| Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo |
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| Luciana Veras e a filha Isabela Veras doaram ursinhos: "Foi a melhor coisa que fizemos" |
O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro passou. Mas o ursinho de pelúcia, fruto daquele namoro que chegou ao fim, continua. Foi pensando nos bichinhos escondidos no armário que veio a ideia do projeto: repassar os presentes de um ex para crianças afastadas do convívio familiar. Entre os participantes, o lema é transformar amor em amor.
Em São Paulo, a publicitária Raphaella Araújo, 34 anos, ganhou um coração de pelúcia, com a frase "eu te amo" gravada. O relacionamento durou um ano e o presente acabou virando uma lembrança de um sentimento que não existia mais. Quis participar assim que soube da campanha "Amor de Pelúcia", que recolhe ursinhos de relações terminadas.
Ela ajudou a organizar o primeiro mutirão paulista, em abril, que destinou doações a um abrigo na Vila Madalena. "Para fazer criança feliz, meu apego era menos importante", diz. "Tudo que tinha de ir embora, o restinho do relacionamento, foi com aquele coração."
Cerca de 30 bichinhos foram distribuídos no dia, mas nem todos haviam sido resultado de um relacionamento amoroso. Mãe de quatro filhos, a empresária Luciana Veras, de 42 anos, por exemplo, ficou tocada pelo projeto. "São crianças que estão sem o pai e sem a mãe, foram abandonadas, sofreram maus-tratos. O bichinho de pelúcia acaba representando o aconchego da família "
Filha dela, a estudante universitária Isabela Veras, 20 anos, separou dez ursinhos - nenhum deles presente de ex. "Sempre gostei de dormir abraçada com eles", conta. Entre eles, um urso panda, que não era dos maiores, chamou a atenção de uma menina de 13 anos.
O grupo escolheu fazer um sorteio. A menina, porém, não ganhou o panda e ficou frustrada. "Quando a gente falou que eles podiam trocar entre si, ela abriu um sorriso inesquecível", diz Luciana.
Mais tarde, mãe e filha descobririam o motivo pelo qual a garota fazia tanta questão do bichinho. "Ela voltou do quarto com outros três pandas para nos mostrar. Tudo que queria era formar uma família", afirma Luciana. "Foi a coisa mais maravilhosa que eu já fiz", diz Isabela.
Origem
Morador do Recife, o diretor audiovisual Gustavo Arruda, 26 anos, é o criador da "Amor de Pelúcia", uma rede que hoje reúne cerca de 50 pessoas. A primeira campanha aconteceu no Dia das Crianças do ano passado, em Pernambuco, e conseguiu arrecadar mais de 600 ursinhos. Depois, o projeto se espalhou por Ceará, Minas, Rio e São Paulo.
Arruda ganhou da ex um camaleão e uma raposa de pelúcia. "Eu não queria ficar olhando para eles, sofrendo, então deixava no guarda-roupa", conta. "E aí percebi que o nosso armário pode parecer o coração: cheio de coisa escondida que a gente não quer mexer."
O objetivo do projeto é construir um "ciclo de amor", afirma o criador. "Aquele amor, que um dia foi importante para mim, pode ser repassado e trazer um sorriso."
Parte do grupo, a advogada Aline Holanda, 22 anos, doou cinco pelúcias - incluindo o presente do primeiro namorado, aos 14 anos. "Era um urso bem grandão. Era bem apegada a ele mas, depois de um tempo, foi parar no guarda-roupa", diz. "Ele não estava cumprindo seu papel de fazer uma criança feliz."
Uma ovelha também foi doada por ela. Quem recebeu foi a única garotinha de um abrigo no Recife. "Ela brincou por dois minutos", conta. "Me impressionou positivamente é que, mais do que o presente, as crianças queriam alguém do lado."
