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Bem-vindo ao mundo da pós-verdade

Zarcillo barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Entrou em moda no mundo inteiro o adjetivo relativo "pós-verdade". Denota as circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e crenças pessoais. O termo justificaria a vitória de Donald Trump à presidência do Estados Unidos e de todos os políticos que mentem descaradamente para o povo. Todos os anos, a Oxford Dictionaires elege uma palavra-chave. No ano passado a escolhida em enquete foi "emoji", pictografia criada no Japão. Aquela pequena imagem digital ou ícone que expressa uma ideia ou emoção na comunicação eletrônica. Gosto daquela face com lágrimas de alegria. Os lexicógrafos do Oxford escolhem a palavra do ano como forma de refletir "o ethos, o estado de espírito e as preocupações" de um determinado ano.

O surgimento da palavra pós-verdade na linguagem foi alimentado pela ascensão das redes sociais como fonte de informação. Mente-se muito, e com sucesso, quanto ao objetivo de abalar valores do poder estabelecido, como politicamente corretos. O "pós" prefixo não se refere a uma situação ou acontecimento específico posterior, como pós-guerra, mas também para salientar a rejeição ou irrelevância de um conceito. Trump, o político mais mentiroso da história, disse que o presidente Obama nasceu no Quênia e, portanto, não poderia estar na posição que ocupa. O comitê de campanha espalhou a "notícia" de que o Papa Francisco apoiava Trump, compartilhada quase 1 milhão de vezes. Falsa. O chefe da campanha Stephen Bannon, capitaneava um site com "informações" difamatórias sobre os rituais de magia negra de Hillary. Mas, o importante para grande parcela do eleitorado na era da pós-verdade, é que Trump fala grosso e tem coragem de se insurgir contra as elites; e é capaz de agarrar uma mulher pela genitália.

Na Inglaterra, a classe média insatisfeita fez a campanha vitoriosa para a saída do Reino Unido da União Europeia, espalhando que o Estado tinha um prejuízo de 400 milhões de libras por semana. O Brexit é que vai dar prejuízo. Inventaram outra: que a Turquia vai entrar para a zona do euro e encher a Inglaterra de imigrantes. E o plebiscito deu pela saída britânica, por desejo da maioria. Na Colômbia, a maioria negou o acordo de paz com as Farc. O resultado do referendo esvaziou a oportunidade de se acabar com uma guerra civil que já dura 50 anos e fez milhares de vítimas. Como ressaltou a revista "Economist", a verdade passa a ter importância secundária. Antes, o propósito da mentira era criar uma falsa visão do mundo. As mentiras de homens como Trump não funcionam assim. Elas não buscam convencer as elites, a quem os seus eleitores-alvo nem confiam ou gostam, mas reforçar preconceitos. Sentimentos, não fatos, são o que importa neste tipo de campanha. Vale para Bauru ou qualquer outra cidade pequena ou grande do planeta. "Mentir no jogo político não é feio e nem deve ser evitado" - dizem os defensores da tese.

As redes sociais estão fragmentando as fontes de notícias, criam um mundo de rumores e fofocas e ameaçam engolir o jornalismo. Falsas informações são compartilhadas on-line dentro da rede. Os seus membros confiam uns nos outros, mais do que qualquer mídia institucional. Impressa ou televisada. O jornalismo bem-intencionado também tem sua parcela de culpa. A busca da "imparcialidade" - ouvir todos os lados -, muitas vezes cria um equilíbrio falso em detrimento da verdade. O leitor sente saudades da informação de qualidade - completa, fidedigna, esclarecedora, analítica.

O ultraconservadorismo pela recusa da política tradicional e as facilidades dadas à internet para difundir mensagens controversas dão marcha à ré também na globalização. Começam a achar que os blocos econômicos são os culpados pela crise no mundo.

A democracia é solapada. O filósofo britânico Jason Brennan criou a "epitografia", nova utopia para acabar com a liberdade das péssimas escolhas. Somente poderiam votar as pessoas com intelecto e conhecimento de ciências sociais. Aristóteles pregou algo parecido em A República, quando Platão atirou no lixo tudo o que escrevera sobre Democracia, depois que Atenas condenou Sócrates à morte.

O influente sociólogo alemão Wolfgang Streeck profetizou a morte trágica do capitalismo. Karl Marx já previra, mas o capitalismo sempre se retroalimentou. O casamento entre a democracia de sufrágio universal e o capitalismo, que surgiu no pós-guerra, está terminando em divórcio - sentencia.

 

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