O presidente norte-americano governa uma nação cujas diretrizes econômicas e militares estruturam a vida das pessoas em todos os países. O presidente tem o poder de executar ordens de invasões, embargos e sanções pelo fato dos Estados Unidos serem a única potência militar global. Em termos práticos, isso significa que um presidente norte-americano tem o poder de devastar um país que o desagrade ou recompensar outro que lhe favoreça. As políticas econômicas que ele formata repercutirão em bilhões de vidas, talvez em muitas gerações, pois, a economia norte-americana é como um redemoinho, puxando tudo para seu turbilhão, com imperceptíveis contracorrentes que podem devastar países pequenos ou enriquecê-los.
O que parece prevalecer com a eleição de Donald Trump é a ideia sempre fomentada de que os Estados Unidos têm sim a opção de abandonar as complexidades de uma gestão do poder global. Sua vitória, nesta conturbada campanha eleitoral, é a vitória da crença de que, se os Estados Unidos parassem de mediar questões mundiais, o mundo pararia de detestá-lo e receá-lo e os norte-americanos poderiam desfrutar de seus prazeres sem medo de ataques. Essa convicção é a nostalgia de um tempo em que os Estados Unidos visavam seus próprios interesses domésticos e deixavam o mundo seguir sua trajetória.
Na verdade, o povo norte-americano tem problema em assimilar o tamanho e o poder de seu império e o fato de que ele é inerentemente destrutivo e intrusivo, o que indica que os Estados Unidos raramente podem dar um passo sem ameaçar alguma nação ou beneficiar outra. Sabemos que o poder não rivalizado é bastante perigoso, mas agora com Donald Trump, um poder não rivalizado e não consciente é como um elefante descendo uma ladeira. Sinceramente, não acredito em um descontrole desse tipo. Meu amigo de longa data, Eng. Carlos Tebecherani Haddad, recém-chegado de Damasco, descreve os Estados Unidos como um trem: ele pode oscilar um pouco pelos lados, mas, não sai dos trilhos.
Os interesses fundamentais dos Estados Unidos na gestão Trump são sua segurança física, a dinamização de sua econômica interna voltada para a produção e consequente geração de empregos e a vantagem econômica com o apoio a regimes úteis que favoreçam essa finalidade, independentemente do caráter moral desses regimes. Isso não significa relevar ou frear o processo pelo qual a economia continuamente se renovou, graças ao avanço de tecnologias de ponta. Foi essa "destruição criativa" que exige mão-de-obra muito qualificada quem gerou os eleitores de Trump, ou seja, a grande massa silenciosa e menos qualificada.
Na gestão Trump pode-se esperar a intenção de descontruir o processo de globalização e uma política externa implacável que identifique de maneira clara e fria os inimigos mais perigosos. Essa abordagem implacável também significa se livrar de todo sistema de alianças e instituições da guerra fria, incluindo a OTAN, o Fundo Monetário Internacional e as Nações Unidas. Para ele, essas relíquias da guerra fria são insuficientemente flexíveis para lidar com a diversidade do mundo atual. Enfim, o ponto em que ele não pode falhar é sua responsabilidade de orientar os Estados Unidos em um mundo hostil.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp