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A morte do eterno revolucionário

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

É verdade. Fidel Castro morreu. Morre o homem, vive a lenda. Daqui para frente o herói do povo poderá cavalgar pela terra injusta, como El Cid, o Campeador, que, mesmo morto, vencia batalhas. Foi ídolo de todos nós, que éramos jovens nos anos 1960. Batalhas teve de sobra – e disso se falará até que a História lhe dê algum descanso, nos capítulos reservados às maiores figuras do século 20. “Não é nem o monstro que certos meios de comunicação ocidentais descrevem nem o super-homem que às vezes os cubanos apresentam. ” Assim o retratou Ignacio Ramonet, jornalista do Le Monde, um dos poucos a entrevistá-lo: “é um homem com princípios éticos e morais rigorosos, que leva um modo de vida muito austero e frugal”.  

   

Nunca apoiou o terrorismo e nem as guerras. Transformou os quarteis de Cuba em escolas. O povo é quem tem armas em casa para defender o país, ou para derrubar o regime, quando quiser. Durante cinco décadas, dez presidentes dos EUA tentaram derrubá-lo:  Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho. Em dezembro do ano passado, coube a Obama assinar o acordo histórico pondo fim ao cerco econômico. Teria que ser um negro. A Revolução Cubana, amadureceu – ou empobreceu – conforme as opiniões. O tempo e os ciclos da história mudaram as pessoas, e o mundo. Direitos econômicos e sociais hoje não podem se sustentar sem direitos civis e políticos, sem liberdade para criar;

   

Fidel Castro, de família rica, poderia ter vivido à larga no tempo em que Cuba era o grande quintal norte-americano, com suas praias paradisíacas e bordéis de clientes certos. Dizem os biógrafos, era um país a procura de amor-próprio. Fidel estava cheio de razões ao se insurgir contra  Fulgêncio Batista, títere dos Estados Unidos.  O ditador defendia as organizações criminosas que exploravam os jogos e a prostituição.  Em 1953 Fidel juntou-se a um punhado de insurgentes e liderou o assalto ao quartel de Moncada. Foi preso e acabou exilado no México, onde conheceu um tal de Guevara, argentino que começava e terminava as palavras com che.


Tanto pode significar o nosso “tá”, como caramba. No final de 1956 comprou uma lancha velha chamada Granma (Avó) e desembarcou com 25 homens para se alojar em Sierra Maestra, onde o movimento cresceu até derrubar  Batista, no primeiro dia do ano de 1959. Empossado primeiro-ministro, Fidel mandou para o “paredón” os corruptos e inimigos do povo. Diante das pressões norte-americanas adotou em 1961 o regime socialista baseado no regime soviético. Tornou-se porta-voz do Terceiro Mundo.


Em tempo de Guerra-fria, a opção de Fidel enfureceu os norte-americanos; vem o embargo e uma sucessão de episódios que marcaram a Ilha e o mundo. Kennedy estimulou a invasão de descontentes cubanos à Baía dos Porcos, em 1961. O próprio povo armou-se e derrotou os invasores. Um ano depois acontece a crise dos mísseis. Fidel permitiu à URSS a instalação de bases de foguetes em Cuba, a 120 quilômetros da Flórida. A guerra nuclear só não aconteceu porque Kruschev recuou. Viria ainda a tentativa de exportação da revolução para a América Latina e a morte de Che na Bolívia. Mesmo com todos esses distúrbios, Fidel tratou de formar uma sociedade solidária. Eis o seu grande segredo. Erradicou o analfabetismo e a prostituição. Fez da saúde, da alimentação básica e da habitação direitos elementares.

   

E por fim, o lado da História com que Fidel não contava: a derrocada dos regimes comunistas do leste europeu.  A URSS comprava o açúcar cubano a preços acima dos praticados no mercado e vendia combustível mais barato. Era o suficiente para manter a economia cubana pobre, mas com o mínimo para todos. Findo o “período especial”, veio a onda dos balseiros, de 1994; a aflição econômica apesar das receitas do turismo. Por ironia, Cuba passou a ser sustentada pelas remessas dos emigrantes  aos familiares que ficaram na Ilha.

   

Alguns analistas vaticinam que, como aconteceu na Europa do Leste depois da queda do Muro de Berlim, o regime atual será prontamente derrubado. Há uma diferença fundamental, segundo Ramonet: os regimes comunistas europeus eram impostos pela União Soviética e detestados por parte ponderável da população. Em Cuba, o povo sempre esteve ao lado do comandante, salvo algumas dissidências. “Patria o muerte” – era o lema de Fidel.


O autor é jornalista e articulista do JC

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