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| Educadora Kátia rege as crianças: música a serviço da cura para melhorar a linguagem falada e as habilidades auditivas |
Encontrar crianças nos corredores do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC), o Centrinho, da Universidade de São Paulo (USP), é bem corriqueiro. Afinal, o próprio local nasceu há quase 50 anos (o embrião foi em 1967), após uma pesquisa que detectava que de cada 650 crianças uma tinha uma má-formação congênita lábio-palatal. De lá para cá, não parou de atender, até se tornar referência mundial.
O Centrinho reabilita portadores de fissuras labiopalatais e malformações craniofaciais, desde que congênitas, além de oferecer tratamento completo na área da audição e da visão subnormal, integrando-os à sociedade, sem distinção de raça, cor, sexo, religião ou de classe social. E se uma coisa é encontrar crianças nos corredores hospitalares, ver "in loco" como essa reabilitação se dá são outros quinhentos.
Coral do Cedau: música vence barreiras
O Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau) é um programa de reabilitação do Serviço de Educação e Terapia Ocupacional do Hospital. Tem como objetivo principal auxiliar a criança a usar sua audição com o uso de aparelhos ou implante coclear, buscando o desenvolvimento da fala. Dentre muitas atividades e estratégias que priorizam esse processo terapêutico destaca-se a música, e em especial o Coral do Cedau. Ele teve início como uma atividade terapêutica, mas com o passar do tempo se estendeu à comunidade por meio de apresentações culturais em escolas, Teatro Municipal e eventos da própria instituição.
"A música faz parte da nossa rotina terapêutica. Além de melhorar significativamente a autoestima das crianças, expandir o vocabulário, estimular o processamento auditivo temporal, possibilitar a oportunidade de integrar audição aos movimentos, é também na música que encontramos elementos essenciais para o desenvolvimento das habilidades auditivas e linguagem falada", explica Kátia Fugiwara de Oliveira, educadora do Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau).
Ela lembra que na atividade são trabalhados melodia, ritmo, duração, tom, intensidade, além do prazer e diversão que a música oferece.
"Cada apresentação do Coral nos dá a certeza de que a tecnologia aliada a um processo terapêutico que auxilie a criança a aprender e descobrir o mundo dos sons, faz com que as crianças e suas famílias acreditem que sonhos podem se tornar realidade", enfatiza Kátia de Oliveira. Ela destaca que as crianças se encontram em diferentes níveis de desenvolvimento, "por isso cada uma canta do seu jeitinho, mas todas com certeza encantam e dão um exemplo de superação".
Além de cantar, 'brincar de médico'
Quem estará, em breve, em condições de começar a exercitar a fala através do canto é Leonardo Isaque Talaço Moreira da Silva, que irá completar 5 anos em breve e se preparava para duas cirurgias, uma de adenoide e outra das amídalas.
Com problemas auditivos de nascença, vindo de Barretos, ele esperava, ao lado da mãe, Karina Talaço, a hora em que seria chamado para ir ao centro cirúrgico. Enquanto isso, brincava de médico. O que parecia uma simples brincadeira, na verdade é um programa do Hospital criado a partir de pesquisa entre os anos de 2010 e 2013.
"Nesta proposta, o objetivo era abordar questões referentes ao conhecimento da criança com fissura labiopalatina sobre os procedimentos e condutas do pré e pós-operatório que a mesma vivenciaria, por meio de uma "brincadeira": a simulação do caso de uma menina com fissura labiopalatina que seria "atendida" por essas crianças, que agora interpretariam o papel da equipe de médicos", conta a terapeuta Márcia Cristina Almendros Fernandes Moraes, chefe do Serviçode Educação e Terapia Ocupacional do HRAC-USP.
A proposta científica foi tão positiva que o HRAC-USP incorporou a atividade em sua rotina diária com os pacientes. E lá está Leonardo, devidamente paramentado de médico.
São oferecidas roupas semelhantes às do centro cirúrgico (em tamanho infantil), além de luvas e toucas descartáveis. Na brincadeira, a educadora faz o papel de mãe da boneca (paciente) e a criança faz o papel do médico/enfermeiro. Neste momento lúdico, a educadora aborda questões sobre a cirurgia, a necessidade do jejum pré-operatório, o porquê dos exames laboratoriais, os cuidados necessários após a cirurgia, dentre outros aspectos.
"Assim, é possível detectar qual o nível de conhecimento que a criança tem sobre a realidade que está enfrentando, desmistificando, tirando medos e familiarizando a criança com o ambiente hospitalar", explica a médica.
Crianças que não chegavam nem perto do equipo de soro, até falam para a boneca que naquele momento faz papel de paciente: "a 'picadinha' dói só um pouquinho, mas é muito importante para que você fique boa logo e vá para casa".
