Tribuna do Leitor

Pronto-Socorro Municipal x ?Contas da prefeitura equilibradas?

Paulo Roberto Franco
| Tempo de leitura: 6 min

Em face da situação que estamos vivendo desde o dia 08/11/16 e ainda sem solução, fiquei pensando  em que lógica se baseia  a segunda parte da frase título, inclusive acordada pelo nosso futuro prefeito. O que significa? Ora, se guardo um dinheiro e não gasto, ao final de um processo tenho finanças equilibradas, mas também não comprei nada do que precisava. Isto remete à parábola bíblica em Mt 25,15, onde diz que um senhor, por ocasião de uma viagem, entregou a seus servos certa quantidade de talentos para que guardassem à sua maneira advertindo-os que deveriam devolvê-los quando voltassem.

     

Alguns aplicaram o dinheiro, outros fizeram negócios devolvendo ao patrão quantia maior do que foi-lhes confiado. Um deles, porém, por medo, enterrou o seu talento e devolveu exatamente o mesmo valor que lhe foi confiado. E disse ao patrão: “O senhor é homem austero que cobra, fiquei com medo de perder e enterrei. Veja,  não perdi nada, aqui esta o valor que me entregou.” O patrão lhe responde: “Servo mau e negligente, devia ter aplicado...(s), lançai-o pois nas trevas exteriores...)”. Muito tem a ver com a Lei da Responsabilidade Fiscal atrás da qual a maioria dos gestores se escondem para justificar o que não fez, mas claramente de uma maneira seletiva. É uma das razões que explicam a “lavada” que tomou o candidato do prefeito na última eleição, uma quantidade de votos que chega a ser ridícula, uma derrocada vergonhosa para o grupo que administra a cidade há dois mandatos. E o povo disse : “É hora de mudar”.

     

A situação de finanças equilibradas pode ser mostrada matematicamente, mas a vivência dos bauruenses na base da pirâmide social a invalidam. O que quero relatar já é de conhecimento geral e quase toda semana tem algo relacionado na mídia; mas faço questão de fazê-lo mais uma vez com a ajuda deste grande veículo de comunicação expressando a minha indignação, aproveitando para alertar o futuro prefeito do rumo que vamos dar-lhe ou a seu indicado na próxima eleição, caso não haja mudanças como promete. Pois bem: nosso pai tem 86 anos de idade e uma saúde que se precariza de um ano para cá.

    

Várias vezes recorremos às UPAs e em todas elas, que foram 3, tivemos que fornecer lençol, cobertor, fralda e travesseiro porque o UPA não tinha. Noutra vez precisaram dar alta na correria porque o UPA seria fechada no dia seguinte; não teria médicos para atender. Alguém explicou que não há como contratar médicos e que os contratados não podem fazer hora extra. Aí fica uma loucura, pacientes são transferidos para outros UPAs, outros têm alta mesmo que seja para voltar na segunda-feira e o UPA fecha.

    

É um procedimento sistemático e programado e de uma improdutividade exuberante, não dá para acreditar que os que planejam este sistema sejam especializados. Pensando que o Pronto Socorro Central pudesse ser uma alternativa melhor, para lá levamos o velho. Ele ficou dentro do carro das 18:45h até 19:30h porque não havia maca disponível. A primeira instrução foi nem fazer o cadastro de entrada e levá-lo a um UPA, não podiam recebê-lo porque não tinha maca. Aí presenciei fatos dignos de choro: chegou uma ambulância do Samu, desceu o paciente e como não tinha maca não havia como alojar o azarado e o Samu ficou sem a maca, a dele ficou “presa” no atendimento do PS com o paciente em cima. O motorista optou por voltar à base sem a maca, condição que torna uma viatura especial e uma equipe altamente especializada totalmente inoperante.


Não dá para trabalhar sem maca, eu os vi no dia seguinte virem buscar. Com tanta gente pra socorrer, podemos nos dar ao luxo de manter uma situação destas? Pensam que acabou? Na sequência chega uma viatura da Via Rondon ou Cart, não me recordo bem, e acontece a mesma coisa: a maca deles fica “presa” e eles também se retiram. Pensei: nossa, que coisa absurda. Mas não acabou ainda. Chega na sequência uma ambulância de serviço particular e também “perde” a maca. Eles não foram embora e somente às 21h03 tiveram sua maca liberada. Aquela noite passamos com 15 pacientes em macas e camas no corredor, a maioria com acompanhantes sentados nas cadeiras que encontravam.


Se você deixasse a sua por 5 minutos não a encontrava mais. Cadeiras de aço destas tipo bar, outras  que têm uma tela recoberta por uma manta estofada, mas a manta não existe e a pessoa senta na grade a noite toda como acompanhante. Pensei, esta aqui a prefeitura pegou lá no descarte do Ecoponto. Ainda nem falei da espera de vagas porque alegam que não é problema da prefeitura e sim do Estado ou sei lá de quem. Agora, esta questão das macas é demais. Várias das macas eram do PA Infantil e estavam etiquetadas.

    

Quanto será que custa uma maca? A prefeitura não tem dinheiro para comprar 10 (dez) macas e colocar lá porque vai complicar o prefeito na Lei da Responsabilidade? Me liguem, eu junto alguns amigos e pelo menos uma nós conseguimos, talvez outras pessoas se animem e também o façam, resolvendo mesmo que precariamente o problema. A água que o povo bebe é quente, mesmo nas duas geladeiras industriais com torneiras identificadas como “gelada”. Pintura, portas, sanitários sem privacidade, sem maçaneta, uma porta da Sala de Emergência chegou a cair, coisas simples; uma equipe de 4 pessoas durante 15 dias tornaria aquilo “um céu”.


Uma zona de guerra, que sofrimento é imposto aos que dependem do nosso sistema de saúde além do que os motivou a ir até lá. São humilhados pelo que lhes é oferecido. Eu convido o sr. prefeito Rodrigo Agostinho, o ex candidato Renato Purini, o sr. secretario da saúde  dr. José Fernando Monti,  o novo prefeito sr. Clodoaldo Gazetta e o nosso deputado estadual Pedro Tobias (que ocupa o cargo desde 1998, parceiro do governador) a visitarem o PS à noite, dias alternados, se não tiverem tempo pode ser durante o dia mesmo, aliás,  convido não; desafio.

 

Claro que este protesto será ignorado, é mais fácil, assim não chama atenção e se porventura alguém questionar certamente será para manipular o contraditório. Mas não me preocupo. Sei que funcionários não falam porque são tão vitimas como os usuários, mas eu sei o que vi, o que vivi e o que registrei e uso da verdade. Aliás, cabe aqui um elogio à equipe médica e a enfermagem, como trabalham, tentam suprir as falhas do sistema com o bom atendimento e o carinho.   

   

A vocês, o meu muito obrigado. Mas lembrem-se, srs. políticos, são estes talvez 90% da população menos favorecida que votam nos senhores, mas tão acostumados com o sofrimento que já estão sem forças para reclamar e pedir caridade e humanidade de quem se propõe a fazer. Não é possível que vai ser assim para sempre. Meu pai sempre repetia a máxima: “O boi não sabe a força que tem”.

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