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Mickey e o mundo, preocupados

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Em 1400 a.C. os hebreus se utilizaram de trombetas para derrubar o muro de Jericó que impedia o acesso à Arca da Aliança, onde Moisés guardou as tábuas dos Dez Mandamentos e outros objetos sagrados. O milagre se operou para que a humanidade conhecesse o mais extraordinário veículo de comunicação com Deus, mediante suas leis ditadas ao profeta. A primeira delas dizia que devemos amar a Deus no próximo, através do nosso irmão. Significa amar a todos, perdoar, servir e ninguém excluir. Na maior nação do mundo em tempos modernos, quem dá o tom é o trump´ete. Em vez de derrubar muros, pretende construir outros e aumentar a exclusão. Quem sabe queira anunciar que o fim do mundo está próximo, e de pouco adianta botar a boca no trombone.


Estamos todos perplexos, ainda, com a ascensão de um empresário arrogante e aventureiro, ao comando da maior potência econômica e militar do planeta. Faliu quatro vezes e não esconde que sonegou impostos, aproveitando-se das brechas legais.  Histriônico, xenófobo e machista durante a campanha, Trump atropelou uma quinzena de pretendentes do seu próprio partido e, depois, derrotou a democrata Hillary Clinton, apoiada pelo progressista e prêmio Nobel da Paz, presidente Barack Obama.


E quem é esse homem que votou em Donald Trump? Foi o cidadão precarizado no mundo do trabalho, e que viu baixar o seu padrão de vida ao limite do seguro-desemprego. Este homem rumina toda tarde diante da televisão com uma cerveja ao lado. Destila um saco de ódio a todos os vizinhos - mexicanos, muçulmanos, negros, estrangeiros, mulheres, gays - que ele imagina terem ocupado o seu lugar. Seriam as causas da sua desgraça. Esses imigrantes feios, sujos e malvados desorganizaram o “seu” mundo.

     

A eleição de Trump foi a resposta à negação do “sonho americano”, do qual Obama pretendia ser o maior símbolo contemporâneo. A divisão, na mais poderosa nação do ocidente, se aprofundou com o sinal trocado. Com Donald no poder, Mickey se mostra preocupado com o futuro da Disney, com a imigração barrando turistas. Pateta comemora. Tio Patinhas fica mais rico e Zé Carioca é deportado. Também terá que expulsar os ambientalistas.


O Acordo de Paris, apoiado pelo governo Obama e por mais 194 chefes de Estado, para conter o aquecimento global, não tem significado para Trump. Para ele, trata-se de entendimento fantasioso, que busca limitar a expansão da indústria norte-americana, quando o país precisa ampliar a oferta de empregos. Vladimir Putin aplaude. O governo forte russo pensa em estreitar relações com os EUA, abandonadas com Obama no poder. Na França, a conquista republicana foi festejada pela líder da extrema direita Marine Le Pen, candidata à presidência e com grandes chances de vitória no ano que vem. O mundo busca o diferente. Vide a eleição do antipolítico João Doria em São Paulo, eleito no 1º turno.

      

Em tempos passados, as eleições norte-americanas não ocupavam muito espaço na mídia brasileira. Vivíamos num mundo disperso e a tal de globalização era apenas uma ideia na cabeça de alguns teóricos e pensadores. Nossos interesses pelos EUA se prendiam ao cinema, moda, automóveis e aos “gadgets”, como eles chamam as engenhocas. Com a interação dos mercados e a criação de grandes blocos comerciais, a interdependência entre países se transformou numa realidade irrefutável. O que ocorre a milhares de quilômetros daqui, interfere no nosso dia a dia.

    

Os EUA são o segundo maior mercado para o Brasil, depois da China, e movimenta 50 bilhões de dólares por ano. Lá, vivem mais de 1 milhão de brasileiros, a metade ilegal. Trump pode bater no peito e adotar o famoso desabafo do Lobo Zagallo: “Vão ter que me engolir”. Entre os analistas, a chegada de Trump à Casa Branca marca o imponderável na área econômica. Churchill, quando ministro britânico, já alertava: “Os americanos costumam tomar a decisão certa, não sem antes tentar todas as erradas”. Com maior risco nos Estados Unidos, nós, os tapuias, ainda preferimos correr atrás do dólar. É uma coisa paradoxal. Dizemos que aqui tudo termina em pizza ou em samba. “O que será o amanhã? Responda quem souber.” (Enredo da União da Ilha do Governador).  

O autor é jornalista e articulista do JC

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