Polícia

Eles levam de tudo: nem outdoor e rede de esgoto escapam dos ladrões

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

DAE/Divulgação
Após tubos de PVC serem levados por ladrões, o esgoto passou a desaguar no Barreirinho

A criminalidade não tem poupado mais nada. Nada mesmo! A ousadia sem fim dos bandidos e o desespero gerado pela crise econômica fazem com que tudo - mesmo que tenha pequeno valor - seja visado pelos ladrões. Os casos beiram o absurdo em Bauru: há desde furtos de outdoor na beira de rodovia até - acreditem - de tubulação de esgoto de 83 quilos. Um dos últimos registros também inclui medidor de energia e toda a fiação elétrica de um imóvel fechado.

São os chamados furtos de ocasião, nos quais materiais de pequeno de valor são levados para benefício dos próprios ladrões ou, segundo a Polícia Civil, para fomentar a microtraficância, principalmente ligada ao consumo crack. São cometidos geralmente por pessoas já fichadas na polícia, que, por isso, nutrem certa sensação de impunidade em relação à segurança pública.

Crimes estes que, apesar de sempre existirem, parecem cada dia mais constantes e ousados. Agora, impulsionados por um novo fator: a crise econômica aumentou índices de desemprego e amplificou a desigualdade social, impulsionando mais pessoas à criminalidade. Relação essa também apontada por um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e que prevê ainda uma piora neste cenário (leia mais abaixo).

SEM PRISÃO

As seis tubulações da rede de esgoto furtadas na transposição do Córrego Barreirinho possuíam 14 polegas e 6 metros de comprimento e pesavam 83 quilos, além de serem chumbadas a um anel de ferro. Características que não foram suficientes para impedir que os tubos fossem levados. O caso, que ocorreu há pouco mais de um mês, foi registrado na Polícia Civil como furto qualificado, mas ninguém foi preso até hoje.

O furto gerou até mesmo dano ambiental, uma vez que o esgoto passou a ser lançado no córrego. O reparo do DAE durou dois dias.

Outro ocorrência, registrada nesta quarta-feira, envolve uma casa, que estava fechada para alugar, e teve toda a fiação elétrica e um medidor de energia levados. O crime só foi notado pelo proprietário do imóvel no dia seguinte. Também não houve prisão.

QUATRO PRESOS

Casos que se diferem, pelo desfecho, do furto qualificado das 17 vigotas levadas de um outdoor no quilômetro 336 da rodovia Marechal Rondon (SP - 300), na altura do trevo da Eny, também na noite da última quarta-feira. Quatro homens, de 28, 38, 46 e 51 anos, moradores do Jardim Nicéia, Jardim Flórida e Ferradura Mirim, foram presos pelo crime e ainda por associação criminosa. Eles foram flagrados por policiais militares enquanto tiravam a madeira de um outdoor com um pé de cabra.

"Toda semana temos problema com o furto da estrutura dos painéis. É algo difícil de flagrar, mas acontece às vezes. Eles tiram as madeiras e as lonas, geralmente, para vender na periferia", comenta Ricardo Mangiolardo Marino, advogado da empresa de outdoors furtada.

'POR UM TROCADO'

Para a Polícia Civil, são crimes realizados, em sua quase totalidade, por usuários ou microtraficantes, que se utilizam desse artificio para poder, por meio de um receptador intermediário, fazer dinheiro.

No caso da microtraficância, ocorreria até mesmo o recrutamento de usuários que fariam furtos e roubos "encomendados" em troca de entorpecentes.

PARA USO PRÓPRIO

Segundo o Centro de Inteligência da Polícia Civil, o caso recente de uma moça que teve o celular furtado de dentro de sua bolsa em um comércio da cidade ilustra um outro possível perfil dos furtadores de ocasião.

Com o Imei do equipamento, a polícia chegou até a autora, que não era usuária de crack e alegou ter furtado o aparelho apenas para o uso pessoal.

Outros furtos de ocasião ocorrem quando as vítimas, muitas vezes por desatenção, acabam expondo seus bens, principalmente em via pública, virando alvos fáceis da criminalidade. 

A Polícia Civil reitera, no entanto, que o ciclo que alimenta os furtos de ocasião, via de regra, é o do crack. E ressalta a importância do registro do boletim, já que a subnotificação atrapalha a investigação.

Estudo prevê que segurança pública ainda vai piorar por conta da crise

Decorrente da crise econômica, o processo de retração social deve impactar ainda mais negativamente no futuro da segurança pública. O cenário é previsto no livro "A segurança pública no Brasil em 2023: uma visão prospectiva", elaborado pelo Ipea em 2013.

A obra aponta que há tendências de manutenção do perfil demográfico jovem do País, com elevada desigualdade social e fácil acesso a armas de fogo; crescimento da criminalidade violenta no Interior; baixa confiança da população na polícia; e o aumento dos mercados explorados por facções criminosas. O livro resulta de um estudo do órgão que apresenta quatro cenários: o de prevenção social; repressão qualificada; violência endêmica; e repressão autoritária.

Cenários que são traçados com objetivo de que sirvam como instrumento de gestão e embasem a atuação do governo federal nas políticas de segurança pública para os próximos anos.

Furtos de ocasião X bagatela

No furto de ocasião, o objeto do crime não possui expressão de valor, ou seja, é um é um crime sem muita repercussão jurídica e passível de arquivamento, como, por exemplo, no caso do furto de uma barra de chocolate. Diferentemente do furto de um outdoor ou de uma rede de esgoto, que há além da questão do valor patrimonial, uma situação de conservação do patrimônio público.

'Enxugar gelo'

A grande demanda que a PM encontra para atender outros tipos de ocorrências acaba afetando o patrulhamento preventivo, que poderia coibir alguns desses crimes de ocasião. Além disso, tem o fato de "enxugar gelo" enfrentado pela corporação. "Mesmo quando identificado e conduzido à delegacia, o autor dificilmente fica preso por causa da legislação. E quando ele volta para rua, volta a delinquir", pontua o coronel Flávio Jun Kitazume. "A PM, sozinha, não consegue resolver o problema do avanço do crack e da vulnerabilidade", finaliza o coronel.

E quem compra?

Nas mãos do ladrão, um item que era R$ 100,00 acaba ofertado até por R$ 20,00 ou é "transformado" em pedras de crack.

Com preço bem abaixo do mercado, a oferta acaba conquistando o consumidor que, ao firmar uma compra do tipo, pode ser enquadrado como receptador de ocasião. Com isso, passa a responder pelo crime na sua forma culposa, dolosa ou qualificada (no caso de empresas ou negociadores informais). A imputação do comprador decorre justamente da propulsão que essa atitude, de comprar produtos de crime, dá a crimes maiores, como roubos e o tráfico de drogas.

Comentários

Comentários