foi executivo da CPFL, do Gabinete da Prefeitura de Bauru e da Cohab. Integra o Lions Bauru Centro, a Comissão Assuntos Comunitários da OAB e o Conseg Centro Sul, representando a Assenag.