Várias foram as vezes nas quais, nesse ano de 2016, eu tive a desconfortável sensação de que o tempo estava passando rápido demais, sem que sequer eu tivesse tempo de cumprir com minhas obrigações, como de reservar alguns momentos para me dedicar aos amigos, familiares e às coisas que gosto de fazer. Acredito que não seja apenas comigo, mas eu tive a nítida sensação de ter sido atropelada por esse ano.
Curiosa e paradoxalmente, no entanto, 2016 já se alongou para mais do que devia. No Brasil a política e a economia foram destaques, mas negativos. Ainda que, por óbvio, na vida de cada brasileiro, por certo várias coisas boas devam ter ocorrido, não está sendo fácil sobreviver ileso a 2016. Já nos estertores do ano ainda somos assolados, quase que diariamente, por notícias dolorosas, tal como a do infeliz acidente aéreo envolvendo a equipe de futebol do Chapecoense, time do estado do Paraná.
Triste demais o fato de tantas vidas serem perdidas assim. Ainda que eu não seja uma especialista em futebol, sei que o time vivia uma excelente fase, que aos poucos vinha se firmando no cenário esportivo e que, em seu casting havia muitos moços repletos de sonhos, gente que espelhava toda a esperança e orgulho de seus familiares. Descobri, assistindo aos noticiários, que um dos jogadores, o lateral-direito Mateus Caramelo, de 22 anos, além de figurar entre os mortos, era natural da cidade paulista de Clementina, local em que vivi parte feliz e inesquecível de minha infância.
Há muitos anos minha família se mudou de Clementina, mas lá ainda temos vários amigos e, nas cidades vizinhas, familiares. Já faz alguns anos que não vou até Clementina, mas essa cidade, para mim, sempre será especial. Para quem não conhece, Clementina é uma cidade bem pequena, interiorana, que ainda preserva uma atmosfera que já não se vê em muitas outras cidades do Brasil. Estou certa de que a população de Clementina, em sua grande maioria formada por pessoas simples e trabalhadoras, devia ser muito orgulhosa de seu menino prodígio e que, nesse momento, deve estar, ao lado da família, vivenciando um luto que soa precoce e injusto demais.
Fico eu aqui pensando, olhando as fotos do jovem Caramelo, de apelido doce, sempre sorridente e com semblante feliz e imagino que ele fosse um rapaz alegre, pleno de desejos e da vontade de que o sucesso o permitisse também ajudar a família, lá na pequenina Clementina. Bonito, acredito que devesse ser assediado pelas moças ou que até já fosse comprometido, deixando órfão algum coração inconsolável. Tudo isso, no entanto, são elucubrações de quem, de longe, lamenta a morte de tantas pessoas, desejosa de que nada fosse mais do que um engano, uma notícia falsa e não mais uma das pancadas de 2016.
Escrever não tem o dom de acalentar ou de reviver ninguém, lamentavelmente, mas é o que posso fazer, é a homenagem que posso render aos que se foram e aos que ficaram. Em algum lugar aquele avião continua voando, agora para outros campos, para um campeonato em que todos serão vencedores, acolhidos por uma torcida que os aguarda igualmente de braços abertos. Para os que aqui ficam, resta a esperança do reencontro, a certeza de que os seus entes queridos, ao seu modo, no tempo de vida que tiveram nesse mundo, deram o melhor deles.
Como disse acima, pouco sei de futebol, mas, em 2016, o Chapecoense deveria ser aclamado campeão, pois, na revoada final, o seu time, agora eternizado, receberia a justa homenagem e, quem sabe, redimiríamos um pouco a crueldade e a dureza de tantos dos dias que 2016 nos entregou... Salve o Chape!