Tribuna do Leitor

COMUNICAÇÃO

Por Wanderley Brosco - chefe geral de Estação EFS | Fepasa
| Tempo de leitura: 2 min

A palavra traduz puros sentimentos ou manifesta ódios e rancores. Com a palavra o homem compõe versos; fala de amor e esperanças. É pela palavra que declaramos guerra e por meio dela obtemos paz. Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito como não imaginar que sem querer já feri alguém? Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade fazer alguma coisa boa.

Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento - depois esqueci. Na segunda metade da década de 1940, na estação Santa Flora, Município de Agudos, meu pai (chefe da mesma) ganhou um pintassilgo. Pendurou a gaiola na gare e o pássaro não cantava. Evaristo Tendolo, seu preclaro amigo e compadre, dera-lhe receitas para fazer o pintassilgo cantar: que batesse velozmente as teclas do telégrafo; que acionasse o sino da estação; que pusesse a gaiola perto quando a locomotiva passasse acelerando... Mas o pássaro não cantava.

Um dia, encerrado o expediente ferroviário, meu pai ia caminhando pela plataforma, sozinho, distraído e assobiou uma pequena frase melódica de meu avô (Máximo Brosco) e o pássaro começou a cantar alegremente.

Haveria alguma secreta ligação entre a melodia do velho austríaco falecido (natural de Viena: berço da música) e o belo pássaro amarelo? Alguma frase distraída que eu disse: talvez palavras de algum poeta antigo fossem despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém.

Foi como se num reino muito distante uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo: iluminasse um pouco as suas choupanas e as suas remotas esperanças.

 

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